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1968: O ano que não terminou
Zuenir Carlos VenturaRevisão de originais e tipográfica SOLANGE D' ALMEIDA TELLESPAULO CESAR CORGA DE ARAUJOCIP-Brasil, Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores deLivros, RJ.Ventura, Zuenir. Zuenir Ventura. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.1. Brasil - Política e governo - 1968.2. Jovens - Atividades políticas.3. Jovens - Comportamento social.A Mary, Mauro e Elisa, comPanheiros de viagemA meu Pai, Por quase um século de lutaEm memória deLeon Hirszman, Hélio Pellegrino e Joaquim Pedro de Andrade"... Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir delição."(MÁRIO DE ANDRADE)AgradecimentosEste livro é o resultado de uma conjuração de afetos e amizades. AMary Ventura devo a idéia. A Sérgio Lacerda, a coragem de bancá-la.A Fernando Pimenta, a participação especial.A Mauro e Elisa Ventura, fico devendo o apoio moral e concreto emtodas as fases do projeto.Gobery do Couto e Silva a papéis que obteve da Biblioteca LyndonJohnson permitirá aos leitores conhecer agora documentos inéditos,como o teor da ata da históricasessão do Conselho de Segurança Nacional de 13 de dezembro de 68 - aque decretou o AI-5 - e alguns relatórios secretos da CIA. Tãoprecioso quanto esse material,é o gesto de quem o cedeu. No jornalismo, onde a busca daexclusividade e do furo costuma justificar qualquer usura, são rarastais prodigalidades.A Luiz Garcia, que consegue ler tão bem quanto escreve, umagradecimento especial pelo rigor da leitura dos originais. Épossível até que, por falta de tempo, eunão tenha atendido a todos os aperfeiçoamentos sugeridos. Que issonão lhe seja debitado.Há muitos a quem agradecer. Aos companheiros de trabalho - do JB, daEscola de Comunicação da UFRJ e da Escola Superior de DesenhoIndustrial - pela cobertura queme deram durante essa minha demorada fuga para o passado. A MárioPontes, um reiterado obrigado pelas múltiplas contribuições. Esseagradecimento se estende a Antoninhode Paula, pela diagramação do livro e por muito mais do que não ficouvisível. De Claudio Bojunga e Wilson Coutinho não esqueçoo continuado estímulo e, sobretudo,as valiosas idéias e sugestões.A Daniel Liberato e Sylvio Romero Ferreira da Cruz, pela transcriçãodas gravações, a Márcio Salgado, pela colaboração na fase inicial dapesquisa, e a Elisa Venturae Bebete Martins, pela organização do material, inclusive dabibliografia, o meu reconhecimento. Fico devendo muito à paciênciados que se dispuseram a prestar depoimentospara este livro e a alguns amigos que me ajudaram a tomá-los ou queos tomaram pormim: Alda Palma, Norma Cury, Paulo Gil Soares, Márcio Salgado,Ricardo Lessa e, principalmente, Roberto Pumar.Este lançamento não teria cumprido o seu prazo sem a operação queconjugou a competência e organização de profissionais de váriosdepartamentos do JB: do setor deinformática à oficina. Um agradecimento especial a Xico Vargas, à
 
equipe do Projeto Automação - Proauto - ao Departamento de Pesquisa eà Biblioteca, a FranciscoFlávio, Umberto Rio, Jurandir Ventura, Márcio Barroso, João Diniz,Accácio M. Teixeira, Márcia Abreu do Nascimento, Marcos Antonio M. deSouza, enfim a todos oscompanheiros do PCP, do Processamento e da Fotomecânica. Minhagratidão ao carinho com que dois extraordinários profissionaiscuidaram criativamente da revisão:Solange D' Almeida Telles e Paulo Cesar Corga de Araujo.Não há como deixar de registrar uma dívida interna para com algunsmodelos desse, digamos, jornalismo de reconstrução, gênero no qual,se não fosse a pretensão,gostaria de incluir o meu livro. São hoje fontes de inspiração esugestão trabalhos como A sangue frio, de Truman Capote, Oassassinato de Lorca, de Ian Gibson,A rive gauche, de Herbert R. Lotman, e o admirável Olga, de FernandoMorais, para só citar alguns.Nesse quase um ano de trabalho, muitos foram os empréstimos, doaçõese indicações - de revistas, jornais, discos e livros raros. Por isto,agradeço em especial aArtur Xexéo, Etevaldo Dias, Alberto Rajão, Alfredo Machado, MariaCosta Pinto, Alesandro Porro, Mauro Malin, Tárik de Souza, HumbertoWerneck e Joaquim Ferreirados Santos. Além dos citados, o meu reconhecímento aos seguintesamigos, pelo estímulo eou ajuda: Ancelmo Gois, Ângela Maria de AquinoSaraiva, Beto Costa Souza/PauloMarkun/TV Cultura de São Paulo, Carlos Alberto M. Pereira, CeresFeijó, Eliane Leite de Souza, Geneton Moraes Neto, Guguta Brandão,Iesa Rodrigues, João BatistaFerreira, João Manoel Cardoso de Melo, José Antônio Ventura, LianaAureliano, Luís Eduardo Conde, Macksen Luiz, Marcelo Pontes, MárciaCezimbra, Maurício Ferreirados Santos, Maurício Stycer, Mílton Temer, Miriam Leitão, MunizSodré, Ricardo El-Jaick, Ricardo Osman, Roberto Benevides, SusanaSchild, Teté Muniz, Zinota Erthal,Ziraldo.O livro sai sem prefácio. Ele seria feito por quem mais me estimuloua realizar esse projeto: Hélio Pellegrino. Pouco antes de morrer,Hélio lembrou-se de que háquase 20 anos, na cadeia do Regimento de Cavalaria Marechal Caetanode Faria, onde estávamos, eu o presenteara com o livro Cem anos desolidão, com a seguinte dedicatória:"A Hélio, um homem aberto com quem eu fecho." É a dedicatória que eurepetiria para ele neste livro.
1968: O ano que não terminou
Introdução
A nossa história começa com um réveiZlon e termina com algo parecidoa uma ressaca - ressaca de uma geração e de uma época. Entre os dois,o Brasil e o mundo viveramum tempo apaixonado e apaixonante. É possível que 1968 não seja, comoquerem alguns de seus hagiólogos, o ano zero de uma nova modernidade,embora os estudantesfranceses já tivessem avisado, na época, que era apenas o começo: "Cen'est q'un début", advertiam os muros de Paris.O sociólogo Edgar Morin, que acompanhou o maio francês e em seguidaveio ver nossas passeatas, falou em "êxtase da História". Seu colegamais velho, Raymond Aron,assustou-se com a "demência coletiva", para mais tarde admitir queaquele "psicodrama coletivo" - outra de suas classificações
 
pejorativas - mudara a França.Na mesma época, em outro país, a Alemanha, o igualmente célebrefilósofo Jürgens Habermas chamou os jovens iracundos de 68 de"fascistas de esquerda", mas hoje reconheceque toda a atualidade cultural, da ecologia ao individualismo,começou a brotar naquele ano.A morte não deixou que o grande Pier Paolo Pasolini pudesse rever, 20anos depois, o seu ódio imediato aos "pequeno-burgueses filhinhos depapai e do poder". Numenorme poema-manifesto, o cineasta comunista registrara, paraescândalo geral da época: "Odeio vocês tanto quanto odeio seus pais."De todos os que escreveram no calor da hora sobre os acontecimentosde 68, só Morin estava certo: "Vão serprecisos anos e anos para se entender o que se passou."Já se passaram 20 anos e 68 continua a ser uma obra aberta, parasitaruma categoria tão na moda. Aliás, o seu13criador, Umberto Eco, foi quem recentemente forneceu a melhor pistapara se aproximar daquele ano-chave: "Podese processá-lo, analisá-lo,condená-lo, mas não cancelá-locomo um fenômeno de loucura."Mas também - seria o caso de acrescentar - pode-se exaltá-lo,romantizá-lo, contanto que não se tente sacralizálo como um momentode inspiração divina da História.O jornal Le Monde lamentava há pouco que 68 costuma ser tratadoapenas como "um mito e um mal-entendido" e isto na França, que gostade olhar para o passado e quevem se debruçando seriamente sobre as lições do que considera ser oacontecimento mais importante desde a II Guerra Mundial, maisimportante mesmo do que a guerrada Argélia.Se esse esquecimento ocorre na terra de Proust, o que dizer de umpaís que sofre de amnésia crônica e onde, como já observou IvanLessa, "de quinze em quinze anos,esquecemos os últimos quinze anos"?Com persistência rara, para o Brasil, 68 ainda povoa o nossoimaginário coletivo, mas não como objeto de reflexão. É uma vagalembrança que se apresenta, ora comototem, ora como tabu: ou é a mitológica viagem de uma geração deheróis, ou a proeza irresponsável de um "bando de porralocas", comose dizia então.Na verdade, a aventura dessa geração não é um folhetim de capa-e-espada, mas um romance sem ficção. O melhor do seu legado não está nogesto - muitas vezes desesperado;outras, autoritário - mas na paixão com que foi à luta, dando aimpressão de que estava disposta a entregar a vida para não morrer detédio. Poucas - certamentenenhuma depois dela - lutaram tão radicalmente por seu projeto, oupor sua utopia. Ela experimentou os limites de todos os horizontes:políticos, sexuais, comportamentais,existenciais, sonhando em aproximá-los todos.Sem dúvida, há muito o que rejeitar dessa romântica geração deAquário - o messianismo revolucionário, a onipotência, o maniqueísmo- mas há também muito o que recuperarde sua experiência.Pouco antes de morrer, o psicanalista Hélio Pellegrino, um tipoinesquecível dessa e de outras épocas, dizia, num depoimento paraeste livro: "Nós aprendemos coma loucura, a generosidade e o sangue deles."14Aos 44 anos, Pellegrino era um personagem da geração de 68, que dizia
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