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INTRODUÇÃO
C
omplexidade tem sido a palavra maisempregada para caracterizar o panorama mundial e osproblemas que nele se apresentam. Entre eles, destacam-se: a rapidez do crescimento demográfico, a acentuadadiferença entre ricos e pobres, o fenômeno da globalizaçãoque, em conjunto com as novas tecnologias decomunicação, leva à difusão da produção cultural dasgrandes potências mundiais, provocando a erosão dasespecificidades culturais dos países menos desenvolvido,os conflitos declarados entre as nações, etnias ecomunidades religiosas, levando à configuração de um“mundo multirrisco” complexo e inseguro
(1)
.Alguns autores consideram que o mundocontemporâneo se defronta com vários desafiosrelacionados com o pensamento fragmentado, fruto doracionalismo da era moderna
(2-3)
.Uma outra característica dos dias atuais é aproliferação do conhecimento, que se transformarapidamente e se encontra dividido em áreas isoladas,fenômeno esse conhecido por “disciplinaridade”
(4)
.A complexidade do mundo e da cultura exigeanálises mais integradas. Qualquer acontecimento humanoapresenta diversas dimensões, uma vez que a realidade émultifacetada. Sendo assim, a compreensão de qualquerfenômeno social requer que se leve em consideração asinformações relativas a todas essas dimensões. Essa temsido a linha de argumentação com maior poder deconvencimento em favor da interdisciplinaridade
(5)
.O conceito de interdisciplinaridade surgiu noséculo XX e, só a partir da década de 60, começou a serenfatizado como necessidade de transcender e atravessaro conhecimento fragmentado, embora sempre tenhaexistido, em maior ou menor medida, uma certa aspiraçãoà unidade do saber
(6)
.Para melhor compreender a disciplinaridade e ainterdisciplinaridade, é preciso vê-las a partir de seuscondicionantes sócio-históricos. Sendo assim, nossoobjetivo foi buscar, na literatura, o significado dainterdisciplinaridade, seu histórico, suas relações com aSaúde Coletiva e com a formação dos profissionais desaúde.
ASPECTOS SÓCIO-HISTÓRICOS
A idéia de um saber unitário sempre existiu nahistória do pensamento. O mito para o homem pré-histórico,a idéia de cosmos, no mundo grego, e a aceitação deDeus criador, na Idade Média, sustentaram a unidade dosaber e conservaram a integridade epistemológicanaqueles períodos, à qual correspondia uma pedagogiatambém unitária
(7)
.Na tradição grega, havia um programa de ensinochamado
enkúklios paidéia
, o qual foi retomado pelosromanos e transmitido à Idade Média com a idéia de uma
orbis doctrinae
. Esses modelos traziam um saber detotalidade como ideal de educação e tinham por objetivo aformação da personalidade integral e não meramente umsaber enciclopédico, com acúmulo e justaposição deconhecimentos. As disciplinas articulavam-se entre si,formando uma unidade
(4,7)
.A preocupação com a integração dos saberestambém esteve presente no Movimento Iluminista doséculo XVIII, quando a enciclopédia foi tomada comomodelo na defesa da unidade do conhecimento e comoexpressão de uma nova atitude intelectual, caracterizadapela rejeição à autoridade dogmática sustentada pela Igrejae pela tradição
(5)
.No entanto, o advento da Modernidade, por voltado século XVII, provocou um processo de desintegraçãocrescente da unidade do saber. A era moderna foi umperíodo marcado por grande efervescência cultural, quandose destacou Descartes, entre outros
(8)
.Descartes inaugurou definitivamente opensamento moderno, ao propor o uso disciplinado darazão como caminho para o conhecimento verdadeiro edefinitivo da realidade e formulou os princípios dessa novaforma de produção de saberes, caracterizado por uma sériede operações de decomposição da coisa a conhecer epela redução às suas partes mais simples. Esse modeloé conhecido como modelo cartesiano e tornou-se umparadigma
(8-9)
.O paradigma cartesiano mostrou-se bastanteadequado para construir e tratar objetos simples eproporcionou uma simbiose entre ciência e técnica,atendendo às necessidades da industrialização. Dessamaneira, abriu-se o caminho para a fragmentação doconhecimento, uma vez que as indústrias necessitavamurgentemente de especialistas para enfrentar osproblemas e objetivos específicos de seus processos deprodução e comercialização. Dessa maneira, o século XIXmarca a consolidação das especializações
(5,8)
.E, assim, a ciência ocidental se desenvolveu com
Rev Latino-am Enfermagem 2003 julho-agosto; 11(4):525-31www.eerp.usp.br/rlaenfInterdisciplinaridade e saúde...
Vilela EM, Mendes IJM.
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