olhar para o que está a fazer. Às vezes, o rapaz leva imenso tempo para o conseguir.Quando finalmente o consegue, abandona o mestre e diz-se então que "tem uma profissão"!Se o Papalagui, mais tarde, se der conta de que prefere construir cabanas a tecer esteiras,dizem: "Enganou-se de profissão!" o que equivale a dizer "Aquele falhou o alvo!". Oraisso é uma coisa grave, pois mudar assim de profissão é contrário à moral. Qualquer honrado Papalagui correrá o risco de perder a sua honra se disser:"Não posso fazer essetrabalho, pois não sinto qualquer satisfação com isso!" ou "Quando faço esse trabalho,as mãos não me obedecem!"Há, entre os Papalaguis, tantas profissões quantas pedras há na lagoa. O Papalagui fazde cada ato uma profissão. Quando apanha as folhas caídas da árvore do pão, exerceuma profissão. Quando alguém lava as malgas onde a gente come, exerce outra profissão ainda. Desde que se exerça qualquer coisa, quer com as mãos, quer com acabeça, exerce-se uma profissão. É igualmente profissão ter idéias ou olhar para asestrelas. O Papalagui transforma tudo quanto o homem é capaz de fazer numa profissão.Quando um Branco diz: "Sou tussi-tussi (escrivão público)", isso é a sua profissão; nãofaz outra coisa que não seja escrever cartas uma atrás das outras. Não é ele que enrola asua esteira e aprende numa trave, não é ele que vai à cabana-cozinha cozer um fruto,não é ele também que lavará a sua malga. Come peixes, mas não vai à pesca, comefrutos, mas nunca os apanha; escrever tussi atrás de tussi, pois tussi-tussi é a sua profissão. Da mesma maneira, todos aqueles atos são outras tantas profissões: enrolar earrumador de esteiras, cozinheiro de frutos, lavador de malgas, pescados de peixes,colhedor de frutas. Só a profissão confere a cada um o direito de exercer uma atividade.Assim se explica o fato de que a maior parte dos Papalaguis apenas sabe fazer o queconstitui a sua profissão. O chefe de tribo mais importante não sabe prender a sua rede auma trave, nem lavar a sua malga, isso apesar da grande sabedoria do seu espírito e daforça do seu braço. Assim se explica também que aquele que sabe escrever tussis detoda a maneira e feito, não seja, de igual modo, capaz de conduzir uma canoa no lago, evice-versa. Exercer uma profissão significa saber ou correr, ou saborear, ou cheirar, oulutar, mas sempre e em qualquer caso saber fazer uma só e única coisa.Este saber fazer apenas uma coisa é uma grande fraqueza e apresenta grandes perigos; pois qualquer pessoa pode, um dia, ver-se obrigada a atravessar a lagoa de canoa.O Grande Espírito deu-nos mão para podermos apanhar os frutos das árvores e os bolbos de taro nos pântanos. Deu-nos mãos para protegermos o nosso corpo de nossosinimigos, para saborearmos as delícias da dança, do jogo e de todos os demaisdivertimentos, e não, decerto, para nos pormos só a construir cabanas, só a apanhar frutos ou só a desenterrar bolbos; antes, pelo contrário, para que elas estejam sempre aonosso dispor e nos permitam defendermo-nos em quaisquer circunstâncias.O Papalagui é incapaz de compreender isto. Para vermos quão falso é seucomportamento, complemente falso e contrário aos mandamentos do Grande Espírito, basta olharmos para os Brancos que, incapazes de correr, porque a sua profissão osimpede de se mexerem, criam uma barriga igual à dos puaa (porcos); basta ver comosão incapazes de levantar ou de lançar uma azagaia, por terem a mão demasiada
Leave a Comment