Ou seja, em termos de política educacional, essa volta da classe média menos pobre paraa escola pública não necessariamente significará, no curto prazo ou mesmo em umasituação de médio prazo, o despertar de uma atenção das elites governantes para aescola pública. Talvez a medida contida no projeto do senador Cristóvam Buarque, aomenos como idéia, seja bem melhor: que todo político seja obrigado a ter seu filho naescola pública. É uma idéia que nunca vingará no Congresso Nacional, mas, como idéia,ao menos tem o mérito de mostrar onde está o problema de fato. A medida da USP nãomostra o problema, o escamoteia. Resolver? Jamais!A política de cotas para minorias não é uma ação de política educacional. É uma açãopara quebrar o preconceito; trata-se de uma ação social para diminuir o pouco convívio,em determinados lugares, de grupos sociais diferentes. É necessário, sim, que em umpaís como o nosso o filho do branco e o filho de negro convivam nos mesmos locais.Nisso, ela está correta. Agora, a política de cotas da USP, no caso, é sim uma forma depolítica educacional. Seu objetivo é mexer com a USP por dentro e fazer a USP, de fora,possa mexer com a escola pública. Nos dois sentidos, a ação será nefasta. A USP vai ter de abaixar seu nível de ensino que, aliás, já tem capengado por conta de greves e por conta de concursos pouco sérios. E quanto à ação da USP sobre a escola pública básica,ela será anulada facilmente pela capacidade de mobilidade dos ricos.O resultado final será este: a USP ficará uma porcaria, e então as elites, que quiseremestudar, irão todas de uma vez para o Mackenzie e PUC (no caso de São Paulo), e logoestarão indo para outras faculdades e universidades privadas e, uma vez lá, obrigarão taisescolas a se tornarem melhores. A escola pública de ensino básico passará por ummomento em que acolherá uma parcela de alunos menos pobres, mas esses alunos nãocausarão o movimento desejado, que seria o de fazer seus pais, com capacidade dereivindicação, gritar em favor da escola pública. Pois, afinal, o prazo que devem ficar ali,para se garantirem no vestibular com a cota, é muito pouco (basta freqüentar o ensinomédio). Não é o suficiente para que seus pais venham a se preocupar com a escola dofilho. Não haverá o movimento de atenção social dos mais ricos para com a escolapública, como se poderia esperar.É triste dizer, mas tenho de dizer: as pessoas que inventam medidas de políticaeducacional na pró-reitoria da USP não entendem de educação. É incrível que elas nãotenham conseguido perceber isso. De fato, a ciência da educação, no Brasil, precisa demelhores olhos. Precisam de olhos de bom senso.Uma medida como esta, da USP, jamais poderia ser uma medida isolada. Para ter alguma eficácia, ela teria de vir por meio de uma ação articulada da Universidade com asecretaria de Educação do Estado de São Paulo. A USP teria de condicionar o seuvestibular a uma ação prática do governo de São Paulo de melhoria real dos salários dosprofessores da escola pública básica, e não esta política de bônus e mérito que, naverdade, não é o mérito para o melhor professor. Além disso, tal medida da USP deveriaestar agendada com uma postura do governo estadual no sentido de garantir a fixação decada professor na escola básica em que leciona. E mais, o governo estadual deveriagarantir a ampliação do direito de crítica dos professores às suas autoridades. E por fim:uma política clara no sentido de criar condições para que o professor tenha regimessabáticos, para que ele volte a estudar. Neste último caso, a USP deveria ter cursos demestrado específicos, para acolher tal professor em suas sabáticas, no assunto em queele gostaria de se aperfeiçoar. Uma vez com o título de mestre nas mãos, esse professor
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