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 Desafios teórico-metodológicos da ergonomia
 
 Estudos de Psicologia
2002, 7 (Número Especial), 45-52
A
s transformações que se processam no mundo dotrabalho evidenciam um novo paradigma de orga-nização das relações econômicas, sociais e políti-cas. Esse paradigma com diferentes denominações:mundialização, globalização, terceira revolução industrial etecnológica se apóia, fundamentalmente, na conjugação deabertura de mercados e no desenvolvimento acelerado datecnologia microeletrônica. Nesse sentido, a evoluçãotecnológica (ancorada no binômio melhoria dos produtos ediminuição dos custos) está presente em todas as esferas daprodução, provocando alterações nas configurações indus-triais, nos padrões tecnológicos e no perfil das organizações.O mundo do trabalho encontra-se, portanto, sob um pro-cesso de reestruturação produtiva e organizacional, cujasinflexões apontam para o esgotamento do modelo taylorista-fordista, estabelecendo novos cenários produtivos. Essareestruturação pode ser identificada pela transformação dasestruturas e estratégias empresariais, que alteram as formasde organização, gestão e controle do trabalho, que resultamem novas formas de competitividade, com repercussões noâmbito administrativo e operacional. Elas se manifestampelas alterações na natureza do trabalho, inclusive aumen-tando a sua densidade, o ritmo e a ampliação da jornada detrabalho; na co-habitação da “velha” organização do trabalhocom tecnologias gerenciais supostamente “modernizadoras”.Nesse processo de reestruturação produtiva, a análisede pelo menos duas perspectivas é interessante para o nossoobjetivo: (a) as transformações solicitadas no âmbito do novoperfil produtivo dos trabalhadores, decorrentes, sobretudo,do processo de informatização; e (b) a emergência de mode-los de gestão no novo ambiente organizacional. Elas se apói-am nos pressupostos de: nova produtividade, novo trabalha-dor, nova gestão e constituem um desafio aos modelos tradi-cionais de abordar as condições de trabalho.No que concerne ao perfil dos trabalhadores, as mu-danças sinalizam para a valorização da polivalência; do com-
As transformações do trabalho e desafios teórico-metodológicosda Ergonomia
 Júlia Issy Abrahão Diana Lúcia Moura Pinho
Universidade de Brasília
Resumo
O artigo enfoca a evolução do trabalho identificando as mudanças ocorridas e como elas transforma-ram a sua natureza. Ele apresenta o desenvolvimento teórico das abordagens utilizadas na relação dohomem com o trabalho conseqüente à introdução de inovações tecnológicas. O enfoque adotado nestetexto privilegia a análise das situações de trabalho informatizadas e como elas impactam nas condi-ções de trabalho. O referencial norteador é a Ergonomia, seus modelos de intervenção e seus limites,neste novo contexto de trabalho.
Palavras-chave: Ergonomia, Abordagens metodológicas, Novas tecnologias.
Abstract
Transformations of work and theoretical-methodological challenges of ergonomics
. The articlecontextualizes the evolution of work, identifying the changes occurred and how they have transformedthe nature of work. It presents the theoretical development of the approaches used in the relationshipbetween man and work in consequence of the technological innovations. The approach adopted in thistext favors the analysis of computerized work situations and how they impact on the work conditions.The leading reference is Ergonomics, its intervention models and its limits in this new work context.
Key words: Ergonomics, Methodological approaches, New technologies.
 
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 J. I. Abrahão & D. L. M. Pinho
prometimento organizacional; da qualificação técnica; daparticipação criadora; da mobilização da subjetividade; dacapacidade de diagnosticar e, portanto de decidir. Para ossujeitos o desenvolvimento desse perfil implica em novasaquisições, novas competências e, sobretudo na capacidadede transitar do tradicional
 savoir-faire
para um novo modode “saber ser, saber fazer e saber pensar”.Essas mudanças se apóiam na criação de programasparticipativos, inspirados na filosofia da qualidade total; noestabelecimento de novos programas e benefícios (incenti-vos materiais e simbólicos); no apelo de adesão à cultura daorganização como forma de “integrar” o trabalhador; na re-dução dos níveis hierárquicos; no incentivo à produtividade;e na efetivação de programas de treinamento.Na perspectiva dos modelos de gestão organizacional,importa compatibilizar outras modalidades de gestão do tra-balho, que articulem a flexibilidade da produção proporcio-nada pelas inovações tecnológicas, com o desenvolvimentode novas competências solicitadas aos trabalhadores. As-sim, as mudanças não são centradas somente nos conceitosde eficiência e de eficácia, mas, sobretudo integrando a com-plexidade das novas situações de trabalho às característicaspsicofisiológicas dos usuários.As condições de trabalho resultante desse novo dese-nho, não são explicitadas e os modelos de gestão são deline-ados sob a lógica do determinismo tecnológico, voltado paraa reformatação dos comportamentos produtivos dos opera-dores (Cesar, 1998). Ainda assim, as evoluções tecnológicas,que se constituiriam como espaço importante para a melhoriadas condições de trabalho, sustentam-se sobre as bases doTaylorismo.É nesse cenário de fundo que se situa o desafio paraciências que estudam o trabalho identificarem as diferentesnecessidades (políticas, sociais, materiais e culturais) quepermeiam o processo de reestruturação produtiva e que seencontram subjacentes às exigências de reconfiguração dosprocedimentos operacionais, determinando o rearranjo decompetências no contexto da nova divisão sóciotécnica dotrabalho.Subjacente a essa reflexão, as noções de homem e detrabalho que perpassam este artigo acompanham Leontiev(1959/1972), quando define o trabalho como uma “ativida-de especificamente humana” (p. 80), que se “efetua em con-dições de atividade comum coletiva, de modo que o papeldo homem no seio deste processo, não é determinado ape-nas pela sua relação com a natureza, mas com outros ho-mens, membros de uma determinada sociedade”.O trabalho é abordado como um fenômeno complexo emultidimensional, considerando a sua articulação com a di-nâmica da sociedade e como objeto de representações dife-renciadas. Neste sentido, a sua compreensão solicita às di-ferentes disciplinas a elaboração, sobre ele, de seus própriosmétodos de análise suscitando, assim, um apelo às aborda-gens heterogêneas, ou a uma abordagem que articule amultiplicidade de vertentes nele inseridos enquanto objetode estudo.Assim, o trabalho humano enquanto uma realidade donosso quotidiano se constitui um objeto de fundamental im-portância em diferentes disciplinas, sejam elas de naturezapsicológica, sociológica, antropológica, psicossociológica ou,ainda, econômica.No seio da Psicologia, os recortes no estudo do trabalhosão distintos, dentre eles podemos salientar aqueles que pri-vilegiam o indivíduo trabalhador (os comportamentos, cul-tura, valores, atitudes...); a tecnologia (relação homem-má-quina…); a empresa (a abordagem organizacional…); asprofissões (mercado de trabalho, seleção profissional…),dentre outros.Os métodos de análise do trabalho, segundo Leplat(1986), evoluem, não só em conseqüência das transforma-ções do trabalho, mas sobretudo pelo desenvolvimento doconhecimento e dos métodos que esta nova realidade im-põe. A evolução do trabalho humano é, nesta perspectiva,mediado ao mesmo tempo pelo instrumento e pela sociedade.As transformações no trabalho, conseqüentes aos avan-ços tecnológicos, fazem emergir um novo olhar para anali-sar a relação do homem com o trabalho, ou seja, o homeminserido no contexto de trabalho, refletindo assim a necessi-dade de incorporar a esta análise, ora restrita ao comporta-mento do homem, o ambiente no qual ocorre a atividade eque a condiciona e as conseqüências deste para o indivíduoe para a produção.A literatura aponta um debate no seio da comunidadecientífica no que concerne aos efeitos do uso da informáticasobre o homem. Os resultados por vezes conflitantes refle-tem, também, o estado inicial dos estudos acerca desta pro-blemática centrada no conforto e na segurança do usuário edos equipamentos.O objetivo deste artigo é apresentar uma reflexão dodesenvolvimento teórico-metodológico das abordagens pro-postas pela Ergonomia, com ênfase nas situações reais, es-pecialmente, a problemática das situações informatizadas.
 A trajetória da Ergonomia
O surgimento da Ergonomia nos anos 40 constitui umaabordagem do trabalho humano e suas interações no con-texto social e tecnológico, que busca mostrar a complexida-de da situação de trabalho e a multiplicidade de fatores quea compõe. Historicamente, a Ergonomia tem uma de suasbases ancorada na Psicologia Experimental. No entanto, avertente representada sobretudo pelos países de língua fran-cesa questiona o caráter exageradamente reducionista de po-
 
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sições apoiadas em normas e prescrições, fundamentadasem conhecimentos de natureza experimental, que ignoram aatividade de construção inerente a toda situação real de trabalho.Inicialmente, a compreensão das exigências do traba-lho, especialmente entre os autores da língua francesa, esta-vam centradas basicamente: 1) no gestual; 2) no agrupa-mento das informações; 3) nos procedimentos adotados nosistema de produção; e 4) nos processos de pensamento.Embora estas quatro abordagens nos pareçam distintas, elasnão são excludentes e formam a base da análise ergonômicado trabalho (De Keyser, 1991).Na realidade, como afirma Wisner (1995), a Ergonomiasustenta-se hoje em dois pilares. Um de basecomportamental, que permite apreender as variáveis quedeterminam o trabalho pela via da análise do comportamen-to, e um outro, subjetivo, que busca qualificar e validar osresultados, ambos com o intuito de elaborar um diagnósticoque vise transformar as condições de trabalho.A Ergonomia é uma disciplina jovem, em evolução, eque vem reivindicando o
 status
de ciência. A definição des-ta disciplina, segundo Montmollin (1984), poderia ser uma“ciência do trabalho” ou uma arte alimentada de métodos ede conhecimentos resultantes da investigação científica, comoafirma Wisner (1990). Portanto, não há unanimidade na de-finição de Ergonomia, dificultando o estabelecimento de li-mites no seu campo de investigação.Ela busca dois objetivos fundamentais. De um lado,produzir conhecimento sobre trabalho, as condições e a re-lação do homem com o trabalho, por outro, formular conhe-cimentos, ferramentas e princípios suscetíveis de orientarracionalmente a ação de transformação das condições de tra-balho, tendo como perspectiva melhorar a relação homem-trabalho. A produção do conhecimento e a racionalização daação constituem, portanto, o eixo principal da pesquisaergonômica (Abrahão & Pinho, 1999).Na prática, para produzir e formular conhecimentos aserem utilizados para a análise e a transformação das situa-ções reais de trabalho (ou para melhorar a relação entre ohomem e o trabalho), a Ergonomia incorpora, na base doseu arcabouço teórico, um conjunto de conhecimentos cien-tíficos oriundos de várias áreas (Antropometria, Fisiologia,Psicologia e Sociologia, entre outras) e os aplica com vistasàs transformações do trabalho. Considera, como critério deavaliação do trabalho, três eixos: 1) a segurança; 2) a efici-ência; e 3) o bem estar dos trabalhadores nas situações detrabalho. Portanto, a Ergonomia busca estabelecer uma arti-culação entre eles visando uma solução de compromisso nassuas propostas.Na sua relação com as outras ciências, a Ergonomia nãobusca simplesmente uma aplicação das mesmas e, sim, umarelação de pareamento, entre conhecimentos novos e anti-gos. Este cotejamento leva muitas vezes à transformaçãodos conhecimentos oriundos destas ciências, pois o modelode homem no trabalho nem sempre corresponde aquele es-tudado nas outras disciplinas. Enfim, como salienta Dejours(1996), existe o reconhecimento de que a Ergonomia atuacomo alavanca para estas ciências, despertando-as para aprodução de conhecimentos em áreas nas quais a prática asrevela lacunárias. O mesmo autor, afirma que este confrontoda Ergonomia com as ciências vizinhas pode levar a eman-cipação da Ergonomia enquanto ciência de campo, constru-indo os seus próprios modelos, conceitos e teorias.Esses conhecimentos quando confrontados e articula-dos de forma integrada contribuem com a tecnologia e a or-ganização do trabalho na definição da melhoria desta reali-dade. Um dos interesses da Ergonomia é saber o que os tra-balhadores realmente fazem, como fazem, porque fazem e,como afirma Montmollin (1984), “se estes podem fazermelhor”. Para tanto, ela tem como objeto específico de estu-do a atividade real dos trabalhadores.Ao analisar a atividade, consideram-se as característicasdos trabalhadores, os elementos do ambiente de trabalho e comoestes são apresentados aos operadores e percebidos por eles.A articulação desta interação representa o resultado do traba-lho. Nesta abordagem, o trabalhador é o sujeito ativo do pro-cesso, pois a depender da situação com a qual é confrontado,ele transforma permanentemente a sua atividade, como formade responder às demandas que se apresentam. A análiseergonômica do trabalho procura identificar como o trabalha-dor constitui os problemas que tem de resolver em confrontocom a situação real de trabalho (Wisner, 1990).Nesta perspectiva, a característica essencial da análiseergonômica do trabalho é examinar o que acontece na com-plexidade da realidade sem utilizar um modelo escolhido
a priori
. Esta característica procedimental (ascendente, ou
bottom up
), aproxima-na de outros métodos análogos dasciências humanas, como a etnologia e a psicodinâmica(Wisner, 1996). Ela considera a distinção entre o trabalhoreal e trabalho prescrito, a tarefa e a atividade, as semânticasda situação e o desenvolvimento do curso da ação do opera-dor (De Keyser, 1991; Leplat, 1986; Thereau, 1992).Vale ressaltar que a análise da atividade, neste contex-to, distingue-se da tradicional análise da tarefa, que tem comopressuposto básico, descrever e analisar as demandas dedesempenho atribuídas ao operador do sistema (Kirwan &Ainsworth, 1992) e não o modo como este percebe e res-ponde às demandas.A análise da atividade é um processo que compreendea utilização de recursos instrumentais correntes dasmetodologias de análise de trabalho, tendo como diferenciala análise em situação real, com o objetivo de identificar oque, como e porque do trabalho dos operadores.
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