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Desafios teórico-metodológicos da ergonomia
sições apoiadas em normas e prescrições, fundamentadasem conhecimentos de natureza experimental, que ignoram aatividade de construção inerente a toda situação real de trabalho.Inicialmente, a compreensão das exigências do traba-lho, especialmente entre os autores da língua francesa, esta-vam centradas basicamente: 1) no gestual; 2) no agrupa-mento das informações; 3) nos procedimentos adotados nosistema de produção; e 4) nos processos de pensamento.Embora estas quatro abordagens nos pareçam distintas, elasnão são excludentes e formam a base da análise ergonômicado trabalho (De Keyser, 1991).Na realidade, como afirma Wisner (1995), a Ergonomiasustenta-se hoje em dois pilares. Um de basecomportamental, que permite apreender as variáveis quedeterminam o trabalho pela via da análise do comportamen-to, e um outro, subjetivo, que busca qualificar e validar osresultados, ambos com o intuito de elaborar um diagnósticoque vise transformar as condições de trabalho.A Ergonomia é uma disciplina jovem, em evolução, eque vem reivindicando o
status
de ciência. A definição des-ta disciplina, segundo Montmollin (1984), poderia ser uma“ciência do trabalho” ou uma arte alimentada de métodos ede conhecimentos resultantes da investigação científica, comoafirma Wisner (1990). Portanto, não há unanimidade na de-finição de Ergonomia, dificultando o estabelecimento de li-mites no seu campo de investigação.Ela busca dois objetivos fundamentais. De um lado,produzir conhecimento sobre trabalho, as condições e a re-lação do homem com o trabalho, por outro, formular conhe-cimentos, ferramentas e princípios suscetíveis de orientarracionalmente a ação de transformação das condições de tra-balho, tendo como perspectiva melhorar a relação homem-trabalho. A produção do conhecimento e a racionalização daação constituem, portanto, o eixo principal da pesquisaergonômica (Abrahão & Pinho, 1999).Na prática, para produzir e formular conhecimentos aserem utilizados para a análise e a transformação das situa-ções reais de trabalho (ou para melhorar a relação entre ohomem e o trabalho), a Ergonomia incorpora, na base doseu arcabouço teórico, um conjunto de conhecimentos cien-tíficos oriundos de várias áreas (Antropometria, Fisiologia,Psicologia e Sociologia, entre outras) e os aplica com vistasàs transformações do trabalho. Considera, como critério deavaliação do trabalho, três eixos: 1) a segurança; 2) a efici-ência; e 3) o bem estar dos trabalhadores nas situações detrabalho. Portanto, a Ergonomia busca estabelecer uma arti-culação entre eles visando uma solução de compromisso nassuas propostas.Na sua relação com as outras ciências, a Ergonomia nãobusca simplesmente uma aplicação das mesmas e, sim, umarelação de pareamento, entre conhecimentos novos e anti-gos. Este cotejamento leva muitas vezes à transformaçãodos conhecimentos oriundos destas ciências, pois o modelode homem no trabalho nem sempre corresponde aquele es-tudado nas outras disciplinas. Enfim, como salienta Dejours(1996), existe o reconhecimento de que a Ergonomia atuacomo alavanca para estas ciências, despertando-as para aprodução de conhecimentos em áreas nas quais a prática asrevela lacunárias. O mesmo autor, afirma que este confrontoda Ergonomia com as ciências vizinhas pode levar a eman-cipação da Ergonomia enquanto ciência de campo, constru-indo os seus próprios modelos, conceitos e teorias.Esses conhecimentos quando confrontados e articula-dos de forma integrada contribuem com a tecnologia e a or-ganização do trabalho na definição da melhoria desta reali-dade. Um dos interesses da Ergonomia é saber o que os tra-balhadores realmente fazem, como fazem, porque fazem e,como afirma Montmollin (1984), “se estes podem fazermelhor”. Para tanto, ela tem como objeto específico de estu-do a atividade real dos trabalhadores.Ao analisar a atividade, consideram-se as característicasdos trabalhadores, os elementos do ambiente de trabalho e comoestes são apresentados aos operadores e percebidos por eles.A articulação desta interação representa o resultado do traba-lho. Nesta abordagem, o trabalhador é o sujeito ativo do pro-cesso, pois a depender da situação com a qual é confrontado,ele transforma permanentemente a sua atividade, como formade responder às demandas que se apresentam. A análiseergonômica do trabalho procura identificar como o trabalha-dor constitui os problemas que tem de resolver em confrontocom a situação real de trabalho (Wisner, 1990).Nesta perspectiva, a característica essencial da análiseergonômica do trabalho é examinar o que acontece na com-plexidade da realidade sem utilizar um modelo escolhido
a priori
. Esta característica procedimental (ascendente, ou
bottom up
), aproxima-na de outros métodos análogos dasciências humanas, como a etnologia e a psicodinâmica(Wisner, 1996). Ela considera a distinção entre o trabalhoreal e trabalho prescrito, a tarefa e a atividade, as semânticasda situação e o desenvolvimento do curso da ação do opera-dor (De Keyser, 1991; Leplat, 1986; Thereau, 1992).Vale ressaltar que a análise da atividade, neste contex-to, distingue-se da tradicional análise da tarefa, que tem comopressuposto básico, descrever e analisar as demandas dedesempenho atribuídas ao operador do sistema (Kirwan &Ainsworth, 1992) e não o modo como este percebe e res-ponde às demandas.A análise da atividade é um processo que compreendea utilização de recursos instrumentais correntes dasmetodologias de análise de trabalho, tendo como diferenciala análise em situação real, com o objetivo de identificar oque, como e porque do trabalho dos operadores.
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