Apresentação
Dupla é a tenção de Marx nestes dois escritos (redigidos no finalde 1843) que versam sobre “a questão judaica” [
Die Judenfrage
]de Bruno Bauer.A primeira é levar a cabo uma crítica da posição baueriana que,a seus olhos, se limitava a transformar as questões sociais em ques-tões teológicas e a exigir a emancipação religiosa como condiçãoprévia da emancipação política. Mas Bauer não se dá conta dafonte do antagonismo entre a vida individual e colectiva, e ape-nas combate a expressão religiosa deste conflito. A liberdade quearvora é a liberdade de um indivíduo isolado, simples mónada so-cial, sem reconciliação possível entre a esfera privada e o contextocolectivo.A segunda é realçar, na situação histórica presente, a não coin-cidência entre emancipação política e emancipação humana, por-que persiste ainda a divisão ou o hiato entre sociedade civil e Es-tado. A sociedade civil é o recinto da vida real mas egoísta, nofundo desprovida de laços, simples arena de conflitos e de interes-ses antagónicos. O Estado, pelo contrário, surge como uma esferade vida colectiva, mas ilusória. A famosa análise marxiana de al-guns artigos da Declaração dos Direitos do Homem e de váriasConstituições americanas mostra que nelas apenas se referem osdireitos do homem egoísta, fechado em si, todo centrado na propri-edade e no seu desfrute, sem consideração pelos outros; consagra-se nelas, portanto, a desintegração ou a dicotomia do ser humano(seja judeu ou qualquer outra coisa) em cidadão e homem.Em contrapartida, o fito da emancipação humana é fazer que ocarácter colectivo, genérico, da vida dos homens seja vida real, istoé, que a sociedade, em vez de ser um conjunto de mónadas egoístase em conflito de interesses, adopte um carácter colectivo e coincidacom a vida do Estado. O homem individual deve recobrar em si ocidadão abstracto e, como ser privado, utilizar as suas forças pró-prias como forças sociais, inserir-se na circulação da espécie noseu trabalho e nas suas relações.
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