um erro abandonado e morto, mas uma fonte perene de ensinamento e de vida. Nela seencarnou e exprimiu a pessoa do filósofo, não apenas em o*, que tinha de mais, seu, nasingularidade da sua experiência de pensamento e de vida, mas ainda nas suas relaçõescom os outros e com o mundo em que viveu. E à pessoa devemos volver se queremosredescobrir o sentido vital de toda doutrina. Em cada uma de elas devemos estabelecer ocentro em torno do qual gravitaram os interesses fundamentais do filósofo, e que é aomesmo tempo o centro da sua personalidade de homem e de pensador. 'Devemos fazerreviver perante nós o filósofo na sua realidade de pessoa histórica se queremoscompreender claramente, através da obscuridade dos séculos desmemorizados ou dastradições deformadoras, a sua palavra autêntica que pode ainda servir-nos de orientação ede guia.Por isso não serão apresentados, em esta obra, sistemas ou problemas, quasesubstantivados e considerados como realidades autónomas, mas figuras ou pessoas vivas,serão feitas emergir da lógica da pesquisa em que quiseram exprimir-se e consideradas nassuas relações com outras figuras e pessoas. A história da filosofia não é o domínio dedoutrinas impessoais que se sucedem desordenadamente ou se concatenamdialecticamente, nem a esfera de acção de problemas eternos, de que cada doutrina émanifestação contingente. É um tecido de relações humanas, que se movem no plano deuma comum disciplina de pesquisa, e que transcendem por isso os aspectos contingentesou insignificantes, para se fundar nos essenciais e constitutivos. Revela a solidariedadefundamental dos esforços que procuram tornar clara, tanto quanto é possível, a condição eo destino do homem; solidariedade que se exprime na afinidade das doutrinas tanto comona sua oposição, na sua concordância tanto como na sua polémica. A história da filosofiareproduz na táctica das investigações rigorosamente disciplinadas a mesma tentativa que éa base e o móbil de todas as relações humanas: compreender-se e compreender. Ereprodu-lo quando colhe êxitos como quando colhe desenganos, nas vicissitudes de ilusõesrenascidas como nas de clarificações orientadas, e nas de esperanças sempre renascentes. A disparidade e a oposição das doutrinas perdem assim o seu carácter desconcertante. Ohomem tem ensaiado e ensaia todas as vias para compreender-se a si mesmo, aos outros eao mundo. Obtém nisso mais ou menos sucesso. Mas deve e deverá renovar a tentativa, daqual depende a sua dignidade de homem. E não pode renová-la senão voltando-se para opassado e extraindo da história a ajuda que os outros podem dar-lhe para o futuro.Eis por que não se encontrarão nesta obra críticas extrínsecas, que pretendem pÔr a claroos erros dos filósofos. A pretensão de atribuir aos filósofos lições de filosofia é ridícula,como a de fazer de uma determinada filosofia o critério e a norma de julgamento dasoutras. Todo o verdadeiro filósofo é um mestre ou companheiro de pesquisa, cuja voz noschega enfraquecida através do tempo, mas pode ter para nós, para os problemas que oranos ocupam, uma importância decisiva. Necessário é que nos disponhamos à pesquisa comsinceridade e humildade. Nós não podemos alcançar, sem a ajuda que nos vem dosfilósofos do passado, a solução dos problemas de que depende a nossa existência individuale em sociedade. Devemos, por isso, propor historicamente esses problemas, e na tentativapara compreender a palavra genuína de Platão ou de Aristóteles, de Agostinho ou de Kante de todos os outros, pequenos ou grandes, que hajam sabido exprimir uma experiênciahumana fundamental, devemos ver a própria tentativa de formular e solucionar os nossosproblemas. O problema de o que nós somos e devemos ser é fundamentalmente idêntico aoproblema de o que foram e quiseram ser, na sua substância humana, os filósofos dopassado. A separação dos dois problemas tira ao filosofar o seu alimento e à história dafilosofia a sua importância vital. A unidade dos dois problemas garante a eficácia e a forçado filosofar e fundamenta o valor da historiografia filosófica. A história da filosofia ligasimultaneamente o passado e o futuro da filosofia. Esta ligação é a essencial historicidade
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