A semiótica e os modelos de comunicação
António Fidalgo, Universidade da Beira Interior O lugar da semiótica dentro das ciências da comunicação depende do que se entende por comunicação. A comunicação é hoje um vastíssimo campo de investigação, dasengenharias à sociologia e psicologia, pelo que as perspectivas em que se estuda podemvariar significativamente. É certo que toda a comunicação se faz através de sinais e queesse facto constitui o bastante para estudar os sinais, sobre o que são, que tipos de sinaisexistem, como funcionam, que assinalam, com que significado, como significam, deque modo são utilizados. Contudo, o estudo dos sinais tanto pode ocupar um lugar central como um lugar periférico no estudo da comunicação. Tal como na arquitecturaem que o estudo dos materiais, embora indispensável, não faz propriamente parte daarquitectura, assim também em determinadas abordagens da comunicação o estudo dossinais não faz parte dos estudos de comunicação em sentido restrito. Daqui que sejafundamental considerar, ainda que brevemente, os principais sentidos de comunicação. Nos estudos de comunicação distinguem-se duas grandes correntes de investigação,uma que entende a comunicação sobretudo como um fluxo de informação, e outra queentende a comunicação como uma "produção e troca de sentido".1A primeira corrente éa escola processual da comunicação e a segunda é a escola semiótica.A ideia de que a comunicação é uma transmissão de mensagens surge na obra pioneirade Shannon e Weaver,
A Teoria Matemática da Informação
(1949). O modelo decomunicação que apresentam é assaz conhecido: uma fonte que passa a informação aum transmissor que a coloca num canal (mais ou menos sujeito a ruído) que a leva a umreceptor que a passa a um destinatário. É um modelo linear de comunicação, simples,mas extraordinariamente eficiente na detecção e resolução dos problemas técnicos dacomunicação. Contudo, Shannon e Weaver reivindicam que o seu modelo não se limitaaos problemas técnicos da comunicação, mas também se aplica aos problemassemânticos e aos problemas pragmáticos da comunicação. Efectivamente, distinguemtrês níveis no processo comunicativo: o nível técnico, relativo ao rigor da transmissãodos sinais; o nível semântico, relativo à precisão com que os signos transmitidosconvêm ao significado desejado; e o nível da eficácia, relativo à eficácia com que osignificado da mensagem afecta da maneira desejada a conduta do destinatário.Elaborado durante a Segunda Guerra Mundial nos laboratórios da Bell Company, omodelo comunicacional de Shannon e Weaver é assumidamente uma extensão de ummodelo de engenharia de telecomunicações. A teoria matemática da comunicação visa a precisão e a eficiência do fluxo informativo. A partir desse objectivo primeiro,desenvolveu conceitos cruciais para os estudos de comunicação, nomeadamenteconceitos tão importantes como quantidade de informação, quantidade mínima deinformação (o célebre
bit
), redundância, ruído, transmissor, receptor, canal.Consideremos um exemplo muito simples de modo a analisarmos os diferentes níveisde comunicação, segundo a distinção de Shannon e Weaver, e o papel que a semióticadesempenha neles. No painel de instrumentos de um automóvel encontra-se ummostrador indicativo do estado do depósito de gasolina, que vai da indicação de vazio acheio. Os problemas técnicos dizem respeito à medição do combustível no reservatório,através de bóias, ou por outros meios, e a transmissão física, mecânica ou electrónica,
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