Ecris avec du sang et tu apprendras que le sang est esprit._Ainsi parlait Zarathoustra._ F. NIETZSCHE.DIÁLOGO COM UMA ÁGUIADiálogo com uma águiaFui jantar hontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguêm. Tudodeserto. Quando eu desci do restaurante, a accender um Laferme compreguiça, caía a tarde de outono em vitrais ricos p'ralêm das ramarias adespir-se. Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo aoacaso, fui estacar nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águiavelha. Há que tempos conheço êste mostrengo, num abandono de asilo, dear pedinte, com asas que diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutrode miséria!... Uma águia isto, êste espantalho! A decadência reles deestas asas que tanta vez olhei com indiferença, nem eu sei bemporquê, impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeusol de olhos abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois decarnagens e aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirara um meio-bife, como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve umaforma assim aquela águia que saboreou Prometeu numa montanha!A gaiola está sórdida, está imunda. Antes estivesse empalhada num museu,ou no quarto de trabalho de um zoólogo, sócio da Academia, homem deestudo, que ao voltar da rua ou da glória, lhe pendurasse do bico ochapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um calafrio, que pronunciaraalto êste «coitada», com uma voz que a mim mesmo surpreendeu pelainflexão perturbante de quinto acto. Olhei a águia. Vi-a encolher-setôda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma doraguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corardos pés ao côco, e com uma voz que não era a voz da fábula, sem nadade lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata, arrastadae roufenha, quasi gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:--Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim _isso_ aífora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia afalar alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranheinaquele instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou _isso aí fora_, com que ella ouviu que um _isso_ a lamentava. Deiteifora o cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo airritação que me excitava, e premindo a bengala contra o queixo,retorqui-lhe benévolo e grosseiro:--Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada» p'ráofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, élamentável. P'ra mais, conforme vejo no letreiro, foi um comendadorque a ofereceu... E a gaiola...--Que tem? Falta de estilo?
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