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A Suicida
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Introdução
Realmente, eu não sei o que aconteceu em mim.Simplesmente eu não sou mais a mesma pessoa no sentido literário da palavra.Depois do Mergulho [no Inconsciente], achei que escreveria outra obra do gênero. Porémminha Sombra resolveu falar. E ela tinha uma boa história para contar.Também baseada em meus sonhos… Não que meu sonho tenha ocorrido exatamente como segue esse livro. Foram váriossonhos, cenas entrecortadas, retalhos de lembranças em que eu simplesmente os costurei e fizum cobertor de uma história só.Eu acho esse livro polêmico. Porém ele precisava sair. Minha sombra precisava falar.Isso não é nada perto dos meus pensamentos mais obscuros.Porém são os mais belos que eu já vi. Belos e únicos, provavelmente. Tenteiimprimir, gravar, marcar nas palavras todas as emoções que eu senti ao escrever o primeirorascunho.O escrevi com pressa, com vontade louca de colocar todas as idéias no papel, retirar logo de mim esse pedaço que pendia para fora. Percebi que algumas partes eu tinha meesquecido de escrever. Eu corri deixando papéis ao vento…Aos poucos fui “remontando” a história, colocando o que faltava, recosturando,remendando. Não se pode dizer que é uma história cíclica, porém não posso dizer que é umahistória linear. Ela tem forma própria, sentido próprio, simbologia própria.Espero que essa história te guie.
 
A Suicida
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Prólogo
Sinto que eu pus minha alma e meu coração nessa obra, nessa moça, nessa mulher,nesse Amor, nesse sonho, nessa sombra, nesse pesadelo. Chamá-la-ei de Lily. Não sei se essenome aparecerá nas próximas páginas - aliás, apenas eu a chamarei assim. Mediana, ruiva,cabelos ondulados como um mar de fogo. Ela desistiu de viver neste mundo onde sofreu tantoe decidiu viajar por aí. Queria ter sua coragem, sua falta de prudência, sua doçura einteligência. Lily, meu lírio amado, branco, vermelho, cinza, puro.Teve apenas um namorado, um marido e um amor em seu coração. Apenas seu Amor  sobreviveu, pois este sobrevive à Vida e à Morte. E é atemporal. Se desperta dos mais puros enobres sentimentos, não importa qual pessoa. É a faísca na qual surge o incêndio. Vermelho fervendo as sombras. Espero não revelar o que vai acontecer, aliás, quero apenas lhedespertar a curiosidade e a avidez por algo novo. Minha querida deve estar feliz agora, ondequer que esteja. Lily quer morrer, mas não quer se matar - uma bela antítese, se não for um complexo paradoxo. Procura uma missão, um motivo, cores para viver. Em um lugar tão universal quanto seu mundo, suas pessoas, seu cinza. Cores, incêndios, crimes, Amor. Foi isso que euachei em Sua História. Eu mesma queria ter presenciado as cenas mais importantes de suavida, até as tristes, até as alegres. Queria ter visto Seu Sorriso. Porém eu sou apenas suacriadora. Aquela que dá a introdução. Prólogo sem epílogo, pois este livro tende ao Infinito.Sinto que, apesar de sua infelicidade, ela foi mais feliz que muita gente, por causa da sua admirável capacidade de fazer o que queria. Foi assim que ela conheceu o Amor, foiassim que ela conseguiu morrer. Não sinto saudades dela, pois nunca a conheci, e também porque ela tinha seu caminho para seguir. Caminho este que poucos seguem e muitos se perdem.
Ato Único
 
A Suicida
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Eu quero morrer. Não agüento mais esse mundo. Não vejo flores, não vejo alegria. Não tenho família. Vivo só e trabalho demais no que eu não gosto. Apenas para o Tempo passar e me levar…Tenho mágoas suficientes para azedar as puras alegrias da humanidade.Estou só nesse mundo. Não tenho com quem compartilhar minha tristeza - a únicacoisa que tenho de “importante”. Tudo é amargo, azedo, insípido.Tudo na minha vida é preto, cinza e branco. Outras cores são raras, geralmentemortas de tristeza e melancolia. O preto do luto. O preto da escuridão, do céu sem estrelas, daminha roupa. Da roupa dos outros.O preto do guarda-chuva que contrasta com o cinza da calçada, das peles mortascomo a minha, da fumaça sem origem e sem destino. Do céu baixo, do céu humano, formadodessa fumaça. Um céu que você vê quando olha para frente.Olho para cima e vejo o branco. A cor pura e diáfana. Está no céu. Está na neve quecai na calçada. Será que os flocos de neve são pedaços de céu?Um céu morto, sem cor, que agoniza e chora… Como eu mesma.Estou na rua e paro para olhar o tal céu. Está tudo tristemente lindo. Árvores negras edesnudas contraem-se solitariamente para sobreviver. Seus galhos procuram o céu, como sefossem pegá-lo. Com o intuito de se pendurar, para não cair no abismo da cidade.Respiro fundo. Volto a andar.Tudo está coloridamente preto-e-branco, como uma foto antiga, como se o tempohouvesse parado. O cheiro de papel queimado me acompanha, como se dentro de mim algoestivesse queimando. Olho para um lado e vejo um grupo de mendigos queimando jornaisvelhos e gravetos molhados para se aquecerem.Finalmente olho um vermelho que se destaca. Mas é um vermelho morto, que apenasagoniza. E se rasteja para cima, para sua própria dispersão no céu. No meio daquela neve branca, nesgas cinzentas de calçada apareciam úmidas. Era por onde eu pisava. Pulando tristemente para não escorregar. Para não sentir esse chão úmidoumedecer meu rosto, borrar minhas poucas cores e me machucar por fora. Por dentro já estavamuito machucado. Ferido de morte. Esperando a Morte.Passo em frente da casa dele. Meu único namorado. O único que realmente me amou.O único que me fez olhar cores vivas em um mundo desprovido delas! Cores vivas, fortes,incríveis. Como se eu tivesse sob o efeito de uma droga, de algum veneno. Seu Amor foi umtipo de veneno, de droga; algo que me embriagou e me enlouqueceu.

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