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vida
 
 
MATIAS,
 
A.
 
(2007)
 
O
 
conhecer
 
"em
 
ensaio":
 
uma
 
experimentação
 
do
 
possível.
 
In,
 
V.
 
Trindade,
 
N.
 
Trindade
 
&
 
A.A.
 
Candeias
 
(Orgs.).
 
 A
 
Unicidade
 
do
 
Conhecimento.
 
Évora:
 
Universidade
 
de
 
Évora.
 
______________________________________________________________________
2
 
ou
 
à
 
incerteza
 
ou
 
ao
 
meu
 
estado
 
original 
 
que
 
é 
 
a
 
ignorância.
 
[tradução
 
nossa]
 2
 
Como observaremos durante o nosso estudo, esta passagem poderá tercondensada, se bem que de um modo sub‐reptício, a total dimensão que aproblemática do conhecimento adquire não somente no caso específico do autorbordalês e da sua obra, mas sobretudo no ensaio
lato
 
sensu
. É nosso intentoabordar algumas das particularidades específicas do conhecimento que se veiculae se constrói nesta classe de textos tão singular, trazida à luz do dia no ano de1580. Todavia, para que consigamos vislumbrar, em toda a sua magnificência, aquestão do conhecer em contexto ensaístico, é jussivo que consideremossucintamente o conceito de conhecimento na sua amplitude.De um modo conciso, poder‐se‐á entender por conhecimento a apreensão dealgo através do pensamento e a capacidade de tornar presente ao pensamento essealgo que foi apreendido. Por outro lado, é também lícito afirmar que oconhecimento é a relação estabelecida entre o sujeito que conhece e o objecto quepassará a ser conhecido, “como acto intencional que visa conscientemente algo(carácter passivo), ou de captação do significado, informação, ou representaçãomental de algo (carácter activo)” (Silva, 1989: 1104‐1105). Tendo em consideraçãoa proposta de definição de Hessen, o conhecimento poderá ser entendido comouma determinação do sujeito pelo objecto, em que o determinado é arepresentação mental desse objecto (Hessen, 1987: 27). Ainda nesta esteira,Miranda Barbosa entende por conhecimento a relação estabelecida “entre
sujeito
e
objecto
, por meio do
 pensamento
, na qual o sujeito que pensa supõeintencionalmente apreender as notas caracterizadoras do objecto e julga saber oque o objecto é” (Barbosa, 1947: 135). Todavia, para a nossa reflexão, não se tornatão pertinente questionar os meandros mais recônditos da origem doconhecimento, nem tanto esse quase nó górdio que é a própria essência doconhecer
3
. Cremos que, neste particular, o mais relevante será vislumbrar que tipode conhecimento o ensaio nos proporciona, as suas características e as suassinuosidades.Posto isto, detenhamo‐nos, momentaneamente, na realidade complexa que é oensaio. Desde a sua aurora, pela pena de Michel de Montaigne, esta classe de textostem estado envolvida não em penumbras ofuscantes, antes sim numa certa difusão
2
“Je prends de la fortune le premier argument. Ils me sont également bons. Et ne desseigne jamais de lesproduire entiers. Car je ne vois le tout de rien. Ne font pas, ceux qui promettent de nous le faire voir. De cent membres et visages qu’a chaque chose j’en prends un, tantôt à lécher seulement, tantôt à effleurer, et parfois àpincer jusqu’à l’os. J’y donne une pointe, non pas le plus largement, mais le plus profondément que je sais. Et aime plus souvent à les saisir par quelque lustre inusité. Je me hasarderais de traiter à fond quelque matière, sije me connaissais moins. Semant ici un mot, ici un autre, échantillons dépris de leur pièce, écartés, sansdessein, sans promesse, je ne suis pas tenu d’en faire bon, ni de m’y tenir moi‐même, sans varier, quand il meplaît, et me rendre au doute et incertitude, et à ma maîtresse forme, qui est l'ignorance.” (Montaigne, 1967:133)
3
“O
 problema
 
essencial 
 
do
 
conhecimento
consiste em indagar
o
 
que
 
é 
o conhecimento, q. d.: em investigar se oconhecimento é ou não aquilo que no fenómeno do conhecimento parece ser intencional.” (Barbosa, 1947:157)
 
MATIAS,
 
A.
 
(2007)
 
O
 
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ensaio":
 
uma
 
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N.
 
Trindade
 
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Unicidade
 
do
 
Conhecimento.
 
Évora:
 
Universidade
 
de
 
Évora.
 
______________________________________________________________________
3
 
dissipadora que lhe tem toldado a sua verdadeira dimensão intrínseca. No nossoentender, perspectivamos o ensaio como um compromisso osmótico bipolar: porum lado, ele é aquilo que se poderá denominar por atitude, isto é, uma
 predisposição
em que se privilegia a tentativa, o pensar crítico, o crivo da dúvida,factos que propiciam a que a concepção do próprio ensaio extravase os seus limitesenquanto texto; por outro lado, o ensaio é uma classe de textos efectiva combalizas próprias, que apesar de plásticas lhe conferem singularidade face a outrasclasses de textos. Para compreender o ensaio como uma atitude vincada e singularé incontornável a alusão à obra de Sílvio Lima,
Ensaio
 
sobre
 
a
 
Essência
 
do
 
Ensaio
 (Lima: 1964), leitura impreterível para o estudo e crítica ensaísticos. Para oprofessor coimbrão, o ensaio é “uma
atitude
 
ginástica do intelecto que, repudiandoo autoritarismo, pensa firmemente por si só e por si próprio. Quere dizer, o ensaioé o
espírito
 
crítico
, o
livre
-
exame
” (Lima, 1964: 201). Na análise limiana, são tidascomo principais características do ensaio o auto‐exercício da razão, a experiênciaoriunda da vida concreta, e ainda a sua capacidade crítica.
Grosso
 
modo
, na ópticade Sílvio Lima, o ensaio “é um
método
humanístico, é
o
método humanístico” (Lima,1964: 202).Não obstante, conceber tão‐somente o ensaio como uma simples atitudeputativa e dubitativa, em que se questiona e pondera a possibilidade, amputa a suaautêntica potencialidade e a sua amplitude genuína. Acreditamos que o ensaio é,em concomitância, um processo cognitivo mas também uma classe de textos comespecificidades determinadas. Sustentando‐nos nas premissas de Arenas Cruz, em
Hacía
 
una
 
teoría
 
 general 
 
del 
 
ensayo.
 
Construcción
 
del 
 
texto
 
ensayístico
(Arenas Cruz,1997), o ensaio é definido como
“um
 
veículo
 
de
 
comunicação
 
que
 
 pelas
 
 peculiaridades
 
 formais
 
(…)
 
é 
 
um
 
resultado
 
altamente
 
adequado
 
 para
 
exercer 
 
a
 
crítica
 
argumentada
 
da
 
cultura,
 
em
 
quaisquer 
 
dos
 
seus
 
aspectos,
 
desde
 
os
 
mais
 
exagerados,
 
até 
 
aos
 
mais
 
transcendentais,
 
a
 
 partir 
 
da
 
 perspectiva
 
individual 
 
do
 
eu.
 
Este
 
atractivo
 
deriva
 
do
 
 facto
 
de
 
o
 
ensaio
 
ser 
 
uma
 
classe
 
de
 
textos
 
resultante
 
de
 
uma
 
tensão
 
 psicológica
 
entre
 
dois
 
desejos
 
aparentemente
 
contraditórios:
 
o
 
de
 
 pensar 
 
e
 
descrever 
 
a
 
realidade
 
e
 
as
 
 formações
 
culturais
 
tal 
 
como
 
são
 
em
 
si
 
mesmas
 
e
 
o
 
de
 
impor 
 
necessariamente
 
um
 
 ponto
 
de
 
vista
 
sobre
 
elas.
 
 A
 
consequência
 
é 
 
a
 
impossibilidade
 
de
 
objectividade…” 
 
(Arenas
 
Cruz,
 
1997:
 
129)
 
Nesta senda, para fazer uma apreciação que abarque o máximo da extensãoensaística, é imperioso que nos socorramos não apenas dos utensílios oriundos daTeoria da Literatura, mas também da Filosofia. Como tal, o ensaio é um texto, cujoscontornos merecem ser examinados sob um prisma literário‐filosófico. Porém, aonível filosófico devemos ter a perfeita noção dos terrenos que trilhamos. Naverdade, ele é também um texto cujo objectivo se prende com uma ânsia por partedo seu autor em provocar no auditório o acto perlocutório. É neste particular quenos atrevemos a incorrer pela Retórica, nomeadamente pela sua revitalizaçãorealizada por Chaïm Perelman. Neste âmbito, quando falamos em conhecimento,
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