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ENCONTRO INTERNACIONAL
A UNICIDADE DO CONHECIMENTO
CIEP
 
Centro de Investigação emEducação e Psicologia
 
INFLNCIASDAASTROLOGIAEDANUMEROLOGIANATERAUTICADEAMATOLUSITANO
 
Isilda Rodrigues
I
NTRODUÇÃO
 
Do final do Século XII ao início do Século XVI, a ciência europeia organizou‐sesobretudo em termos dos parâmetros cognitivos estabelecidos peloEscolasticismo, uma forma de aproximação à explicação do mundo que ficouconhecida historicamente como
O Baptismo de Aristóteles
” e que teve, no Padre daIgreja italiano Tomás Aquino (1225‐1274), a sua figura de proa
1
 
. Nestaaproximação fizeram‐se sentir várias correntes, umas platónicas, e portanto maisracionalistas, outras aristotélicas, e portanto mais sensoriais. Nesta época, o estudodo Homem e do Universo centrou‐se na observação e na experiência sensoriais,recorrendo‐se, por vezes, ao misticismo, à magia, e à eterna analogia macro‐microcosmos
2
 
. Estas formas de interpretação fizeram‐se sentir nos vários campos
1
 
Para mais informações consultar:Rohmann, C.,
A Wold Of Ideas-A Dictionary Of Important Theoris, Concepts, Beliefs and Thimkers
, New York:Ballantine Books. 1999.
2
 
Ainterpretação do macrocosmos‐ o Universo e o microcosmoo Homem, presente já em Platão, foi adoptadapor muitos escritores árabes. Teve também grande aceitação na Idade Média e Renascimento. Apresentamosum excerto da analogia Terra – Corpo Humano retirado do
Codex Leicester 
, de Leonardo da Vinci que éconsiderado um dos mais importantes manuscritos relativivos à geologia, só há pouco tempo se tornouacessível ao grande público. Foi objecto de uma grande exposição temática durante a EXPO98 em Lisboa e deuma exposição no Mosteiro dos Jerónimos durante o mesmo ano:“ A Terra tem alma vegetativa, (...) a sua carne é o solo, os seus ossos são os sucessivos estratos de pedra quecompõem as montanhas, as suas cartilagens são os tufos calcários, e o seu sangue são as veias da água. O lagode sangue que rodeia a Terra é o mar oceano. A respiração é o aumento e a diminuição do sangue nos pulsos,tal como na Terra é o avançar e o recuar das marés”
 
RODRIGUES, I. (2007)
Influências da astrologia e da numerologia na terapêutica de AmatoLusitano
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2
 
da chamada filosofia natural, orientada para a investigação das causas e dos efeitosdos fenómenos naturais e para a tentativa de determinação das leis que presidiamàs suas relações.Com o Renascimento e com a recuperação dos textos Clássicos desencadeou umdesabrochar renovado do recurso explicativo às tradições mágicas greco‐romanas,nomeadamente nos domínios da mitologia, da magia, da astrologia e da alquimia. Aredescoberta de antigos escritos platónicos enfatizou a visão da Natureza comoestando toda ela animada e viva. Voltaram a consultar‐se os escritos herméticos,onde sobressaem os textos conhecidos por
Corpus Hermeticum
, atribuídos ápersonagem mítica Hermes Trismegisto
3
 
. Estes textos transmitiam uma sabedoriatão antiga que os humanistas estavam persuadidos de que o seu autor (ou autores)a teria recolhido directamente das próprias palavras de Platão
4
 
; e, como tal, foramfundamentais para o reflorescimento da magia
5
 
. Dos ensinamentos da
Tábua deEsmeralda
, também atribuída ao mesmo Hermes Trismegisto, derivaram algumasdas doutrinas esotéricas legadas pelo Renascimento ao pensamento europeu, ededuziram‐se as leisfundamentais das ciências herméticas. Dentro deste grupo,incluía‐se o simbolismo, a mitologia, a magia, a astrologia e a alquimia
6
 
.Alguns autores modernos apontam, ainda, a associação destas ideias às novastendências surgidas no seio do aristotelismo renascentista, fortementeinfluenciadas pelo neoplatonismo
7
 
. No aristotelismo escolástico tradicional, aexplicação por via do oculto causava um franco embaraço. O filósofo escolásticomedieval só ficava satisfeito se conseguisse explicar os fenómenos recorrendo acausas evidentes. Se tivesse que recorrer a qualidades ocultas, seria como que umaadmissão de derrota intelectual.É consensual, para diversos autores modernos, nomeadamente Rupert Hall
8
 
,que a magia renascentista foi essencial para o desenvolvimento da ciência e para oabandono progressivo das abordagens filosóficas medievais
9
 
. A magia terá sido,como afirmou William Eamon
10
 
, a
ciência cortesã
, já que floresceu por excelência
ix Figura central do ocultismo. Para mais informações consultar:Sédillot, C.,
O Fantástico Mundo Da Alquimia
, Cascais: Pergaminho, 2001
4
 
Laszlo, Pierre
 ,O que é a Alquimia,
Lisboa: Derramar, 1997, pp. 53‐60.
5
 
Copenhaver, Brian, Natural Magic, Hermetism, and Ocultism in Early Modern Science
In Reappraisales os theScientific Revolution
., Cambridge: Cambridge University Press, 1990, pp 261‐302.
6
 
Segundo o francês Pierre Vincent‐Piobb (18741942) na sua obra
Clef universelle des sciences
secrétes.
7
 
Convém aqui precisar que o Neoplatonismo foi um sistema filosófico que nasceu em Florença, no seio da Academia Platónica.Esta academia reunia, em torno do filósofo Marsilio Ficino (1433–1499), alguns intelectuais e homens de letras que tinham emcomum o interesse pelos escritos de Platão7. Ficino concebeu o Universo como sendo distinto de Deus, mas não separado dele, eorganizado como uma hierarquia em quatro degraus. No topo estava o intelecto cósmico (Mens, a mente), um domínio puramenteinteligível e supra-celeste. Imediatamente abaixo estava a alma cósmica (Anima Mundi), contendo as formas seminais, ou ideias, detodas as coisas. Depois vinha o reino da natureza, composto pelas associações e dissociações da forma e da matéria, harmonizadas por força do espírito do mundo (Spiriti Mundi), instância organizativa intermédia, entre a alma cósmica e as coisas materiais.Finalmente, descíamos até ao reino da matéria (Corpus Mundi), sem forma e sem vida. Da mesma forma que o Universo se dividiaentre um domínio material e um domínio imaterial, também o homem era composto por um corpo e por uma alma. Esta alma, por sua vez, dividia-se em faculdades repartidas entre anima prima e anima secunda. Esta última era comum aos animais privados derazão, enquanto que a primeira era capaz de alcançar a inteligência pura de Deus. Assim, o homem ocupava no Universo um lugar único; e podia obter, mesmo em vida, o garante da sua redenção no além.
8
 
Rupert Hall,
A Revolução Na Ciência 1500-1750,
Lisboa: Edições 70, 1988
.
p.133.
9
 
Idem
10
 
William Eamon,
Science and the Secrets of Nature: Books of secrets in Medieval and Early Modern Culture
,Princeton: Princeton University Press, 1994.
 
Actas do Encontro Internacional – A Unicidade do Conhecimento
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3
 
em várias cortes da Europa, como Florença, Milão, Paris e Londres,particularmente na primeira etapa do Renascimento. Pode afirmar‐se que as maisantigas academias cortesãs que se interessaram por estas novas formas deconhecimento foram instruídas para promover a então chamada
magia natural 
.O estudo que aqui se apresenta integra uma investigação mais ampla
11
 
e temcomo objectivo principal apresentar e analisar o papel desempenhado pelosnúmeros e pelos astros, na terapêutica do médico português, João Rodrigues deCastelo Branco (1511‐1568), que se tornou conhecido por Amato Lusitano. A obraque serviu de base para este estudo, as
Sete Centúrias de Curas Medicinais
, foipublicada, pela primeira vez, em 1551. Depois de uma longa espera, as
Centúrias
 foram finalmente traduzidas para Português, por Firmino Crespo, professor deLatim e Português no ensino secundário de Portalegre. A obra apareceu, emPortugal, apenas em 1980, numa publicação, em 4 volumes, da Faculdade deCiências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.As Centúrias são uma colecção de observações valiosas de Cirurgia e Medicina.Cada Centúria comporta 100 casos clínicos que Amato designou por Curas.De seguida, teceremos algumas considerações sobre aspectos da astrologia e danumerologia que influenciaram a Medicina na época renascentista e numaabordagem mais específica, apresentaremos um levantamento das curas presentesnas Centúrias em que é evidente a influência destas temáticas na terapêutica doautor.
C
ONSIDERAÇÕES SOBRE A
A
STROLOGIA E A
N
UMEROLOGIA NA
M
EDICINA RENASCENTISTA
 
Nas universidades, a astrologia sempre teve presença assídua, sobretudonaquelas em que figurava o ensino da Medicina. Na Medicina astrológica dizia‐seque “o homem é um microcosmos e que nele o Todo Poderoso imprimiu a suaprópria imagem”
12
.No que toca à astrologia na prática médica, o diagnóstico dependia da previsãodo horóscopo, mas as terapias empregues para esse mesmo diagnósticoassemelhavam‐se, com frequência, às que os outros médicos empregavam, fazendotentativas para ajustar o equilíbrio humoral
13
, pela purga ou sudação
14
. A curaastrológica desempenhava a função de restaurar essa harmonia
15
.
11
Integra uma Tese de Doutoramento, cujo título é
AMATO LUSITANO E AS PERTURBAÇÕES SEXUAIS – Algumascontribuições para uma nova perspectiva de análise das Centúrias de Curas Medicinais
, apresentada naUniversidade de Trás‐os‐Montes e Alto Douro (UTAD), Vila Real, orientada pela Professora Doutora Clara PintoCorreia e pelo Professor Doutor José João Bianchi, Professor Associado da UTAD.
12
 
Rupert Hall.,
op. cit 
., p. 133; Na tradição dos Padres da Igreja, a visão do homem como microcosmos, em queDeus se reflecte, recua até S. Gregório de Nissa, nascido cerca de 385.
13
No galenismo tradicional, herdado, pelo Renascimento, da Medicina medieval, vigorava como eixoorganizador do pensamento clínico a ideia de que os quatro elementos da matéria ‐ fogo, ar, água e terra ‐
of 00

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