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BARRETTO,
 
K.
 
(2007)
 
Acompanhamento
 
terapêutico:
 
conhecer,
 
tempo
 
e
 
arte.
 
In,
 
V.
 
Trindade,
 
N.
 
Trindade
 
&
 
A.A.
 
Candeias
 
(Orgs.).
 
 A
 
Unicidade
 
do
 
Conhecimento.
 
Évora:
 
Universidade
 
de
 
Évora.
 
______________________________________________________________________
2
 
foi denominado amigo qualificado e, posteriormente, acompanhante terapêutico.Isto ocorreu na medida em que o trabalho foi se dando mais na rua, na casa dopaciente e deixando a instituição psiquiátrica e os consultórios.Esse trabalho nos leva a testemunhar a maneira como os problemascontemporâneos afetam os modos de subjetivação do ser humano. Nessaperspectiva, o adoecimento psíquico pode ser visto não só como decorrente dedinâmicas intrapsíquicas, mas também pelo mal estar no mundo social e cultural.Diferentes autores (Adorno, Stein, Heidegger) têm assinalado que os problemascontemporâneos são também frutos pelo modo como o processo de conhecimentoaconteceu na modernidade. Perspectivas epistemológicas utilizadas na maneiracomo se aborda o ser humano nas Ciências Sociais levam a conseqüênciassignificativas na desumanização do mundo e na fratura do
ethos
humano.Tendo em vista este tipo de situação, tenho recorrido à pesquisa da literatura eda arte como modo de abordar a questão do conhecimento, e do modo como atemporalidade vem afetando a subjetividade humana.Um autor que tenho considerado bastante fecundo nessa investigação e reflexãoé o poeta indiano Rabrindanath Tagore.Não há como abordar a obra de Tagore sem nos determos na articulação que eleapresenta ao se referir a Deus, à Natureza e ao Homem. Não seria exagero afirmarque toda sua obra é atravessada por esses três pontos e a relação entre eles.Ao longo de seus poemas, ensaios e palestras, o poeta faz referência a Deuscomo: Senhor, Ser Supremo, Personalidade Suprema, Criador, Pai, Amigo, Amante,Poeta... O Criador se faz presente em sua criação e se expressa através dela. OInfinito habita o finito. Daí a importância da relação harmoniosa com o mundo e oque nele está, pois nestes elementos vislumbramos o Todo Infinito. O mundo é olugar da manifestação do Divino. A qualidade da relação que estabelecemos com omundo contribuirá ou não para nos aproximarmos do Ser Supremo.Em seu modo de ver, tudo que existe no mundo está envolto por Deus e é fontede alegria, deleite e experiência poética. Assim sendo, a presença divina semanifesta em todos os elementos da natureza, o que leva o poeta a uma atitude dereverência e sacralização do mundo.À pergunta sobre o que é esse que tudo permeia, Tagore encontra resposta nossagradas escrituras do Hinduísmo.
O
 
que
 
é 
 
esse
 
espírito? 
 
Diz 
 
o
 
Upanixade:
 
O
 
ser 
 
que
 
é 
 
em
 
sua
 
essência
 
a
 
luz 
 
e
 
a
 
vida
 
em
 
tudo,
 
que
 
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universalmente
 
consciente,
 
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Brahma.
 
(Sadhana;
 
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 25)
 
 
BARRETTO,
 
K.
 
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3
 
Brahma, o Criador, é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas, mas ele em sinão possui um começo e nem um término. Toda a criação está nele, mas SuaGrandeza não está em sua totalidade contida no universo. Ele está perto e aomesmo tempo distante. Estamos diante do paradoxo, o mistério que não é passívelde ser resolvido. Vejamos como Rabindranath organiza, poeticamente, essaquestão do criador e da criatura:
Colocas
 
uma
 
barreira
 
no
 
teu
 
 próprio
 
ser,
 
e
 
depois
 
chamas
 
de
 
volta
 
o
 
teu
 
 próprio
 
ser,
 
repartido
 
em
 
milhares
 
de
 
notas
 
musicais.
 
Essa
 
 parte
 
dividida
 
de
 
ti
 
mesmo
 
é 
 
a
 
que
 
se
 
encarnou
 
em
 
mim.
 
(Gitanjali;
 
estrofe
 
do
 
 poema
 
71)
 
A relação com o ser supremo determina não só um registro religioso, mastambém se torna uma necessidade ética, para que o homem não torne o outro‐coisa e aborde a Natureza, sem que ela seja mera fonte de materiais para os bensde consumo.Podemos apreender uma relação bastante pessoal e amorosa entre Criador ecriatura. Tagore cunhou o conceito de
 jiban
-
devata
, cuja tradução literal seriaDeus‐vida, ou seja, o Senhor da vida. Ele a define como
“o
 
aspecto
 
limitado
 
da
 
Divindade
 
que
 
tem
 
seu
 
lugar 
 
singular 
 
na
 
vida
 
individual,
 
em
 
contraste
 
àquela
 
[Divindade]
 
que
 
 pertence
 
ao
 
universo” 
(Imperfect encounter; p. 321). Curiosa estaafirmação do ilimitado fazendo‐se presente na parte, de uma porção personalizadade Deus. Aqui vemos também a proximidade dessas concepções com a perspectivateológica cristã, na qual Deus limita‐se por meio do esvaziamento de si (
kenosis
)para permitir que o mundo possa existir. No Cristianismo esse esvaziamentoatinge o seu ponto mais dramático pela encarnação da divindade, momento em quea natureza humana é acolhida pela divindade.No final de seu livro mais autobiográfico, Tagore também faz uma menção aestes aspectos:
Eu
 
não
 
tenho
 
a
 
capacidade
 
de
 
revelar 
 
e
 
apresentar 
 
a
 
suprema
 
arte
 
 pela
 
qual 
 
o
 
Guia
 
de
 
minha
 
vida
 
está,
 
alegremente,
 
me
 
conduzindo
 
através
 
de
 
todos
 
os
 
seus
 
obstáculos,
 
antagonismos
 
e
 
sinuosidades,
 
em
 
direção
 
à
 
realização
 
de
 
seu
 
mais
 
 profundo
 
significado.
 
 
se
 
eu
 
não
 
 puder 
 
tornar 
 
claro
 
todo
 
o
 
mistério
 
deste
 
 projeto,
 
o
 
que
 
quer 
 
que
 
eu
 
tente
 
apresentar 
 
é 
 
certo
 
que
 
será
 
confuso
 
a
 
cada
 
 passo
 
do
 
caminho.
 
 Analisar 
 
a
 
imagem
 
é 
 
somente
 
alcançar 
 
a
 
 poeira
 
e
 
não
 
a
 
alegria
 
do
 
artista.
 
(My 
 
Reminiscences,
 
 pp.
 
 271
-
 272)
 
of 00

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