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despropositado, pois muitas vezes o sentido de coerência, e o contacto com osrecursos das comunidades em que os doentes se inserem, só são por siconsiderados em contexto de prática clínica profissional, alheada da formaçãoacadémica laboratorial e memorizante da qual tantas vezes sentem saudades.A formação académica sempre promoveu, no entanto, estas dicotomias, no querespeita aos futuros médicos?
1.
 
A
NOTAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS SOBRE A
M
EDICINAOCIDENTAL ACTUAL
 
A formação de um médico até meados do século XX oscilava sobretudo entre aaprendizagem do surgimento e desenvolvimento dos embriões e dos sereshumanos adultos. A dimensão técnica, como a microscópica, não possuía papelpredominante. As teorias evolucionistas, nomeadamente as de Darwin, não tinhamainda sido fundidas com o mendelismo, e o desenvolvimento embrionário, porexemplo, podia ainda ser explicado legitimamente por uma pluralidade de teorias,congeminações e hipóteses. A observação do doente era a base da profissãomédica, e a prática clínica desde cedo proporcionava a percepção de que muitopouco se sabia de doenças e que cada um dos doentes com que os médicos sedeparavam merecia uma atenção especialA vacinação surgia como uma esperanç, os antibióticos como uma promessa, avacinação; a noção da fragilidade humana estava usualmente presente no contactomédico‐doente. “If we demanded absolute certainty before acting, then all healthcare would have to be stopped. For instance, it would be totally impossible tovaccinate newborn babies. How could we ever be sure that no problems wouldarise in the babies whom we vaccinated?” (Alanen, in Evans, Louhiala e Puustinen,2004:33).A partir da fusão da Genética com o darwinismo via introdução da teoria dainformação no mundo vivo (aquilo que constitui a base da Biologia molecular), estecenário generalizado alterou‐se fortemente.A evolução estonteante das técnicas ligadas à Medicina colocou esta área desaber num patamar muito diferente daquele atribuído usualmente à Medicina,enquanto área do saber especialmente dedicada à diminuição do sofrimentohumanoA descodificação do genoma humano abriu horizontes extraordinários àcompreensão da disfuncionalidade orgânica; os modelos teóricos alicerçam‐se noentanto ainda na relação causa‐efeito do mecanicismo moderno (Oliveira, 2004)enquanto um rasto teleonómico (geralmente não reconhecido) percorre ascrenças/dogmas da Biologia molecular, decorrente da sua linhagem evolucionista
 
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darwinista que aponta para a causalidade final (‘optimização da espécie’) comoprincípio explanatório (Atlan, 1979)A adopção do modelo mecanicista newtoniano na explicação/compreensão dosfenómenos vivos, não impediu que a Biologia e a Medicina tivessem descartado,contudo, questões filosóficas perenes, ainda que lhes possamos colocar umaroupagem mais severa, enfeitada em causalidades formais aparentementeinfinitas. ”Science deals comfortably with mechanisms, and I admit that there is anundeniably mechanical
aspect 
to our structure and function. So is your thumb’smovement the movement of a mechanism? At the skeletal and muscular level,perhaps it seems like that. However, the problem of what 
causes
the movement inthe first place remains. […] There seems to be no alternative to saying that it wasthe intention itself –an essential mental phenomenon”
 
(Evans, in Evans, Louhiala ePuustinen, 2004:10).
 
2.
 
D
IFICULDADES DA PROFISSÃO MÉDICA
 
O estatuto social actual do médico possui um carácter paradoxal: por um lado,pertence a uma profissão da qual se desconfia (muito mais do que há um séculoatrás), sobretudo devido à insensibilidade que alguns médicos demonstram paracom o sofrimento; por outro lado, aos médicos reconhece‐se a capacidade (e nãotanto o conhecimento) para proporcionar bem‐estar, e cura, de muitos malesdolorosos. A maior parte das pessoas nas sociedades ocidentais contemporâneasatribui o sucesso dos médicos, quando se verifica cura, especialmente ao acessopraticamente exclusivo que eles possuem às técnicas de diagnóstico, e queparecem tornar, por vezes, o médico ‘suplementar’. “At present, the medicalprofession is confronted by an explosion of technology, changing market force,problems in health care delivery, bioterrorism, and globalization. As a result,physicians find it increasingly difficult to meet their responsibilities to patients andsociety” (Blank
et 
 
al 
., 2007: preâmbulo).Assim, as principais reclamações das sociedades contemporâneas ocidentais,face à classe médica, referem‐se sobretudo à relação médico‐doente (ou ‘paciente’,palavra admirável, neste contexto).Como sabemos, muitas vezes os médicos recebem as pessoas executandoapenas uma função, como qualquer máquina programada o poderá fazer,verificando‐se uma inversão total dos princípios mais básicos do exercício médico,cuja principal missão é estar ao serviço dos doentes. “When the person isestablished as the logically central point of concern in medicine, then scientificinformation about disease and technology becomes subservient to that person’sown interests. Thus clinical theory needs to place the person (sick or well) at thecentre of the doctor’s thoughts, without impairing the doctor’s ability to think oract scientifically” (Puustinen, in Evans, Louhiala e Puustinen, 2004:22).
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