2
O REVOLTADO ROBESPIERRE
(Senhor Natanael Robespierre dos Anjos)
Todos os dias \u00fateis \u00e0s dez e meia toma o bonde no Largo de Santa
Cec\u00edlia encrencando com o motorneiro.
- Quando a gente levanta o guarda-chuva \u00e9 para voc\u00ea parar essa
jo\u00e7a! Ouviu, sua besta?
Gosta de todos aqueles olhares fixos nele. Tira o chap\u00e9u. Passa a
m\u00e3o pela cabeleira leonina. Enche as bochechas e d\u00e1 um sopro comprido.
Paga a passagem com dez mil-r\u00e9is. Exige o troco imediatamente.
- N\u00e3o quero saber de conversa, seu galego. Passe j\u00e1 o troco. E
dinheiro limpo, entendeu? Bom.
Ret\u00e9m o condutor com um gesto e verifica sossegadamente o troco.
- O qu\u00ea? Retrato de Artur Bernardes? Deus me livre e guarde!
Arranje outra nota.
Levanta-se para dar um jeito na cinta, chupa o cigarro (Sudan Ovais
por causa dos cheques), examina todos os bancos, vira-que-vira, come\u00e7a:
- Isto at\u00e9 parece servi\u00e7o do governo! Pausa. Sacudidela na cabeleira
leonina. Conclui:
- O que vale \u00e9 que os homens um dia voltam...
Primeiro sorriso aparentemente sibilino. Passeio da m\u00e3o direita na
barba escanhoada. Ser\u00e1 espinha? Tira o espelhinho do bolso. \u00c9 espinha
sim. Porcaria. Segundo sorriso mais ou menos sibilino. Cara de nojo.
N\u00e3o sei que raio de cheiro tem este Largo do Arouche, safa!
Vira a alian\u00e7a no seu-vizinho. Essa opera\u00e7\u00e3o deixa-o meditabundo
por uns instantes. Finca o olhar de sobrancelhas unidas no cavalheiro da
esquerda. Esperando. O cavalheiro afinal percebe a insist\u00eancia. \u00c9 agora:
- Perd\u00e3o. O senhor leu a \u00faltima tabela do Matadouro? Viu o pre\u00e7o
Leave a Comment