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cÍrculo do livro s.a.
caixa postal 7413
são paulo, brasil
a voz era a mesma de vinte anos atrás, e a dor, desconforto prenunciando dor, que eu impeço, ficando uma inquietação indefinida que converto em retirada, o caminho coberto de fortificações e trincheiras verbais, uma obstrução de movimento.
falamos às vezes assim, alguns de nós, desmamados por hollywood, quando nossos pais liam anatole france, "ironia fina", e, ao percebermos, lemos eliot e procuramos absolvição em auden. não reconhecemos machado de assis e não conhecemos de verdade drummond e rosa, ou só como "navios cruzando na noite", ou de escola, decoreba & cola. glauber pega porque é selvagem. há nele o criminoso potencial que imitamos em pensamentos e nunca recriamos em atos.
meu nome é hugo mann e emito um "oi" folclórico, sou convidado a beber no ouro verde, "assunto importante". não há assunto ou importância possível entre nós. É um jeito da gente falar. sim, já houve momentos partilhados, mas vivo no presente por assim dizer. não somos sérios o bastante para ter passado ou futuro.
de joelhos procuramos o pó na grama careca do ouro verde. havia uma moça que não sabia que tomávamos, e escondida dentro de um marlboro a grama, de pó, ia e vinha, e fazíamos pipi demais, o banheiro é o altar da cafungagem. me distraí e joguei o marlboro fora. como nabucodonosores, de quatro, caçamos o tesouro entre as pernas de aeromoças e comissários de bordo, interpretando turistas americanos, e daqueles playboys assimilados posando de melofranco, que andavam mas não casavam com mulher bonita porque tinham medo de ser cornos. brasileiros comuns nos olhavam, cocando o saco, postura usual em face do inusitado. "um povo jovem sempre testando manualmente a própria virilidade." aldous huxley. há outras explicações. thomas huxley talvez achasse que é um problema de localização do cérebro, uma pequena boutade evolucionária. a moça que tomava, que queria passar camisas a ferro de um marido e produzir bacuris — passou, produziu-se, deu-se mal e continua tomando —, achou e pulamos. naquele tempo nos divertíamos e naquele tempo a cocaína era boa, não descera à turma do milk shake.
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