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paulo francis
cabeça de papel
círculo do livro

cÍrculo do livro s.a.
caixa postal 7413
são paulo, brasil

edição integral
copyright — paulo francis
licença editorial para o círculo do livro
por cortesia da editora civilização brasileira s.a.
2468 10 97531
para sônia
a manhã seguinte, 1976

a voz era a mesma de vinte anos atrás, e a dor, desconforto prenunciando dor, que eu impeço, ficando uma inquietação indefinida que converto em retirada, o caminho coberto de fortificações e trincheiras verbais, uma obstrução de movimento.

"howdy there. victor here. long time no see."

falamos às vezes assim, alguns de nós, desmamados por hollywood, quando nossos pais liam anatole france, "ironia fina", e, ao percebermos, lemos eliot e procuramos absolvição em auden. não reconhecemos machado de assis e não conhecemos de verdade drummond e rosa, ou só como "navios cruzando na noite", ou de escola, decoreba & cola. glauber pega porque é selvagem. há nele o criminoso potencial que imitamos em pensamentos e nunca recriamos em atos.

meu nome é hugo mann e emito um "oi" folclórico, sou convidado a beber no ouro verde, "assunto importante". não há assunto ou importância possível entre nós. É um jeito da gente falar. sim, já houve momentos partilhados, mas vivo no presente por assim dizer. não somos sérios o bastante para ter passado ou futuro.

de joelhos procuramos o pó na grama careca do ouro verde. havia uma moça que não sabia que tomávamos, e escondida dentro de um marlboro a grama, de pó, ia e vinha, e fazíamos pipi demais, o banheiro é o altar da cafungagem. me distraí e joguei o marlboro fora. como nabucodonosores, de quatro, caçamos o tesouro entre as pernas de aeromoças e comissários de bordo, interpretando turistas americanos, e daqueles playboys assimilados posando de melofranco, que andavam mas não casavam com mulher bonita porque tinham medo de ser cornos. brasileiros comuns nos olhavam, cocando o saco, postura usual em face do inusitado. "um povo jovem sempre testando manualmente a própria virilidade." aldous huxley. há outras explicações. thomas huxley talvez achasse que é um problema de localização do cérebro, uma pequena boutade evolucionária. a moça que tomava, que queria passar camisas a ferro de um marido e produzir bacuris — passou, produziu-se, deu-se mal e continua tomando —, achou e pulamos. naquele tempo nos divertíamos e naquele tempo a cocaína era boa, não descera à turma do milk shake.

digo a victor que me contaram que ele virou fazendeiro, que se casou,

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