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ENTREVISTA COM HAKIM BEY NA HIGH TIMES MAGAZINE
Zero Boy Muito antes dele se tornar uma lenda “cult”, eu ouvi pela primeira vez o nome domisterioso e esquivo Hakim Bey quando girava o dial do rádio em Nova York. Ele foimencionado em um programa da WBAI FM chamado “A Cruzada Moura Ortodoxa”.Mas logo, amigos estavam falando em surdina sobre suas buscas à Zona AutônomaTemporária. Intrigado, eu procurei pelo clássico underground de Hakim, T.A.Z.,  AZona Autônoma Temporária: Anarquismo Ontológico e Terrorismo Poético(Autonomedia, po Box 568, Brooklyn, ny 11211). Eu o achei numa pequena livrariaesotérica que tinha desde trabalhos de Emma Goldman até Aleister Crowley. Eucomecei a perguntar sobre a Sociedade do Anarquismo Ontológico e sobre esseenigmático Hakim Bey. Ninguém sabia como chegar ao efêmero Hakim. Ligar para oseditores dele me deixou ainda mais frustrado.Hakim Bey também lançou um CD declamado com música de Bill Laswell pelo seloAxiom, chamado também de TAZ. Então eu os contatei também - inutilmente. Entãoum dia eu acho um bilhete na minha cama dizendo para vir à Rua Mott às 9 da noitepara uma entrevista. Como isso veio parar aí? Na Rua Mott, um carro anônimo encostae me leva a um obscuro restaurante num porão em Chinatown, onde uma cabine privadacom cortinas está separada, com um pequeno narguilé e um prato cheio de Bolas deTemplo Nepalesas(1). Sou convidado a entrar.
HIGH TIMES:
Hakim, de onde você é?
HAKIM BEY:
Bem, a informação padrão (que é tudo que eu falo) é que eu era umpoeta da corte de um principado sem nome no norte da Índia, que eu fui preso naInglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em Pine Barrens, NovaJersey, em um trailer da Airstream(2). Quando eu venho a Nova York eu fico num hotelem Chinatown.
HT:
O que é a Zona Autônoma Temporária?
HB:
A Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eucriei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto emalgo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem emgrupos para buscarem liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algumfuturo utópico abstrato e pós-revolucionário.
 
A questão é: como os indivíduos em grupos maximizam a liberdade sob as situaçõesdos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos queo mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas oque podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona AutônomaTemporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária depessoas afins não-hierarquizada, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numasociedade atual. Organização para a maximização de atividades prazeirosas semcontrole de hierarquias opressivas.Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem numaregularidade quase diária; você pode falar sobre educação compulsória, ou trabalho.Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como umahierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar ahierarquia opressiva do trabalho alienado.Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobreessas hierarquias reais e opressivas – não somente declarar nossa antipatia teórica aessas instituições. Você vê a diferença que eu coloco aqui?No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se confundiram com esse termo eusaram ele como um rótulo para todo o tipo de coisa que ele realmente não é. Isso éinevitável, uma vez que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar metáforasde computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou não isso não é tãoimportante, porque o significado está incrustado no termo. É como um vírus verbal. Elediz o que significa.
HT:
Uma Zona Autônoma Temporária necessariamente se abstém do uso do dinheiro?
HB:
Isso é difícil em uma situação real, mas pode acontecer. O
Rainbow Gathering 
(3),por exemplo, se abstém do uso do dinheiro. Isso é quase que uma garantia de um graumuito maior de autonomia temporária para as pessoas que estão participando.Eles na realidade aumentam seu prazer saindo fora da economia dedinheiro/mercadorias.
HT:
A imprensa ligou o fenômeno TAZ ao movimento cyberpunk. Você acha que aInternet é uma Zona Autônoma Temporária?
HB:
Não. Um mal entendido muito peculiar veio à tona. A revista Time fez umamatéria sobre o ciberespaço que me citou erroneamente - o que me deixouparticularmente feliz. Se a Time entendesse o que eu estava falando, eu seria forçado areestruturar toda minha filosofia, ou talvez desaparecer pra sempre em desgraça.Eles diziam que o ciberespaço era uma Zona Autônoma, e eu não concordo.Enfaticamente não concordo. Eu acho que a liberdade inclui o corpo. Se o corpo está emum estado de alienação, então a liberdade não é completa em nenhum sentido. OCiberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual.Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessascoisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.
 
A única coisa que a Internet ou o cIberespaço podem ter com relação à Zona AutônomaTemporária é que eles são instrumentos ou “armamento” para alcançar a liberdade.Então é importante trabalhar para proteger as liberdades de expressão e comunicaçãoque estão abertas neste exato momento pela Internet contra o FBI e Clinton e a
“Infobahn”
(um bom termo em alemão para designar a auto-estrada da informação).Cuidado para não ser atropelado na
Infobahn!
Comunicando-se por uma BBS(4), umgrupo pode planejar um festival de maneira muito mais eficaz, alguma coisa como umRainbow Gathering, estruturado nas chances para maximizar o potencial para osurgimento de uma TAZ real. A Internet também pode ser usada para montar uma redeeconômica alternativa genuína. Trocas e permutas trilhadas na Internet emcomunicações privilegiadas.
HT:
Você pode explicar o “Terrorismo Poético”?
HB:
Por terrorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podemter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista - com a diferençade que o ato é de mudança de consciência. Digamos que você tem um grupo de atoresde rua. Se você chamar o que você está fazendo de “performance de rua”, você já criouuma divisão entre o artista e a audiência, e você alienou de si mesmo qualquer possibilidade de colidir diretamente nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as pessoasa participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha mistura de ação clandestina ementira (que é a essência da arte) com uma técnica de penetração psicológica deaumento da liberdade, tanto no nível individual quanto no social.
HT:
Você pode fazer algumas sugestões especial ao leitor da HIGH TIMES para criar uma TAZ?
HB:
Ok, tudo bem. Eu gostaria de dizer isso ao movimento canabista, e, em um nívelmais amplo, eu gostaria de direcionar isto ao movimento libertário em geral, que é umaliado próximo, cruza e tem áreas de contingência com o movimento canabista.Se os Libertários tivessem gasto os últimos quinze anos organizando redes econômicasalternativas para potencializar a emergência de uma Zona Autônoma Temporária e levá-la rumo a uma Zona Autônoma Permanente, ao invés de jogar o jogo fútil das políticasde terceiros, que é uma posição fracassada desde o início; se o movimento canabistativesse colocado sua energia nos últimos quinze anos na organização de redeseconômicas alternativas, não necessariamente baseadas em trocas “criminosas” dedinheiro por maconha mas nas necessidades e possibilidades básicas da vida real; setoda essa energia fosse direcionada nesse sentido, ao invés do que parece para mim umaquimera total, um fantasma totalmente abstrato chamado “poder político democráticolegislativo” - então eu penso que estaríamos há muito no caminho claro da mudançarevolucionária nessa sociedade.Nessas circunstâncias, toda essa boa intenção e grande energia foi mal direcionada emum jogo - um jogo em que a autoridade cria as regras, e nas quais “eles” criaram asregras para que pessoas como eu e você não possam ganhar poder dentro desse sistema.
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