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Uma carta de Bancrot
Para Francisco Foot Hardman e Lourival Holanda
O primeiro americano com quem conversei na Wa-verly Place em San Francisco não se considera apenas umamericano. Meu nome é Tse Ling Roots, sou sinoamerica-no, você sabe o que isso signifca? Ele mesmo respondeu:Signifca que para os meus antepassados a realidade nãotinha a menor obrigação de ser interessante.Ling Roots acabara de sair do templo Tin How quandolhe perguntei onde icava o templo. Apontou para o altode um ediício na Waverly Place:Ali mora a deusa protetora dos navegantes, disse LingRoots, com um ar de quem conhece todos os cantos deChinatown.Muitos jovens deste bairro não sabem onde ica Hoi-Pi, não sabem que Cantão e Xangai azem parte da históriade San Francisco, ele prosseguiu.Num tom comovente, Ling Roots contou que seu bi-savô ora um dos milhares de chineses que penaram nasminas e nas errovias da Caliórnia. Ele abriu os braços
 
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com um gesto meio teatral e enumerou vários nomes deamílias do bairro e a cada nome acrescentou um lugar daChina. Depois disse que Chinatown é uma orma de pre-servar a identidade oriental de milhares de amílias chine-sas nessa região da Caliórnia: Meus descendentes não vie-ram para azer a América, oram orçados a trabalhar aqui;por isso, imaginaram e ajudaram a construir Chinatown, oúnico espaço que, para eles, é realmente interessante.
Talvez seja verdade para os antepassados de Ling Roots,confinados nessa pequena China de San Francisco e aindaassombrados por um passado nada edificador. Ling Roots,que é policial, também acha a realidade pouco interessante.As gangues proliferam em San Francisco e Oakland, e nosúltimos dias desse inverno um estuprador e assassino apa-vora os moradores da Bay Area.
Nas horas vagas requento o templo, senão enlouque-ço, desabaou Ling Roots.No entanto, para um visitante como eu, não apenasChinatown, mas quase toda a San Francisco, oerece lan-ces interessantes.Mesmo daqui, de uma das colinas de Berkeley, con-templar a paisagem noturna da baía, com suas pontes ilu-minadas e o peril de seus ediícios com traços uturistas, jácontraria a airmação de Ling Roots. Também são interes-santes essas alamedas tranquilas de North Berkeley, as ca-sas de madeira, coloridas, sem cerca, com jardins orientais,por onde os gatos passeiam nos dias ensolarados: o cinzen-to deitado numa varanda, o olhar no céu muito azul daCaliórnia; o amarelo que, de uma janela, acompanha oolhar do passante e nos parece dizer que essa casa brancasó é acessível a ele.Ao passar pelo setor leste da cidade, sou atraído pelos
 
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gestos irreverentes e contestadores, dois adjetivos que nãoaltam à multidão de estudantes de Berkeley. Parece queestou de volta a outro tempo. Perto do portão de erro, aosul do campus, jovens e velhos tentam desaiar o establish-ment, como se ossem um dos ruídos deste planeta quetende à robotização, à uniormização e à banalização detudo.Não longe desses gestos e vozes de protesto, há umediício austero que me ez lembrar as palavras de LingRoots. Sim, porque aqui, na Biblioteca de Bancrot, a rea-lidade não tem nenhuma razão de ser interessante. O queinteressa em Bancrot são os milhares de manuscritos detodas as épocas, compulsados por pesquisadores de todo omundo. Há, aqui, papiros egípcios e manuscritos medie-vais, mas em muitos ichários constam também reerênciasao nosso século.Charles Faulhaber, o diretor da Biblioteca, me indicounum desses ichários um assunto que me interessa: “Bra-sil: limites & ronteiras”. Pedi-lhe para consultar uma se-ção do arquivo com “cartas e outros documentos manus-critos”. Agora estou próximo e ao mesmo tempo tão longedo burburinho dos jovens, dos grupos que distribuem pan-letos, dos punks que puxam gatos pela coleira e dos gritos:Por uma imprensa livre; Por uma imprensa alternativa.No ambiente silencioso de Bancrot parece que estoulonge até mesmo de Berkeley; mas o campanário, ao emi-tir quatro pancadas graves, me traz de volta ao presente. Éuma tarde ensolarada, mas esse clima não tem nada a vercom a quentura abaada descrita por Euclides da Cunhaem Manaus. É assim, resmungando contra o clima doequador, que começa a carta de Euclides a seu amigo Al- berto Rangel. Rangel, que estava no Rio de Janeiro, oere-
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