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Soubemos notícias do avô Raimundo Caetano bem antes datravessia dos Inhamuns. A saúde dele agravou-se e a festa deaniversário poderá não acontecer.Penso em voltar para o Recife, obedecendo a pres-sentimentos de desgraça, receios que me invadem em todasas reuniões da família. Davi e Ismael consultam-me com osolhos; temem que eu desista da viagem. Não dependem demim para continuar, mas sou eu que intervenho nas disputasentre eles, desde quando tocávamos rebanhos de carneiros eferi o calcanhar, numa tarde como essa.Tudo se assemelha ao passado, até os caminhos repe-tidos e o silêncio dos mortos, fantasmas que andaram comoando, ansioso e de humor deprimido.Há algum tempo dirijo o carro sozinho. Os primossubiram na carroceria da camioneta, expondo-se ao sol e àpoeira do final de tarde, num mês de dezembro com prenúnciosde chuva. Tamanha beleza é pura armadilha. Preciso de lentespara abstrair o azul do céu, as nuvens de cinema épico.O calor me enfada. Ele vem das pedras que aflorampor todos os lados, como planta rasteira. Nada lembra mais osilêncio do que a pedra, matéria-prima do sertão que percorre-mos em alta velocidade.De que maneira o primo Ismael arranjou dinheiropara comprar uma camioneta? É pergunta que ainda não fi-zemos. Deixamos para mais tarde os acertos de contas, afinal,nos juntamos depois de uma longa ausência. Durante muitotempo fomos apenas notícia.Observo as carnaúbas, esguias como o corpo do pri-mo Davi, e revejo a tarde dolorosa, ele fugindo nu, coberto
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apenas por uma camisa branca, o sexo à mostra, o sangue es-correndo entre as pernas. Sinto a náusea de sempre, o pavor denão compreender nada, mesmo depois de anos de psicanáli-se. Desejo voltar, acelero o carro, recuo na poltrona. Retornomais uma vez ao passado, à tarde em que tudo aconteceu. Osolhos congelados nas imagens de uma câmera fixa, um trailerde quinze ou vinte minutos.Vou sair no meio do filme. Não quero prosseguir.* * *Prossigo entre campos de futebol de areia, margens co-muns em estradas do Brasil. Rapazes se atracam em cima deuma bola, índios de tacape arrasando o inimigo. Cidades po-bres, iguais em tudo: nas igrejas, nas praças, num boteco abertoàs moscas. No posto rodoviário, um guarda federal espera aoportunidade de arrancar dinheiro de um motorista infrator.Mulher em motocicleta carrega uma velha na garupa e tan-ge três vacas magras. Dois mitos se desfazem diante dos meusolhos, num só instante: o vaqueiro macho, encourado, e o cava-lo das histórias de heróis, quando se puxavam bois pelo rabo.Imagino a casa dos meus avós derrubada por tratores,dando lugar a uma rodovia. O barulho forte das máquinas eas luzes dos faróis me deixam a impressão de que estou noutroplaneta. Mas não estou. O sertão continua na minha frente,nos lados, atrás de mim. O asfalto fede. Já chorei por causadessa ferida preta, cortando as terras. Agora, me distraio comos carros que passam.Onde estão os caminhos abertos pelos antigos, os queelegeram essa terra para morar, trazendo rebanhos e levantan-do currais? Procuro o rio Jaguaribe e ele é apenas um leitode areia, lembrança adormecida de águas que se recolhem naseca, e transbordam renascidas na estação das chuvas.Que fim levaram as árvores de porte? Só avisto o deser-to cinza, sem um único verde. O sol, já no fim, aumenta os re-ceios da noite. Reluto em voltar a Arneirós, temendo o encontro
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com minha família. Sua história escrita em três séculos de iso-lamento guardou-se em baús que não arejam nunca, por maisque debandemos em busca de outros mundos civilizados.* * *Olho os dois irmãos pelo espelho retrovisor. A pelemorena de Ismael sobressai no fim de tarde, a cicatriz do ros-to, as marcas que revelam sua origem de índio kanela. Davi,o mais moço, tem a pele alva e os cabelos louros, nenhumasemelhança com o irmão. Paro o carro e peço que desçam paraa cabine. Começa a esfriar. Estiro as pernas e os braços, salto egrito. Os primos riem, me empurram brincando, gritam maisforte. Aparento normalidade, ajo como se estivesse feliz com oencontro e a viagem.Ismael assume o volante. Escureceu completamente. As folhagens iluminadas pelos faróis lembram um campo ne-vado. Não acho graça na comparação. As chances de chegar-mos antes das nove horas se tornam remotas, por conta daestrada ruim. Os jornais da televisão mostram o abandonotodos os dias. Podemos ser assaltados na próxima curva, porbandidos armados de rifles, em camionetas importadas comoa nossa. Substituíram as pastagens de gado dos sertões porplantios de maconha.— Dá pra colocar um CD? — pergunta Davi.— Depende da música. É pagode? — brinca Ismael.— Seu gosto musical piorou bastante, meu irmão.Prefiro você com um maracá, fazendo pajelança.Ismael fica calado. As referências a sua origem o irri-tam, embora seja impossível escondê-la. Não se envergonhado povo de Barra do Corda, por mais degradado que esteja,porém não suporta o desprezo da família cearense. Esquecemque também são mestiços de índios jucás.Diz um palavrão e aperta o volante. Imagino a ca-mioneta atirada no abismo da próxima curva e Ismael deca-
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