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apenas por uma camisa branca, o sexo à mostra, o sangue es-correndo entre as pernas. Sinto a náusea de sempre, o pavor denão compreender nada, mesmo depois de anos de psicanáli-se. Desejo voltar, acelero o carro, recuo na poltrona. Retornomais uma vez ao passado, à tarde em que tudo aconteceu. Osolhos congelados nas imagens de uma câmera fixa, um trailerde quinze ou vinte minutos.Vou sair no meio do filme. Não quero prosseguir.* * *Prossigo entre campos de futebol de areia, margens co-muns em estradas do Brasil. Rapazes se atracam em cima deuma bola, índios de tacape arrasando o inimigo. Cidades po-bres, iguais em tudo: nas igrejas, nas praças, num boteco abertoàs moscas. No posto rodoviário, um guarda federal espera aoportunidade de arrancar dinheiro de um motorista infrator.Mulher em motocicleta carrega uma velha na garupa e tan-ge três vacas magras. Dois mitos se desfazem diante dos meusolhos, num só instante: o vaqueiro macho, encourado, e o cava-lo das histórias de heróis, quando se puxavam bois pelo rabo.Imagino a casa dos meus avós derrubada por tratores,dando lugar a uma rodovia. O barulho forte das máquinas eas luzes dos faróis me deixam a impressão de que estou noutroplaneta. Mas não estou. O sertão continua na minha frente,nos lados, atrás de mim. O asfalto fede. Já chorei por causadessa ferida preta, cortando as terras. Agora, me distraio comos carros que passam.Onde estão os caminhos abertos pelos antigos, os queelegeram essa terra para morar, trazendo rebanhos e levantan-do currais? Procuro o rio Jaguaribe e ele é apenas um leitode areia, lembrança adormecida de águas que se recolhem naseca, e transbordam renascidas na estação das chuvas.Que fim levaram as árvores de porte? Só avisto o deser-to cinza, sem um único verde. O sol, já no fim, aumenta os re-ceios da noite. Reluto em voltar a Arneirós, temendo o encontro
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