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Seu nomeele morreu hoje, às quatro da manhã. Não se sabia direi-to o que tinha ou pelo menos ninguém sério foi capaz dedizer. Não nos víamos há tanto tempo. Aqueles desen-tendimentos estúpidos, orgulho, montes de lixo. E agora
?
 Agora isso. Que estivesse deprimido, nenhuma novida-de, só que você não imagina que uma coisa assim matealguém, imagina
?
Mas o fato é... Esse tipo de tragédiafaz a gente repensar a vida. Ariana estava lá, coitada. Avisou hoje cedo. Esperei antes de telefonar porque vique você dormiu tarde, achei melhor... Notícias assim agente adia o quanto pode. Espero ter feito bem. Pareceque nos últimos dias ele já nem saía da cama. Ariana dis-se que gemia como um desses gatinhos abandonados quea gente ouve no meio da noite. “Um gatinho”, ela falou...Estranho. Logo minha irmã, que sempre detestou gatos.Parece que, quando se foi, ele olhava pra fora, por umajanela do quarto. Um pouco antes de... Um pouco an-
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tes, fez um sinal pra que Ariana afastasse as cortinas,como se soubesse. Não dormia mais. Aliás, ele sempreteve isso de insônia, lembra
?
E, de repente, se perder detudo olhando por uma janela... Juro que nunca conseguientender o Leonardo... Você está me ouvindo
?
Nuncasenti minha irmã tão triste. Agora é deixar o tempo pas-sar... O velório vai começar às seis, na Capelinha do Per-pétuo Coração. Te apanho às cinco. Te amo.Ela não podia mais se mover. O derramamento ti-nha começado. A primeira gota da hemorragia caiu nofim daquela primeira fraseQuerida, tenho uma notícia ruim, é sobre o Leonardo...e o vão foi-se rasgando vertiginosamente na lâmina decada palavra que veio em seguida. E ela se derramavacomo nunca antes. Como nunca antes, logo ela, todafeita de pequenos derrames, pequenos cortes, tantos,mas jamais profundos o suficiente para que tudo aquilose acabasse. E enquanto Klaus completava a sentença,com a naturalidade perturbadora de um âncora do no-ticiário das oito, ela sabia: a morte já estava ali, fazen-do sua ronda, muito antes. Dentro dela. Dentro deLeonardo.E depois
?
Depois o discurso sobre... Sobre nada, so-bre gatos e insônia. Porque Klaus era um homem delongos discursos. Para ele parecia realmente natural falarsobre gatos e insônia logo após anunciar a morte do
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cunhado, o amigo de infância da esposa, e ainda encaixarum desconjuntado te amo antes de encerrar o assunto.Quanto a ela, apenas permaneceu imóvel, como seesperasse o desmentido, como se o sinalzinho insisten-te
 
da linha fosse logo se transfigurar numa notícia boa,num riso de Leonardo, sim, logo viria um riso de Leon eaquele vão imenso fecharia, feito um movimento de tráspara a frente.Retumbavam pelas paredes recém-pintadas do quar-to (escolha sua, a cor de pêssego nas paredes) as palavrasgatinho, órfão, insônia e alívio. Ela, em sua dor com-prometida, confusa, acrescentou culpa. Estaria, enfim,se esvaziando inteira
?
 À noite, decidiu (muito satisfeita consigo) que co-memoraria o Dia Nacional do Funcionário Públicodeixando-se a manhã toda na cama. Já passava das novequando o telefone tocou, e ela, que ficara acordada atétão tarde, dormia ainda a salvo das culpas. O reserva-tório das culpas permanecia represado, provisoriamentesilencioso. Era um lago tranquilo — tranquilo na super-fície, mas no fundo um ocultador de carcaças.E só então percebeu, o que lhe doeu feito um abs-cesso em que se enfia a ponta do dedo, bem no centrodo peito, dentro, doeu-lhe saber que às quatro da ma-drugada, enquanto Leon morria, ela, aquecida em suacama, serenamente resolvia as palavras cruzadas deixa-das para trás por Klaus. Obtinha um prazer indefinível,o único daqueles dias, ao preencher suas lacunas. Poisdali de seu lugar, seu precioso lugar, não pressentira coisanenhuma. Aliás, sentia-se confortável, experimentava
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