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EVIDÊNCIA
392
EVOLUÇÃO
expressos em termos de coincidências espácio-temporais. Nesse sentido observa, p. ex., que a diferença entre umelétron negativo e um positivo não é contemplada na especificação das coordenadas
(Logic of Modem Physics,
1927,cap. III; trad. it., p. 153). Mas, apesar dessas reservas, o conceito de evento continua tendo uma importânciafundamental na física contemporânea e continua sendo considerado pelos físicos como a melhor caracterização doseu objeto.
EVIDÊNCIA
(gr. èvápTEioc, lat.
 Evidentia-,
in.
 Evidence,
fr.
 Evidence,
ai.
 Evidenz;
it.
 Evi-denzd).
Apresentação oumanifestação de um objeto qualquer como tal. Era assim que os antigos entendiam a E., especialmente epi-curistas eestóicos, que a assumiam como critério de verdade. Os epicuristas identificavam a E. com a própria ação dos objetossobre os órgãos dos sentidos (D
IÓG
. L., X, 52). Os estóicos entendiam por E. o apresentar-se ou dar-se das coisas aossentidos ou à inteligência, de tal modo que estas resultem "compreendidas" (S
EXTO
E
MPÍRICO
,
 Pirr. hyp.,
II, 7). A
representação cataléptica
(v.) é justamente a representação evidente. Desse ponto de vista, a E. não é um fatosubjetivo, mas objetivo: não está ligada à clareza e distinção das idéias, mas ao apresentar-se e manifestar-se doobjeto (qualquer que seja). Assim, nem mesmo os céticos recusam o que se apresenta como evidente, embora evitema asserção correspondente (S
EXTO
E
MPÍRICO
,
 Pirr. hyp.,
II, 10).Descartes, porém, deu um conceito
 subjetivo
de evidência. A "norma da E.", que ele expõe no
 Discurso,
 prescreve"nunca aceitar alguma coisa como verdadeira a menos que seja reconhecida evidentemente como tal; isso significaevitar diligentemente a precipitação e a prevenção e só incluir nos juízos o que se apresenta tão clara e distintamenteao espírito, que não haja motivo algum para ser posto em dúvida"
(Discours,
II). Nessa regra a E. foi reduzida à
clareza e distinção
(v.) das idéias, e os problemas correlativos se deslocaram do domínio do objeto para o da idéia,reapresentando-se neste último como problemas objetivos. O próprio Descartes (sobretudo em
 Regras para a direçãodo espírito)
vinculara a E. à faculdade da
intuição,
não entendendo com essa palavra o testemunho dos sentidos ou o juízo da imaginação, mas "a concepção firme de um espírito puro e atento que nasce apenas da luz da razão e que,sendo mais simples, é também maissegura que a dedução"
(Regulae ad directionem ingenii,
III). A E. seria, assim, o caráter da intuição e constituiria acerteza própria desta última, assim como a necessidade racional constitui a certeza da dedução. Esses conceitosdominaram grande parte da filosofia moderna, mesmo porque foram aceitos tanto por Locke, para quem "a certeza e aE. do nosso conhecimento provêm da intuição da concordância ou da discordância entre as idéias"
(Ensaio,
IV, 2, 1),quanto por Leibniz
(Nouv. ess.,
IV, 11, 10). O caráter subjetivo da E. e sua conexão com uma faculdade humana maisou menos misteriosa chamada intuição permaneceram em toda a filosofia moderna; só a filosofia contemporâneaentendeu retornar ao antigo conceito de E. objetiva.A crítica da E. como "uma voz mística que de um mundo melhor nos grite: aqui está a verdade!" foi feita por Husserl,que encontrou para a E. a definição de "preenchimento da intenção". Significa que há E. quando a intenção daconsciência, voltada para um objeto, é preenchida pelas determinações graças às quais o objeto se individualiza, sedefine e finalmente se apresenta à consciência
em carne e osso (Logische Untersuchungen,
II, § 39;
 Ideen,
I, § 145;
 Erfahrung und Urteil,
 p. 12). Portanto, em toda a filosofia contemporânea que se inspira na fenomenologia, a E.readquiriu caráter objetivo, voltando a designar a apresentação ou manifestação de um objeto como tal, qualquer queseja o objeto e quaisquer que sejam os métodos com os quais se pretende certificar ou garantir sua presença oumanifestação. Nesse sentido, Scheler falou de "E. preferencial" para indicar as inter-relações hierárquicas e objetivasdos valores que guiam e sugerem as escolhas humanas
(Formalismus,
 p. 87). No mesmo sentido, às vezes sãoqualificadas de evidentes as proposições analíticas ou tauto-lógicas cuja verdade resulta dos seus próprios termos,como, p. ex., "O triângulo tem três lados".
EVOLUÇÃO
(in.
 Evolution;
fr.
 Evolution;
ai.
 Evolution;
it.
 Evoluzioné).
Essa palavra ainda conserva o sentidogenérico de
desenvolvimento
(v.), mas, com mais freqüência, é usada para designar uma doutrina particular que sechama "teoria da E.". Ora, por essa expressão podem ser entendidas duas coisas diferentes: I
a
teoria biológica datransformação das espécies vivas umas nas outras, que é a hipótese fundamental das disciplinas biológicas de umséculo a esta par-
 
EVOLUÇÃO
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EVOLUÇÃO
te;
2-
teoria metafísica do desenvolvimento progressivo do universo em sua totalidade, que é uma hipótese admitidaou pressuposta por muitas doutrinas filosóficas modernas e contemporâneas. Embora esses dois significados tenhaminteragido ao longo da história da filosofia, é oportuno mantê-los separados. (Para o segundo v. E
VOLUCIONISMO
.)O termo E. foi introduzido provavelmente por Spencer no seu ensaio sobre o
 Progresso,
de 1857, mas essa palavra,assim como o conceito, não teriam gozado de tanto sucesso sem o êxito do transformismo biológico, que teve iníciocom
Origem das espécies,
de Charles Darwin (1859). A obra de Darwin era, de um certo ponto de vista, mais umaconclusão que um princípio (o que é demonstrado pelo êxito sem precedente): conclusão de um longo trabalho de pesquisas e de várias tentativas de generalização. A doutrina tradicional da imutabilidade (ou fixidez) das espéciesvivas fora reflexo, no domínio biológico, da doutrina da
 substância
(v.), ou seja, da necessidade da estruturaontológica do mundo, que prevalecera graças a Aristóteles na filosofia e na ciência antiga e medieval; isso explica por que a hipótese de transformação das espécies apresentada por Anaximandro (Ps. P
LUT
.,
Strom.,
2) e por Empédocles
(Fr.
56-61, Diels), ainda que de forma fantástica,: não deixou vestígios. Segundo a metafísica aristotélica, todas asformas substanciais são imutáveis porque necessárias; isso significa que não podem ser criadas nem destruídas. Comoformas substanciais, as espécies vivas compartilham de tais características. Esse princípio aristotélico, cuja únicaexceção é a criação de Deus, durante muitos séculos constituiu o arcabouço da pesquisa filosófica e científica. Foi sóa partir do início do séc. XVIII que alguns naturalistas começaram a considerar a possibilidade da transformação dasespécies biológicas. Buffon admitia essa hipótese, mas declarava-se explicitamente partidário da fixidez das espécies
{Histoire naturelle, YIA9-
1804). É provável que Kant se tenha inspirado nele quando, em 1790, levantou a hipótesede "parentesco real" entre as formas vivas, que proviriam de uma "mãe comum", e de desenvolvimento contínuo danatureza desde a nebulosa primitiva até os homens
(Crít. do Juízo,
§ 80). Mas essas eram apenas intuições genéricas,não confirmadas por nenhum sistema coordenado de observações. O primeiro a apresentar cientificamente a doutrinado trans-formismo biológico foi Jean-Baptiste Lamarck, em
 Philosophie zoologique
(1809), para quem todavia a E. dosorganismos devia-se às diferenças neles produzidas pelo maior ou menor uso dos órgãos, e que depois teriam sidofixadas pela hereditariedade. Sabe-se hoje que as mudanças nascidas dos hábitos não podem ser herdadas; portanto, omérito de Lamarck não é o de ter descoberto o princípio da E., mas o de ter insistido na doutrina geral e em algunsaspectos importantes dela, como o da adaptação ao ambiente. Foi só com
Origem das espécies
(1859), de CharlesDarwin, que se iniciou a moderna teoria da E. biológica. A teoria de Darwin admite duas ordens de fatos: I
a
existênciade pequenas variações orgânicas que se verificam nos seres vivos em intervalos irregulares de tempo e que, pela leida probabilidade, podem ser vantajosas para os indivíduos que as apresentam;
2-
luta pela vida entre os indivíduosvivos, que se deve à tendência de cada espécie a multiplicar-se segundo uma progressão geométrica. Este último pressuposto foi sugerido a Darwin pela doutrina de Malthus
(.Essay on Population,
1798). Dessas duas ordens defatos resulta que os indivíduos nos quais se manifestem mudanças orgânicas vantajosas têm maiores probabilidadesde sobreviver na luta pela vida, e, em virtude do princípio de hereditariedade, haverá neles acentuada tendência adeixar os caracteres acidentais como herança aos seus descendentes. Essa é a
lei da seleção natural,
que Darwinconsiderou o esteio da doutrina da E.
{Or. das espécies,
IV, 18).Enquanto a doutrina de Darwin sofria, por um lado, os ataques dos partidários da velha metafísica e, por outro, eraestendida e generalizada como teoria da E. cósmica, eram apresentadas novas hipóteses, em conflito com o princípioda seleção natural, que procuravam esclarecer 
como
ocorreria a E. Por um lado, os neolamarckianos (entre os quais,especialmente, o francês Giard [1846-1908] e o americano Cope [1840-97]) insistiam na relação do organismo com oambiente, atribuindo a essa relação a capacidade de produzir as novidades orgânicas que depois seriam transmitidas por herança. Por outro lado, os neodarwinianos, que se agruparam especialmente em torno do biólogo alemãoWeissmann (1834-1914), insistiam na importância da seleção natural como único princípio da evolução. Ambas essascorrentes, no esforço de demonstrar suas próprias
 
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EVOLUÇÃO
teses, produziram fatos e observações novos em favor da teoria geral da E., mas pode-se dizer quenenhuma delas logrou demonstrar a falsidade das teses da outra. Hoje se sabe que tanto a adaptação aoambiente (tese dos lamarckianos) quanto a seleção natural (tese dos darwinianos) exercem funçõesimportantíssimas na E. da vida e que uma coisa não exclui a outra. Nessa incerteza, inseriram-se as novasformas do
vitalismo
(v.), doutrina que, considerando que a vida não é explicável, em princípio, por fatoresfísico-químicos, reconhece como fundamento dela um princípio espiritual que age de modo finalista. Ovitalismo dá ênfase àquilo que parece ser um dos caracteres fundamentais da E. biológica: o finalismo.Este, que está estreitamente vinculado à doutrina da estrutura substancial do mundo, ou seja, à metafísicaaristotélica, é a parte dessa metafísica que mais resiste à morte. Como já notava Kant, seu campo privilegiado é o dos fenômenos vitais. Esses fenômenos não parecem ocorrer por acaso. Ainda que DeVries tenha observado o súbito e casual surgimento de novas variedades de plantas e tenha assumido essefato como base real da E.
{Teoria das mutações,
1901), sempre pareceu difícil defender o caráter casual earbitrário de todo o processo evolutivo. Foi graças a essa dificuldade que as teorias vitalistas ganharamforça. A mais famosa delas, no mundo contemporâneo, é a de Bergson, que atribui a E. ao
élan vital,
istoé, a uma grande corrente de consciência que é lançada na matéria e tende a dominá-la, tendo mais sucessonuma direção, menos em outra, e progredindo sobretudo nas duas direções fundamentais: do instinto nosartrópodes e da inteligência no homem
(Évol. créatr.,
1907). Mas, mesmo rejeitando a idéia de um planototal previamente disposto ou predeterminado (que, segundo Bergson, seria "um mecanicis-mo àsavessas"), a teoria bergsoniana da E. ainda é finalista e passível das mesmas obje-ções que Bergson faz aovitalismo: assumir como princípio de explicação a ignorância da explicação. Como observou Huxley,atribuir a E. a um
élan vital 
explica a história da vida tanto quanto atribuir o movimento de uma máquinaa vapor a um
élan locomotif 
explica o funcionamento dessa máquina. O recurso a um termo metafísico,que só faz cobrir uma zona de ignorância, mascarando-a como saber e, portanto, afastando oudesencorajando a pesquisa positiva tendente a diminuí-la, tam- bém é evidente nas outras formas de vitalismo contemporâneo. Assim, Driesch recorre à
enteléquia,
velhoconceito aristotélico, à qual atribui a função diretiva na construção do organismo
{Philosophie desOrganischen,
1908-09).Os estudos de
 genética
(v.) encaminharam a teoria da E. para um terreno positivo de pesquisas,transformando-a num quadro que abrange os instrumentos e as possíveis direções da pesquisa biológica eevitando a dogmatização de princípios parcialmente provados, que fora a característica da fase precedente. Os fundamentos da moderna teoria da E. podem ser assim resumidos:1
Q
Separação da idéia de E. da idéia de progresso. E. não é necessariamente progresso, e muito menos progresso unilinear, necessário e constante. Seja qual for o critério escolhido para julgar o curso da E.,ver-se-á que a história da vida oferece exemplos não só de progressos, em relação a esse critério, mastambém de retrocessos e degenerações. Huxley sugeriu como critério objetivo de progresso o dadominação sucessiva de um grupo biológico: critério que levaria a constituir uma sucessão de idades:"Idade dos invertebrados", "Idade dos peixes", "Idade dos anfíbios", "Idade dos répteis", "Idade dosmamíferos" e "Idade do homem" (£.,
The Modern Synthesis,
1942). Mas também essa sucessão de idadestampouco é objetiva, porque obviamente é sugerida pelo critério de aproximação ao homem. Podem ser definidas outras linhas de progresso com base na expansão vital ou na adaptação ao ambiente, critériosque sugerem a organização das espécies animais segundo o grau de sucesso na realização de algumadessas duas coisas. Outro critério que os biólogos utilizam com freqüência é a chamada
lei de Willinston,
segundo a qual "o número de partes de um organismo tende a reduzir-se e sua função tende a especializar-se", ou seja, há uma tendência à simplificação mais do que à complicação. Outros indicam como critério aenergia geral do organismo ou o nível do processo vital (S
EWERTZOFF
,
Mor-phologischeGesetzmassigleeiten der E,
1931). Cada um desses critérios leva a organizar as espécies vivas ou seusmaiores grupos de um modo que coincide apenas parcial e ocasionalmente com a organização resultantedos outros critérios.2
S
Exigência de que os fatores invocados para explicar a E. não só expliquem o que ocorre segundo um plano na organização da vida, mas
of 00

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