das carreiras inacessíveis a quem não passou pelas formalidades prescritas.Por outro lado, há ensinos obviamente desprovidos de qual quer valor formador e que continuam a impor-se sem se saber ao menos se eles chegam a atingir ou não a função utilitária que se objetiva. Por exemplo,admite-se comumente ser necessário, para viver socialmente, conhecer ortografia (sem discutir se nestecaso há significação racional ou meramente tradicionalista de uma tal obrigação). Mas o que se ignoraplenamente, e de maneira decisiva, é se o ensino especializado da ortografia favorece essa aprendizagem,se permanece indiferente ou se se torna ás vezes nocivo. Certas experiências têm mostrado que osregistros automáticos realizados pela memória visual alcançam o mesmo resultado que as liçõessistemáticas. Assim é que em dois grupos de alunos, um dos quais seguiu, e o outro não, o ensino daortografia, as notas de ambos foram equivalentes. A experiência tentada deste modo permanece, semdúvida, insuficiente, por carecer da amplitude e das variações necessárias. Mas é inacreditável que umterreno de tal modo acessível à experimentação, e onde se encontram em conflito os interessesdivergentes da gramática tradicional e da lingüística contemporânea, a pedagogia não organizeexperiências contínuas e metódicas, contentando-se apenas em resolver os problemas por meio deopiniões, cujo "bom senso" encerra realmente 'mais afetividade do que razões efetivas.De fato, para se julgar do rendimento dos métodos escolares dispõe-se tão-somente dos resultados dasprovas finais nas escolas e, em parte, de alguns exames de concursos. Ocorre aí, portanto,simultaneamente uma petição de princípio e um círculo vicioso.Primeiramente, uma petição de princípio em razão de se postular que o êxito nos exames constitui umaprova de aquisição durável, muito embora o problema, de modo algum re solvido, consista, ao contrário, emestabelecer o que permanece,15após alguns anos, dos conhecimentos testados graças aos exames em que se teve êxito e, ademais, emque consiste aquilo que subsiste independentemente do detalhe dos conhecimentos esquecidos. Sobreestes dois primeiros aspectos quase nada sabemos até hoje.Em seguida, um círculo vicioso, o que é bastante grave, por se querer julgar do valor do ensino escolar peloêxito nas provas finais, embora sabendo que grande parte do trabalho escolar se acha influenciada pelaperspectiva dos exames, e que, segundo os espíritos argutos, se encontra gravemente deformada peladominância de tal preocupação. Daí concluir-se que, apesar da honestidade dos pais e sobretudo dosalunos, e da objetividade científica, a questão prévia de um tal estudo pedagógico de rendimento escolarestá em se comparar os resultados de escolas sem exames, onde o valor do aluno é julgado pelos mestresem função do trabalho realizado durante todo o ano escolar, com os das escolas ordinárias, onde aperspectiva dos exames falseia, ao mesmo tempo, o trabalho dos alunos e dos próprios mestres. Nestecaso, responder-se-á que os mestres nem sempre são imparciais, e que as possíveis parcialidades locaiscausarão mais prejuízos do que a parte aleatória e o bloqueio afetivo que intervêm em todos os exames.Uma outra resposta é que os alunos não são cobaias a utilizar em experiências pedagógicas. Mas, por suavez, as diferentes decisões ou reorganizações administrativas não realizam também experiências? Só que,diferentemente das experiências científicas,' aquelas não comportam qualquer controle sistemático. Poder-se-á ainda responder que os exames, por sua vez, podem englobar uma utilidade formadora etc. Mas entãoé o caso de - sem se levar demasiado em conta as opiniões por mais autorizadas que sejam, isto é, a dos"peritos", visto serem múltiplas e contraditórias - se verificar por meio de experiências objetivas.Pois, sobre todas essas questões fundamentais e outras mais, a pedagogia experimental - que existe e jáforneceu grande16número de trabalhos de valor - permanece ainda muda e prova portanto, a terrível desproporção quecontinua a subsistir entre a amplitude ou importância dos problemas e os meios que se pode utilizar pararesolvê-los. Quando o médico utiliza uma terapêutica, intervém igualmente certa parte de empirismo, e empresença de um caso particular, não se está absolutamente certo se o que levou à cura foram os remédiosempregados ou se a vis medicatrix naturae agiu por si mesma. Entretanto, existe um acervo considerávelde pesquisas farmacológicas e outras mais que, juntando-se ao progresso dos conhecimentos fisiológicos,fornece uma base mais ou menos segura para as intuições clínicas. Como se explica, então, que no campoda pedagogia, onde o futuro das gerações ascendentes está em causa num grau pelo menos igual aoexistente no campo da saúde, as pesquisas de base permaneçam tão pobres como indicam algunsexemplos menores?O corpo docente e a pesquisa.
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