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Capitalismo e Liberdade
Milton Friedman
 Introdução Há uma frase muito citada do discurso de posse do Presidente Kennedy: "Não pergunte o que sua pátria pode fazer por você - pergunte o que você pode fazer por sua pátria". Constitui uma claraindicação da atitude dos tempos que correm, que a controvérsia sobre esta frase se tenha focalizadosobre sua origem, e não sobre seu conteúdo. Nenhuma das duas metades da declaração expressauma relação entre cidadãos e seu governo que seja digna dos ideais de homens livres numasociedade livre. A frase paternalista "o que sua pátria pode fazer por você" implica que o governo éo protetor, e o cidadão, o tutelado - uma visão que contraria a crença do homem livre em sua própria responsabilidade com relação a seu próprio destino. A frase organicista "o que você podefazer por sua pátria" implica que o governo é o senhor ou a deidade, e o cidadão, o servo ou oadorador. Para o homem livre, a pátria é o conjunto de indivíduos que a compõem, e não algo acimae além deles. O indivíduo tem orgulho de sua herança comum e mantém lealdade a uma tradiçãocomum. Mas considera o governo como um meio, um instrumento - nem um distribuidor de favorese doações nem um senhor ou um deus para ser cegamente servido e idolatrado. Não reconhecequalquer objetivo nacional senão o conjunto de objetivos a que os cidadãos servem separadamente. Não reconhece nenhum propósito nacional a não ser o conjunto de propósitos pêlos quais oscidadãos lutam separadamente. O homem livre não perguntará o que sua pátria pode fazer por ele ou o que pode ele fazer por sua pátria. Perguntará de preferência: "o que eu e meus compatriotas podemos fazer por meio dogoverno" para ajudar cada um de nós a tomar suas responsabilidades, a alcançar nossos propósitos eobjetivos diversos e, acima de tudo, a proteger nossa liberdade? E acrescentará outra pergunta aesta: "o que devemos fazer para impedir que o governo, que criamos, se torne um Frankenstein evenha a destruir justamente a liberdade para cuja proteção nós o estabelecemos?" A liberdade é uma planta rara e delicada. Nossas próprias observações indicam, e a história confirma, que a grandeameaça ã liberdade está constituída pela concentração do poder. O governo é necessário para preservar nossa liberdade, é um instrumento por meio do qual podemos exercer nossa liberdade;entretanto, pelo fato de concentrar poder em mãos políticas, ele é também uma ameaça à liberdade.Mesmo se os homens que controlam esse poder estejam, inicialmente, repletos de boa vontade emesmo que não venham a ser corrompidos pelo poder, este formará e atrairá homens de tiposdiferentes. Como nos podemos beneficiar das vantagens de ter um governo e, ao mesmo tempo, evitar aameaça à liberdade? Dois grandes princípios apresentados em nossa Constituição nos dão a respostaque foi capaz de preservar nossa liberdade até agora - embora tenham sido violados, repetidamente
 
na prática, enquanto proclamados como preceitos. Primeiro, o objetivo do governo deve ser limitado. Sua principal função deve ser a de proteger nossa liberdade contra os inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas; preservar a lei ea ordem; reforçar os contratos privados; promover mercados competitivos. Além desta função principal, o governo pode, algumas vezes, nos levar a fazer em conjunto o que seria mais difícil oudispendioso fazer separadamente. Entretanto, qualquer ação do governo nesse sentido representaum perigo. Nós não devemos nem podemos evitar usar o governo nesse sentido. Mas é preciso queexista uma boa e clara quantidade de vantagens, antes que o façamos. E contando principalmentecom a cooperação voluntária e a empresa privada, tanto nas atividades econômicas quanto emoutras, que podemos constituir o setor privado em limite para o poder do governo e uma proteçãoefetiva à nossa liberdade de palavra, de religião e de pensamento. O segundo grande princípio reza que o poder do governo deve ser distribuído. Se o governo deveexercer poder, é melhor que seja no condado do que no estado; e melhor no estado do que emWashington. Se eu não gostar do que a minha comunidade faz em termos de organização escolar ouhabitacional, posso mudar para outra e, embora muito poucos possam tomar esta iniciativa, a possibilidade como tal já constitui um controle. Se não gostar do que faz o meu estado, possomudar-me para outro. Se não gostar do que Washington impõe, tenho muito poucas alternativasneste mundo de nações ciumentas. A grande dificuldade de evitar o fortalecimento do Governo Federal é. sem dúvida alguma, aatração da centralização para muitos de seus proponentes. Isto lhes permitirá, acham eles, legislar de modo mais efetivo determinados programas que - é assim que imaginam - são do interesse do público, quer se trate de transferência da renda do rico para o pobre ou de objetivos privados para osgovernamentais. Eles têm razão num sentido. Mas a moeda tem duas faces. O poder para fazer coisas certas é também poder para fazer coisas erradas; os que controlam o poder hoje podem não ser os mesmos de amanhã; e, ainda mais importante, o que um indivíduo considera bom pode ser considerado mau por outro. A grande tragédia do entusiasmo pela centralização, bem como doentusiasmo pela expansão dos objetivos do governo em geral, é que envolve homens de boa vontadeque serão os primeiros a sofrer suas conseqüências negativas. A preservação da liberdade é a principal razão para a limitação e descentralização do poder dogoverno. Mas há também uma razão construtiva. Os grandes avanços da civilização - quer naarquitetura ou na pintura, quer na ciência ou na literatura, quer na indústria ou na agricultura -nunca vieram de governos centralizados. Colombo não resolveu tentar uma nova rota para a Chinaem conseqüência de uma resolução da maioria de um parlamento, embora tenha sido financiado em parte por um monarca absoluto. Newton e Leibniz; Einstein e Bohr; Shakespeare, Milton ePasternak; Whitney, McCornick, Edison e Ford; Jane Adams, Florence Nightingale e AlbertSchweitzer; nenhum deles abriu novas fronteiras para o conhecimento ou a compreensão humana,na literatura, na técnica, no cuidado com o sofrimento humano, em resposta a diretivas
 
governamentais. Seus feitos constituíram o produto de seu gênio individual, de um ponto de vistaminoritário corajosamente mantido, de um clima social que permitia a variedade e a diversidade. O governo não poderá jamais imitar a variedade e a diversidade da ação humana. A qualquer momento, por meio da imposição de padrões uniformes de habitação, nutrição ou vestuário, ogoverno poderá sem dúvida alguma melhorar o nível de vida de muitos indivíduos; por meio daimposição de padrões uniformes de organização escolar, construção de estradas ou assistênciasanitária, o governo central poderá sem dúvida alguma melhorar o nível de desempenho eminúmeras áreas locais, e, talvez, na maior parte das comunidades. Mas, durante o processo, ogoverno substituirá progresso por estagnação e colocará a mediocridade uniforme em lugar davariedade essencial para a experimentação que pode trazer os atrasados do amanhã por cima damédia de hoje. Este livro discute algumas dessas importantes questões. Seu tema principal é o papel do capitalismocompetitivo - a organização da maior parte da atividade econômica por meio da empresa privadaoperando num mercado livre - como um sistema de liberdade econômica e condição necessária àliberdade política. Seu tema secundário é o papel que o governo deve desempenhar numa sociedadededicada à liberdade e contando principal mente com o mercado para organizar sua atividadeeconômica. Os primeiros dois capítulos tratam dessas questões de modo abstrato, mais em termos de princípiodo 'que de aplicações concretas. Os capítulos seguintes aplicam esses princípios a um bom númerode problemas particulares. Uma discussão abstrata pode às vezes ser completa e exaustiva, mas este ideal não foi de formaalguma alcançado nos dois primeiros capítulos que se seguem. Também a aplicação dos princípiosnão é completa. Cada dia traz novos problemas e circunstâncias novas. É por isso que o papel doEstado não pode ser nunca estabelecido de uma vez por todas em termos de funções específicas. Étambém por isso que devemos reexaminar de tempos em tempos o significado do que consideramos princípios inalteráveis para os problemas do momento. Como produto secundário do exame,teremos uma retestagem dos princípios e uma melhor compreensão dos mesmos. É extremamente conveniente dispor de uma legenda para os pontos de vista econômicos e políticoselaborados neste livro. O nome correto e próprio é liberalismo. Infelizmente, "como um supremo,embora involuntário^ cumprimento, os inimigos do sistema privado acharam conveniente apropriar-se de tal termo".1 Assim sendo, liberalismo tem, nos Estados Unidos, um significado muitodiferente do que tinha no século XIX, ou tem atualmente na maior parte do continente europeu. Ao desenvolver-se em fins do século XVIII e princípios do século XIX, o movimento intelectualque tomou o nome de liberalismo enfatizava a liberdade como o objetivo último e o indivíduo como
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