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04 Marcelo Rede - Família e Patrimônio Fundiário - Notas Para o Estudo Da Economia Doméstica Na Antiga Mesopotâmia

04 Marcelo Rede - Família e Patrimônio Fundiário - Notas Para o Estudo Da Economia Doméstica Na Antiga Mesopotâmia

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09/14/2012

 
Família e patrimônio fundiário:
notas para o estudo da economiadoméstica na antiga Mesopotâmia
Marcelo Rede
Professor de História Antigada Universidade Federal Fluminense
Resumo
Nos últimos anos, a análise da vida material doméstica revelou-se um dos setores mais dinâmicos e profícuos do estudo da economia da antiga Mesopotâmia. Neste artigo, procuramos fornecer um panoramado debate historiográfico sobre o tema e sugerir algumas direções metodológicas para o aproveitamento dosarquivos familiares na apreciação da economia doméstica.
 Abstract 
In recent years, the study of domestic material life has become as one of the most dynamic andfruitful approaches to ancient Mesopotamia economics. The present article aims to offer a panorama of thehistoriographical debate on the subject and to suggest some methodological directions for the use of familyarchives for considering the domestic economy.
 
História e Economia
Revista Interdisciplinar 
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Família e patrimônio fundiário: notas para o estudo...
ue a interação entre o homeme a natureza seja uma dimensãofundamental da realidade socialé uma evidência bastante clara e bem acei-ta, ao menos na maior parte do tempo, pe-los historiadores. Entretanto, ainda há todoum caminho a ser percorrido para com-preender como, em cada sociedade e emcada época, é estabelecida a relação entreos agentes sociais e o ambiente físico queos cerca. A complexidade reside no fato deque esta relação não se constrói entre umator ativo e um quadro físico pacífico, dadopreviamente. Ao contrário, trata-se de rela-ção construída culturalmente. Deste pontode vista, a natureza não existe como umconjunto de traços prévios à sociedade. É asociedade que, apropriando-se
da
natureza,acaba por modelar
uma
 natureza, historicamentedelimitada no espaço eno tempo. Isto equivalea dizer que não existeum modelo universalou trans-histórico. Comefeito, a idéia de umarelação entre os homense a natureza é bastantesimplista, quase inexata:para ser mais preciso, dever-se-ia falar, an-tes, de relações sociais entre pessoas, tendocomo vetor a natureza
1
. Esta precisão tem,a meu ver, uma dupla vantagem. A primei-ra é enfatizar as relações entretidas peloshomens no processo social: a apropriaçãode segmentos da natureza aparece, assim,como um fenômeno social entre outros,suscetível de ser influenciado pelas demaisesferas e também de influenciá-las; destemodo, a apropriação caracteriza-se peladuração, pela tendência à formalização epela busca de continuidade, como também
Q
pela mudança, pela crise e pela possibili-dade de desaparecer. A segunda vantagemé que ela permite ver a natureza não comoum elemento passivo da equação, mascomo suporte e condutor material pormeio do qual as relações sociais operam.
Apropriação ou propriedade?
Se podemos falar de apropriaçãocomo uma dimensão, é porque ela não seconfunde com a totalidade das relaçõesentre a sociedade e a natureza. Tal como aentendo aqui, a noção de apropriação cor-responde ao conjunto de mecanismos quepermitem o controle de um segmento darealidade física. A apropriação é, portanto,composta de dispositivos que regem as re-lações entre os agentes sociais em função deum acesso, material e imaterial, à natureza.Entre estes dispositivos, encontram-se todasas práticas e regras de aquisição, todos osmeios de impor uma forma física aos váriossegmentos da realidade, toda sorte de em-pregos que aferem um uso social, todos osdispositivos de manutenção e defesa da re-lação, que servem para definir as inclusõese exclusões de acesso, todos os mecanismosde disposição, como a alienação e a trans-missão, todas as operações que conferemum sentido imaginário à coisa apropriada.Assim definida, a noção de apropriaçãoaproxima-se do conceito de propriedadetal como ele é entendido por certos antro-pólogos (mas que não se confunde comuma definição estritamente jurídica, comoveremos). A este propósito, em um longoartigo sobre a apropriação da natureza, M.Godelier escreve:
Designa-se por propriedade umconjunto de regras abstratas que determinam o acesso,o controle, o uso, a transferência e a transmissão
 
dequalquer realidade que possa ser objeto de um
 
interesse”
 A sociedade acaba por modelar uma natureza,historicamente delimitada no espaço e no tempo
1
Ver, a este propósito, Scott (1988, p. 36) e a noção de ‘
tenure
’ em T. Ingold (1986, p. 136): “
tenure is an aspect of relationsbetween persons as subjects (…) tenure engages nature in a system of social relations
”.
 
 Vol. 3 - n. 1 - 2º semestre 2007
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Marcelo Rede
e acrescenta que “o conceito pode aplicar-se a qualquerrealidade tangível ou intangível
2
.A exemplo de todas as ações sociais, aapropriação é composta de práticas e repre-sentações. Uma mentalidade apropriativaé, portanto, uma dimensão indispensáveldo processo de apropriação. Não se trata,porém, de concepções mais ou menosformalizadas que resultam da prática apro-priativa como um simples reflexo mecâni-co, mas, ao contrário, de um conjunto deatitudes mentais, de caráter coletivo, queorienta e faz parte intrinsecamente dasações de controle dos segmentos da nature-za. A apropriação deve ser definida, então,como uma ação que impõe uma formafísica ao mundo, que estabelece as funçõesdos objetos apropriados em uma estruturasocial e que, enfim, cria sentidos para ascoisas materiais em um sistema cultural
3
.Assim, não se pode deixar de reconhecerque uma abordagem do fenômeno só serácompleta com um estudo da mentalidadeapropriativa mesopotâmica
4
.A noção de apropriação não somen-te é mais larga do que a de propriedade,no sentido jurídico, como também per-mite evitar algumas aporias resultantes daaplicação desta última às sociedades quese situam à margem da tradição do direitoromano. Para se limitar ao essencial, asdificuldades de utilização de uma noçãojurídica de propriedade no caso meso-potâmico são duplas. Primeiramente, atendência predominante entre os juristasconfere uma importância excessiva à for-malização: a formulação de um conceitoabstrato e coerente de propriedade, quedefina os direitos de acesso, acaba por sermais importante que o próprio processode apropriação. Esta conceitualizaçãoformal, quando existe em dada socieda-de, é um fenômeno importante e, semdúvida, deve ser levada em consideraçãopelo historiador. Entretanto, do ponto devista da natureza da apropriação, ela ésecundária: historicamente, os modos deacesso ao universo material não tiveramnecessidade de uma formalização para seconstituírem enquanto sistemas institu-cionalizados, socialmente reconhecidose eficazes na definição de condutas decontrole
5
. A segunda dificuldade reside nofato de que uma noção integrada de pro-priedade não é necessariamente opera-cional em todas as socie-dades antigas. O direitoromano, de fato, proce-deu a tal unificação: o
 jus utendi fruendi et abutendi
 supõe uma associação,sob a mesma noção,entre dimensões muitodiversas do processo deapropriação. Em muitassociedades, porém, as capacidades deusar, gozar e dispor de um determinadobem não são forçosamente cumulativas e,sobretudo, não foram fundidas em umamesma categoria jurídica. E isto ocorre,muito simplesmente, porque, na reali-dade social, elas podiam corresponder adireitos divergentes, que não pertenciamà mesma pessoa ou ao mesmo grupo
6
. Se
 A segunda dificuldade reside no fato de que uma noçãointegrada de propriedade nãoé necessariamente operacionalem todas as sociedades antigas
2
M. Godelier (1978, p. 11), reeditado em Godelier (1984); a mesma noção será apresentada pelo autor em seu artigo “Proprietà” da
Enciclopédia Einaudi
, cf. Godelier (1986, p. 367).
3
Para a definição da cultura material a partir do processo de apropriação social, ver U. B. de Meneses (1983).
4
Notemos que isto implicaria uma incursão em domínios muito distantes da história econômica, especialmente nos estudos das mentalidadescoletivas. A este respeito, citemos o artigo seminal, mas imerecidamente esquecido, de Elena Cassin (1952) sobre os símbolos de cessãoimobiliária na Mesopotâmia. Ver, igualmente, M. Malul (1988, sobretudo os capítulos 7 e 8).
5
Por exemplo, a ambigüidade, no pensamento marxista, entre a propriedade como uma relação social de produção e, de outro lado, como umaexpressão legal é derivada, justamente, da influência das formulações do direito romano sobre Marx (cf. CAHAN, 1994-1995).

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