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Africa do Sul

Africa do Sul

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Published by Patricia Fonseca
Reportagem de Patrícia Fonseca (texto) e José Caria (Fotos), publicada na edição especial «Visão África», em Dezembro de 2007, por ocasião da cimeira UE-África, realizada em Lisboa
Reportagem de Patrícia Fonseca (texto) e José Caria (Fotos), publicada na edição especial «Visão África», em Dezembro de 2007, por ocasião da cimeira UE-África, realizada em Lisboa

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11/08/2013

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 África do Sul, o sonhoda nação arco-íris
O processo de reconciliação entre brancose negros inspirou o mundo mas não apagouas injustiças sociais criadas por 46 anosde segregação racial. Viagem ao país de Mandela– onde, 13 anos depois do fim do
apartheid 
,se luta por manter acesa a esperança
 ÁFRICA QUE PERDOA 
 
O processo de reconciliação entre brancose negros inspirou o mundo mas não apagouas injustiças sociais criadas por 46 anosde segregação racial. Viagem ao país de Mandela– onde, 13 anos depois do fim do
apartheid 
,se luta por manter acesa a esperança
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ÁFRICA
 
Jack Mytlovsky é umdos raros brancos quehoje vivem no Soweto- o gueto negro deJoanesburgo, símboloda resistência ao
apartheid 
. A imagemseria inimaginávelhá apenas 13 anos.Mas Jack foi bemrecebido e já faz parteda família de PassmorSowto (à esquerda),com quem partilhaa casa
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 ÁFRICA QUE PERDOA 
emitério de Mamelodi, arre-dores de Pretória. Há campas a perder de vista, uma autêntica metrópole de mágoapetrificada. Lizzie Sefolo vai dando ins-truções ao condutor: «Vire à direita, agorapela esquerda…» Segue-se de carro pelasruas alcatroadas que dividem os talhões,pois há que percorrer vários quilómetrosdesde a entrada até à sepultura que se busca. «A zona dos heróis fica ali ao fun-do», indica, com a voz encolhida de dor.Os «heróis» são as vítimas do
apartheid
,milhares de homens assassinados pelasforças policiais do Governo segregacionis-ta (1948-1994), por ousarem sonhar com aigualdade.Lizzie Sefolo abeira-se de uma campano passo vagaroso que os seus 65 anos im-põem, agarra num pedaço da terra e cospe--lhe em cima. É um sinal de respeito pelaalma de quem ali foi sepultado. «O meumarido foi morto em 1987, com mais trêshomens», explica, apontando para outrascampas. Na pedra tumular, onde, por baixodo nome de Harold Sefolo, estão gravadasas datas do seu nascimento e da sua morte,falta uma outra, determinante para contara sua história: 1 de Abril de 2007. Foi nessedia, 20 anos depois de ter sido assassinado,que a família o pôde sepultar. Até então, oseu paradeiro era desconhecido.«Cheguei a procurar feiticeiros mas sóquando fui à Comissão de Verdade e Re-conciliação, em 1997, é que descobri o quetinha acontecido», explicara à VISÃO, ho-ras antes, sentada na sala da sua casa, no bairro pobre de Mamelodi, enquanto aca-rinhava a única imagem que lhe resta domarido – uma fotocópia de má qualidadede uma fotografia há muito perdida.Ouvir a verdade, da boca dos carrascosde Harold, pai dos seus cinco filhos, trou- xe-lhe uma paz inesperada. «Disseram queele resistiu… que lhe enfiaram uma facapelo nariz e, ainda assim, não lhe arran-caram uma palavra. Quando o mataram,cantava o nosso hino à liberdade.» Aceitar a reconciliação, foi mais difícil.«Queria que me dissessem onde o enter-raram, mas nunca o fizeram. Contaramapenas que o tinham metido, com outrostrês corpos, num carro que depois fizeramexplodir, num descampado, longe da cida-de.» Mas quando os homens lhe pediramperdão, em tribunal, não conseguiu virara cara: «De que adianta odiar-vos se o meumarido não volta por causa disso?»Dez anos depois deste penoso confronto,Lizzie recebia a notícia que mais desejava. Alguém tinha entregue às autoridades unsmapas do Ministério da Lei e da Ordem doanterior regime, onde se assinalavam os lo-cais de valas comuns. Três diziam respeitoa Mamelodi e Harold poderia estar numadelas. Após semanas de escavações e tes-tes de ADN, chegava a confirmação. «Foimuito importante enterrá-lo, era uma tor-tura não saber o que lhe tinha acontecido– como ainda sucede com tanta gente, quetem os seus familiares desaparecidos»,lembra. Antes de abandonar o cemitério,passa a mão pela lápide, como quem acari-cia um rosto querido: «Pelo menos, agorasei onde ele está.»
‘DIZEM QUE UM JUIZ NÃO CHORA…’
Lizzie Sefolo é apenas uma das 22 mil ví-timas chamadas à Comissão de Verdade eReconciliação (CVR), entre 1996 e 2003. Aí ouviram, de viva voz, a versão dos homensque mataram e torturaram milhares depessoas, em nome do
apartheid
. Todos fa-laram livremente, porque lhes era prome-tida, em troca da verdade, uma amnistiados actos cometidos. Esta Comissão, umaespécie de tribunal criado para apurar res-ponsabilidades pelos crimes do regime se-gregacionista, foi presidida pelo arcebispoanglicano Desmond Tutu, Prémio Nobelda Paz em 1984, que aceitou a missão con-fiada por Nelson Mandela, para promovero perdão entre os sul-africanos – «Para quepossamos construir juntos este sonho deuma nação arco-íris.»Era uma tarefa complexa «e ele desem-penhou-a exemplarmente», elogia AlbieSachs, 72 anos, o magistrado que desenhoua Constituição da África do Sul. «Dizemque um juiz não chora… mas as lágrimasescorriam pela cara de Tutu enquanto ou- via aquelas histórias terríveis», recorda. As primeiras frases que Sachs escreveuna Constituição apelam também à recon-ciliação: «Nós, o povo da África do Sul,reconhecemos as injustiças do nosso pas-sado; [Pretendemos] curar as divisões eestabelecer uma sociedade baseada em va-lores democráticos, justiça social e direi-tos humanos fundamentais; Acreditamosque a África do Sul pertence a todos os que vivem nela, unidos na nossa diversidadeO juiz foi um dos raros brancos que sesentou na CVR no lugar destinado às víti-mas. A cor da pele não o fez simpatizantedo regime e, desde muito jovem, aindaadvogado, fazia frente ao poder, defenden-do em tribunal os negros discriminados. Acabou detido várias vezes, foi torturadoe depois enclausurado durante 168 dias natemível «solitária».Em 1966, fugiu do país. Primeiro paraInglaterra, depois para Moçambique,onde viveu 11 anos. Por isso, sabe falar por-tuguês. «Sinto-me outra pessoa quandofalo a vossa língua, traz-me à memória ostempos do 25 de Abril e da independênciade Moçambique. Para mim, tornou-se nalíngua da liberdade…», diz, sentado numsofá do seu amplo gabinete do Tribunal
Disseram que ele resistiu... que lhe enfiaram umafaca pelo nariz e, ainda assim, não lhe arrancaramuma palavra. Morreu a cantar o hino à liberdade’
Lizzie Sefolo,
 
lembrando o testemunho dos assassinos do marido na Comissão de Reconciliação
POR
PATRÍCIA FONSECA
TEXTO
E JOSÉ CARIA
FOTOS
• ENVIADOS ESPECIAIS
 
POR
PATRÍCIA FONSECA
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E JOSÉ CARIA
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• ENVIADOS ESPECIAIS
 
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ÁFRICA

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