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OCirculoDeVienaEOSeuProjecto

OCirculoDeVienaEOSeuProjecto

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Em José Luís Brandão da Luz,
 Introdução à Epistemologia. Conhecimento,Verdade e História
, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Colecção EstudosGerais. Série Universitária, 2002, pp. 149-158.
1.
 
A
FORMAÇÃO DO
C
ÍRCULO DE
V
IENA E O SEU PROJECTO
 A epistemologia não pode hoje ser compreendida sem uma referência aoneopositivismo, que se constituiu em torno do designado «Círculo de Viena» e dairradiação que ulteriormente conheceu. A sua origem remonta a 1925, quando MoritzSchlick começou a reunir à sua volta um conjunto muito diversificado depersonalidades, com formação em diferentes áreas, tais como filósofos, matemáticos,lógicos, físicos, além de representantes das ciências sociais. Em comum tinham oprojecto de desenvolver uma nova filosofia da ciência, independente de quaisquerenvolvimentos de ordem metafísica, mas com base na análise da estrutura lógica dalinguagem.A nova filosofia da ciência constitui-se como reacção ao idealismo das filosofiaspós-kantianas e na sequência da erosão que a teoria da relatividade e a física quânticaforam provocando nas concepções tradicionais da filosofia, nomeadamente nas noçõesde matéria, causalidade, etc. Toma uma orientação positiva, sem no entanto se confundircom a prática das diferentes disciplinas, e o seu projecto tem em vista a clarificação dodiscurso científico, de modo que se possa exprimir segundo condições de verdade.A tarefa da filosofia circunscreve-se à análise do conhecimento científico, a fim depôr em evidência, não só os princípios nucleares da articulação dum discursoconsequente e inequívoco, mas também o suporte empírico que lhe confere significado.Assim, por um lado, procura estabelecer as bases da linguagem unificada de todo oconhecimento científico, o que lhe confere uma dimensão analítica, e, por outro lado,propõe ligar todos os enunciados a dados observáveis, colhidos na experiência, o quecorresponde à sua dimensão empírica.Schlick nasceu em 1882, em Berlim, cidade em cuja universidade apresentou, aos 24anos de idade e sob a orientação de Max Planck, tese de doutoramento em Física. Em
 
1922 é chamado pela Universidade de Viena para ocupar a cátedra de Filosofia dasCiências Indutivas, que havia sido criada em 1895 por Ernst Mach, que nela semantivera durante seis anos, até ter sido obrigado a afastar-se, por motivos de saúde.Ludwig Boltzmann, ao suceder-lhe no lugar, alterou a designação da cadeira para FísicaTeórica e Filosofia Natural, assinalando assim o seu desacordo com a filosofia da físicado seu antecessor. Coube a Schlick restaurar o título que fora estabelecido por Mach,evidenciando desta forma a sua linha de orientação e o alinhamento pelo físico dePraga.O conhecimento científico, para Mach, não se compreende a partir duma estrutura denatureza
a priori
, nem contempla qualquer propósito substancialista de conhecer aessência ou natureza das coisas. O mundo exterior não é diferente da sua percepção, oque reflecte a influência dum ponto de vista gnoseológico que se inspira em Berkeley,para quem não faz sentido falar, à maneira kantiana, duma realidade em si, para alémdos fenómenos. As sensações são a única via de acesso ao mundo e os problemasepistemológicos que se levantam limitam-se a esclarecer como elas se ligam entre sipara lhe dar expressão. Afastando as concepções filosóficas que se apresentamdesajustadas dos percursos que efectivamente toda a pesquisa empreende, Mach incide asua análise nos métodos que permitem a aquisição e o crescimento dos conhecimentos,ou seja, propõe-se «examinar as vias pelas quais o conhecimento progride»
1
.As sensações são os elementos constituintes dos fenómenos psíquicos, na medida emque «toda a vida intelectual parte das sensações para regressar a elas»
2
. Para além dassensações, que resultam duma reacção directa dos órgãos dos sentidos do nosso corpoface aos factos sensíveis, há ainda a considerar as representações e os conceitoscientíficos. As primeiras constituem complexos de sensações que se associam entre si eexplicam por que razão, perante as mesmas situações, as pessoas têm percepçõesdiferentes. Partilham da mesma natureza das sensações, apenas se distinguem delas«pela sua força mais reduzida, pela sua fugacidade e maior variabilidade, e pela formacomo se ligam umas às outras (associação)»
3
. As sensações não se compreendemisoladamente, mas a partir de outras anteriores, que se conservam na memória(representações) e que podem interferir de forma indirecta em cada sensação. Osconceitos científicos são representações organizadas, com origem na combinação de
1
Ernst Mach,
 La connaissance et l’erreur 
, p. 10.
2
 
 Ibidem
, p. 154.
3
 
 Ibidem
, pp. 34-35.
 
sensações. A sua função é conduzir o pensamento abstracto às representações sensíveisque se mostram de acordo com as sensações correspondentes.Mach compreende o papel de cada uma destas instâncias por meio duma analogiacom a construção dum edifício, em que as representações sensíveis equivalem aotrabalho dos operários e os conceitos às funções desempenhadas pelos encarregados daobra ou pelos engenheiros: «se as operações são simples, a inteligência dirige-seimediatamente aos operários, mas para os empreendimentos mais complexos, ela dirige--se aos engenheiros directores, que lhe seriam inúteis, se ela não tivesse tido o cuidadoprévio de contratar operários»
4
. A diferença entre uma representação sensível e umconceito poderá ser avaliada pela distância que se poderá experimentar entre a acçãodirecta que um objecto ou situação exerce em nós e a evocação da ideia que permitepensá-lo. Assim, a representação do calor ou do frio, da dor ou do prazer, da alegria ouda tristeza que sentimos sob o efeito das situações que nos provocam estas experiênciasé mais forte e imediata do que os simples conceitos com que as pensamos. O mesmo sepode aferir a partir da forma diferenciada como reagimos aos apelos dum indigente quenos interpela pessoalmente ou dum anúncio público de solidariedade. A intensidade doprimeiro e a impessoalidade do segundo explicam por que «nunca recusamos umaesmola a um infeliz que encontramos pessoalmente, enquanto que um pedido de auxílioanunciado num jornal permanece muitas vezes sem resposta»
5
.Muito embora os nossos conhecimentos possam ter origem numa indução eencontrem no procedimento dedutivo ou na formulação de hipóteses um meio de tornarexplicável a realidade, não poderemos considerar a indução como fonte doconhecimento científico. Adoptar esta perspectiva seria limitá-lo à tarefa de classificar ereunir os factos individuais sob uma noção comum já conhecida, esquecendo que atarefa principal é encontrar as relações matemáticas que permitem a previsão dosfenómenos. Ora estas não se obtêm necessariamente por meio dum processo indutivo,assente em sucessivas observações, mas revestem um carácter convencional, podendomesmo ser sugeridas a partir do exame dum simples facto singular.A forma engenhosa como Stuart Mill traçou os percursos a que deverão obedecer osprocedimentos indutivos, ao exigir o conhecimento prévio da causa do fenómeno que sepretende explicar, não permite nenhuma descoberta nova. Para Mach, é suficiente que ahipótese não seja contrariada pelos factos, pois o seu papel essencial é «conduzir-nos a
4
 
 Ibidem
, p. 154.
5
 
 Ibidem
, p. 155.

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