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Dossie Keynes BrettonWoods

Dossie Keynes BrettonWoods

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09/15/2013

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C
ONFERÊNCIA
 
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44
1
Menos de um mês depois do Dia D, em junho de 1944, a confiança do Reino Unido e dos EUA em sua vitória na SegundaGuerra Mundial era completa. Tanto que eles não vacilaram em dar início, no dia 1º de julho, à conferência de BrettonWoods, convocada para ordenar a vida econômica e financeira do mundo após a derrota do eixo Alemanha-Itália-Japão.O nome formal era Conferência Financeira e Monetária das Nações Unidas. Economistas representando 44 países,inclusive a URSS, se reuniram por 21 dias no até hoje luxuoso Mount Washington Hotel, em New Hampshire, NovaInglaterra (costa leste dos EUA). Eles conceberam, sob a liderança do britânico John Maynard Keynes, um sistemacambial atrelado ao dólar, que por sua vez se fixaria no ouro, visando dar estabilidade à economia mundial. Resolveramtambém criar duas instituições: o Banco Mundial (sob o nome formal de Banco Internacional para Reconstrução eDesenvolvimento, ou Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao Bird, que começou a operar em junho de 1946,caberia financiar projetos para o desenvolvimento dos países-membros. Ao FMI, manter estável o sistema cambial pelofinanciamento de dívidas de curto prazo nos pagamentos internacionais. Apesar do domínio intelectual de Keynes sobrea conferência, ela representou uma completa vitória política dos EUA. Keynes se opôs à idéia de que as sedes do Bird edo FMI ficassem em Washington. Ele as queria "a uma distância segura da política do Congresso e dos cochichosnacionalistas das embaixadas". Sugeriu que as instituições se sediassem fora dos EUA ou, pelo menos, em Nova York.Mas as duas ficaram a menos de três quadras da Casa Branca. Se o "consenso de Bretton Woods" foi uma criação norte-americana, ele acabaria destruído pelos EUA, em 1971, quando o presidente Richard Nixon, pressionado pela inflaçãodecorrente da Guerra do Vietnã, desvinculou o valor do dólar do padrão-ouro. A partir dali, todas as moedas passaram aflutuar no mercado internacional e, embora os países desenvolvidos por vezes intervenham no mercado em conjuntopara resolver situações de crise, a estabilidade imaginada em Bretton Woods terminou para sempre. O Bird e o FMImantêm muito poder e prestígio no mundo. Mas suas funções agora são diferentes das estabelecidas há 50 anos. Depoisde ter ajudado a reconstruir a Europa (como o R da sua sigla exigia), o Banco passou a se dedicar quase que comexclusividade a financiar e aconselhar os países do Terceiro Mundo. Nos últimos anos, depois de ter sofrido muitasacusações de priorizar o progresso material às custas da qualidade ambiental, o Bird tem dedicado atenção cada vezmaior ao que se chama de "desenvolvimento sustentado". Quanto ao FMI, depois de encerrada a fase de estabilidadecambial que ele deveria supervisionar, passou a prestar assistência (criticada por muitos) a países em dificuldadesfinanceiras, primeiro na América Latina e agora na Europa oriental, para que eles possam estabilizar suas economias. Seas principais concepções de Bretton Woods se desvaneceram com o tempo, um projeto dos seus participantes que naépoca parecia inalcançável se realizou com o fim da Guerra Fria. Atualmente, 177 países -praticamente todos, inclusiveos que há 50 anos optavam pelo modo de produção socialista- estão filiados ao Bird e ao FMI. O sistema econômicomundial finalmente se tornou mundial.
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EUNIÃO
 
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FIM
 
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O sistema monetário mundial que emergiu do encontro de três semanas de mais de 700 delegados de 44 países,no Mount Washington Hotel, em Bretton Woods, no Estado de New Hampshire (EUA), sobreviveu enquanto durou ahegemonia política, militar e econômica absoluta dos Estados Unidos. De grande vencedor da 2ª Guerra Mundial, capazde impor seu poder e sua moeda sobre o ouro e torná-la a grande divisa dos negócios internacionais, os EUA, quedominaram a cena em Bretton Woods, foram os primeiros a demolir o acordo 27 anos depois. No dia 15 de agosto de1971, o presidente Richard Nixon, após reunir-se com seus assessores na residência de repouso de Camp David,anunciou que suspendera a conversibilidade do dólar em ouro -sobre a qual repousara a época de maior expansão e bem-estar da história do capitalismo. Rondando as decisões de Camp David estavam inflação em alta, os estragospolíticos e econômicos causados pela guerra no Vietnã, greves, a perda violenta de competitividade do parque industrialamericano, um crônico déficit público e o primeiro déficit comercial do país desde 1893. Terminara a era em que os EUApodiam ser "a vaca leiteira de todo o mundo".N
OVA
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 Presidida pelo mais influente economista do século 20, o britânico John Maynard Keynes, a conferência de BrettonWoods pretendia terminar com a "era da mendicância", segundo palavras do próprio Keynes -a sucessão desastrosa deguerras comerciais, protecionismo, desemprego, hiperinflações e miséria nas décadas de 20 e de 30. Na platéia daquelaque foi a maior reunião econômica mundial estavam os futuros ministros dos governos militares brasileiros RobertoCampos e Octavio Gouvêa de Bulhões, o economista Eugenio Gudin e o ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, Arturde Souza Costa. O Brasil foi signatário do acordo do qual nasceram, em abril de 1946, o Fundo Monetário Internacional eo Banco Mundial. A União Soviética também assinou o acordo, mas jamais o ratificou. As estrelas de Bretton Woodsforam Keynes, que combinava suas posições inovadoras com os interesses do falido império britânico, e um talentosoassessor do Tesouro americano, Harry Dexter White. Divergiram em pontos fundamentais e, no acordo final, prevaleceu
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Carlos Eduardo Lins Da Silva. Publicado na Folha de S. Paulo em 17 de julho de 1994.
2
José Roberto Campos. Publicado na Folha de S. Paulo em 17 de julho de 1994.
 
a posição americana. Do esboço de Keynes saíram várias idéias básicas. Primeiro, sepultar o ouro como garantianecessária do comércio internacional. A "relíquia bárbara", como chamava o padrão-ouro, havia sido parcialmenteresponsável pelas crises de inflação e desemprego que devastaram o continente europeu no período entreguerras. Oraciocínio era que ao só emitirem suas moedas em função da quantidade de ouro que possuíam em seus bancos centrais,países que se vissem diante de um déficit em sua balança comercial (a diferença entre exportações e importações) apenaspoderiam corrigir seus desequilíbrios por meio de um freio nas importações. Ao perder reservas, os governos encolhiamna mesma proporção a quantidade de moeda em circulação ou, o que foi muito freente, desvalorizavamunilateralmente suas divisas. O sistema de correção de uma economia sob o padrão-ouro era tão automático quanto seusefeitos: recessão e desemprego. A arquitetura de Keynes previa uma instituição internacional para regular o fluxoeconômico mundial. Seria criado um fundo com moeda própria, composto por divisas dos países membros, parasocorrer países que tivessem problemas em seus balanços de pagamentos, evitando as atitudes discricionárias do sistemaanterior. Seriam permitidos saques automáticos nas reservas do fundo (para Keynes) para países que apresentassem"desequilíbrios fundamentais" na sua balança de pagamentos. Mas, ao se submeterem à tutela de um organismointernacional, as nações integrantes do acordo se comprometiam a obter aprovação para mudar o valor de sua moeda.Na prática, a manter suas taxas de câmbio fixas. Keynes idealizou um fundo com amplos recursos e amplos poderes. Oque os americanos acabaram fazendo foi bem diferente. Destruíram a idéia de saques automáticos, concordaram comrecursos muito modestos, criaram uma série de exigências para saques e empréstimos e deram ao diretor-executivo deseu próprio país direito de veto. Em 22 de julho de 1944, as principais nações do mundo saíram de Bretton Woods comum sistema dólar-ouro. O dólar seria livremente aceito com o compromisso de ser trocado por uma paridade fixa com oouro -US$ 35 por onça (28,349 gramas). As taxas de troca das moedas nacionais pelo dólar deveriam ser praticamentefixas (a variação permitida foi de 1%, para cima ou para baixo). Os bancos centrais dos países se comprometiam acomprar dólares caso a paridade estabelecida fosse ameaçada. O dólar substituía o ouro e tornava-se a verdadeira moedamundial. P
ÓS
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GUERRA
 
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DOMÍNIO
 
DOS
EUADependência mundial no sistema ouro-dólar superou quadro fixado em Bretton Woods para a reconstrução. O sistemade Bretton Woods era um retrato do mundo ao fim da 2ª Guerra. Europa e Japão estavam devastados. Livres do conflito,temiam a expansão do comunismo e a única potência em condições de empurrar suas economias e barrar a URSS eramos EUA. Após a conferência, o mundo dependia de ouro e dólares. Cerca de 60% das reservas de ouro estavam noscofres do Tesouro dos EUA. Para obter dólares, os demais países dependiam ou de exportações ou de empréstimos. Aprimeira condição não existia porque esses países estavam com suas economias destruídas. A segunda condição foiamplamente suprida pelos EUA, mas não nos quadros do que havia sido estipulado em Bretton Woods. Em julho de1947, George Marshall, secretário do Tesouro dos EUA, lançou o amplo programa de reconstrução da Europa que levariaseu nome. Para terem a quem vender mercadorias, os países precisavam reerguer-se. De 1949 a 1953, os EUAtransferiram em empréstimos e subvenções US$ 33 bilhões. De 1949 a 1952, as instituições criadas em Bretton Woodsenviaram à Europa apenas US$ 3 bilhões. Um dos problemas do recém-criado sistema monetário internacional -naverdade, seu próprio princípio de funcionamento- começava a se tornar claro. Em 1950, o balanço de pagamentos norte-americano -resultado de exportações e movimento de capitais, empréstimos e transferências- apresentou déficit. Saíamdólares mais velozmente dos EUA para a Europa e Japão do que a rapidez de recuperação desses países permitiacontabilizar como vendas norte-americanas e investimentos deles nos EUA. Para acelerar essa recuperação, os EUAtoleravam também uma série de práticas comerciais restritivas. A conclusão é que a recuperação do pós-guerra dependiados déficits norte-americanos -em suma, da capacidade do governo dos EUA de imprimir dólares. Pelas regras deBretton Woods, isso tinha um limite -a capacidade das reservas em ouro dos EUA de garantirem aos bancos centrais deoutros países a conversão, quando eles precisassem, de seus dólares em metal. O alarme tocou no início dos anos 60. Areserva de ouro dos EUA era menor que o volume de dólares em circulação fora do país. Europa e Japão viviam boomsde crescimento, se fechavam a mercadorias dos EUA e viravam concorrentes do antigo tutor. Os EUA também arcavamcom o grosso das despesas da "segurança do mundo livre". Participaram da guerra da Coréia, mantinham tropas nosprincipais pontos de conflitos potenciais e estavam prestes a se envolver na longa e desastrosa aventura do Vietnã. Naseleições presidenciais de 1960, com a chance de o democrata John Kennedy vencer o republicano Richard Nixon, osinvestidores internacionais ensaiaram uma corrida ao ouro, vendendo dólares. Esboçava-se o caminho que levariaNixon, 11 anos depois, a suspender a conversibilidade do dólar.P
ADRÃO
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OURO
 
ACABOU
 
EM
71Richard Nixon surpreendeu o mundo na noite de 15 de agosto de 1971. Pela TV, anunciou pacote de congelamento depreços e salários, restrição a importações e alívio fiscal, ao mesmo tempo em que rompia com os compromissos deBretton Woods, ao suspender a conversibilidade do lar em ouro. Como era seu estilo, combinou apelos aonacionalismo com suspeitas paranóicas de suposta conspiração contra o dólar. "Essa medida não conquistará amigosentre os traficantes de dinheiro." Batizou seu pacote de "Nova Política Econômica" e qualificou-o de o mais importanteconjunto de medidas econômicas desde 1933. Era o sistema monetário do pós-Guerra que desmoronava e Paul
 
Samuelson, prêmio Nobel de Economia, punha a questão em perspectiva. Para ele, empresas e investidoresaproveitaram as taxas de juros mais altas na Europa do que nos EUA e passaram a "batata quente" -dólares- para os BCSeuropeus. Pelo acordo de Bretton Woods, eles deveriam comprá-los, mas não estavam mais dispostos. Após a pancadade Nixon, o sistema monetário viveu de crise em crise. Em dezembro de 1971, um acordo entre os principais paísesdesenvolvidos ampliou a faixa de flutuação cambial para 2,25%. O golpe derradeiro no acordo de Bretton Woods veiocom uma nova desvalorização do dólar frente ao ouro em fevereiro de 1973. A rápida expansão das potênciasdesenvolvidas e seu reagrupamento em grandes e poderosos blocos econômicos tornou-se incompatível com opredomínio americano. A surpreendente e sofisticada expansão dos mercados financeiros, que movimentam grandesquantidades de dinheiro em segundos, reduziu o poder dos governos de intervir para assegurar o valor da moeda. Como fim das taxas de câmbio fixas passou a reinar a possibilidade de caos intermitentes nos mercados. Grandes bancos einvestidores apostam contra várias moedas. A bola da vez é o dólar contra o iene -a moeda americana bate recordes de baixa. Um financista húngaro, George Soros, conseguiu desafiar os britânicos, investir contra a libra e ganhar.
R
OBERTO
C
 AMPOS
 
LEMBRA
 
PARTICIPAÇÃO
 
 AOS
27
 ANOS
3
Dos mais de 700 delegados de 44 países presentes à conferência de Bretton Woods, apenas 7 estão vivos. Umdeles é o brasileiro Roberto Campos, que em outubro será o orador da cerimônia comemorativa dos 50 anos do acordo.Hoje com 77 anos, ele estará voltando pela primeira vez ao lugar que, em sua memória, é "um lindo cenário demontanhas". Boas recordações? Muitas. Mas, no fundo, uma grande tristeza. triste quando penso nisso. morreuquase todo mundo, é melancólico, uma desgraça", queixa-se Campos. Ele tinha 27 anos e, como funcionário daembaixada brasileira em Washington, era secretário da missão brasileira em Bretton Woods. Mas, como entendia deeconomia, acompanhava o chefe da delegação brasileira, Eugene Gudin, às principais reuniões. Esteve assim com o astroda conferência, lorde Keynes -"um sujeito sutil, bom expositor, muito persuasivo", conta Campos. A delegação britânicaera a mais forte em termos intelectuais, embora outros participantes tivessem dela uma opinião algo debochada. Corriauma piada segundo a qual Keynes era inteligente demais para ser consistente; Dennis Robertson, outra estrela, eraconsistente demais para ser inteligente; e Lionel Robbins, o terceiro nome de prestígio, não era nem inteligente nemconsistente. No que se refere a Robbins a piada era injusta, diz Campos. Lembra que Robbins foi o patrocinador edurante muitos anos diretor da importante London Business School, até hoje um centro de excelência no estudo deeconomia.C
ASTIDADE
Incluindo os delegados e o pessoal de apoio, estavam no Grand Hotel de Bretton Woods pouco mais de 300 homens. Naépoca não havia mulheres diplomatas ou economistas. E os casados não podiam levar suas mulheres. O pessoal diziaque essa era a principal estratégia do presidente da conferência, Henry Morgentaun. Campos lembra-se da piadacontada nos corredores do hotel: "Esse judeu sabe que 300 homens juntos, depois de 20 dias sem mulher, vão assinarqualquer coisa". Houve uma única exceção. Lorde Keynes foi autorizado a levar sua mulher, a dançarina LídiaLokopova, "uma loirinha miudinha e saltitante", lembra-se Campos. Foi uma curiosa exceção. Como comentavam osparticipantes da conferência, a exigência de castidade não foi descumprida. Keynes era conhecido homossexual.T
ERCEIRO
M
UNDO
Eugene Gudin era muito respeitado, relata Roberto Campos. O representante brasileiro ganhou o apoio de Keynes para aproposta de criação de uma organização internacional de comércio que cuidasse dos problemas dos países do TerceiroMundo. A conferência de Bretton Woods estava programada para criar duas organizações, o Fundo MonetárioInternacional e o Banco Mundial. O Fundo estaria encarregado de cuidar do balanço de pagamentos dos países e da taxade câmbio. E o Banco Mundial cuidaria da reconstrução e do desenvolvimento no pós-Guerra. Mas os países do TerceiroMundo, todos então com economia de monocultura, tendo, cada um deles, um único produto importante de exportação,precisariam de uma organização específica. Essa instituição deveria tratar de preços desses produtos, quotas deexportação, garantias, subsídios etc. Keynes concordou com a idéia. Mas, na reunião com Gudin, disse que seriaimpossível a façanha de criar três entidades internacionais numa única reunião. Se criar duas já estava difícil... Assim, aorganização de comércio para o Terceiro Mundo ficou para uma outra conferência, realizada em Havana em 1947.Roberto Campos também foi a essa conferência, que lhe traz outra tristeza. "Dessa, só restam dois sobreviventes", conta.Além disso, aquele encontro só deu o resultado esperado por Gudin em dezembro de 1993, com a criação daOrganização Mundial de Comércio. Da conferência de Havana saiu apenas o Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio),que interessava mais aos países desenvolvidos.
 
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Carlos Alberto Sardenberg, Publicado na Folha de S. Paulo em 17 de julho de 1994.

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