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A Moratória - Jorge Andrade

A Moratória - Jorge Andrade

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A Moratória – Jorge Andrade
Moratória: dilatação de prazo concedida pelo credor ao devolver para opagamento de uma dívida.Conforme brilhante resumo de Célia A. N. Passoni da Editora Núcleo, comentaa professora que a peça A Moratória constitui-se em três atos, tendo o cenáriodividido em dois planos. Em um, uma sala espaçosa de uma antiga etradicional fazenda de café; em outro, uma sala modesta mobiliada onde sevê, em primeiro plano, uma máquina de costura. É através desses doiscenários que o autor consegue fazer o presente e o passado próximo. Oespectador, em um mesmo instante, através da mudança de planos, entra emcontato com duas realidades distintas, ligada somente pelas personagens.Para efeito do resultado, a estória será narrada linearmente.Quim [Joaquim] é fazendeiro de café, afeiçoado a terra, mas acaba sendolevado à ruína, por maus negócios. Tem setenta anos e representa o orgulhode um nome, já sem encontrar respaldo entre os cidadãos de uma cidade queestá transformada com a presença de elementos estranhos à casta tradicional.Diz Joaquim: 'Não sei como, minha filha, mas de repente, senti como seestivesse só naquela cidade. Parecia que todas as portas estavam fechadaspara mim. Eu não conhecia mais ninguém. Percebia que atrás das janelastodos me olhavam e... ninguém... ninguém...' Mergulhado em sua solidão,nutrido pela esperança de recuperação, só encontra amparo na família. Amulher Helena é a mais corajosa, soube enfrentar melhor a situação, e a filhaLucília tornou-se o arrimo da família, agora vivendo dos proventos de suacostura, uma vez que o irmão, Marcelo, não se adapta a nenhum emprego.Fora da família estão Olímpio, advogado, filho do rival político de Quim, masapaixonado Poe Lucília. Elvira, irmã de Quim, mulher rica e 'caridosa' queentrega café e outras coisas que vêm da fazenda em troca das costuras 'grátis'da sobrinha. Não tem filhos e vive envolvida com a assistência dada a umasilo. Nesse pequeno universo, as personagens vão sendo colocadas à mercêde um destino cruel. Quim, em torno do qual a história gira, alimenta umaesperança de retornar à fazenda, que foi à praça, para saldar as dívidas. Acrise do café não permitiu a venda, a florada não foi boa; a chuva tardou, ogoverno não fixou um teto mínimo para o café, não há dinheiro. Só resta aesperança de poder recuperar a fazenda, a esperança de uma moratória quetodos sabem não vir.A obra de Jorge Andrade constitui um ato de reflexão sobre a realidadepaulista em seus aspectos sociais, morais e psicológicos. O tema dadecadência dos latifúndios cafeeiro representa o fim de toda uma classepatriarcal e semifeudal de aristocratas sucumbidos à crise econômica de 1929e a nova ordem social imposta por Vargas em 1930. ao mesmo tempo, focalizaem seu interior o conflito de gerações, o conflito de valores tradicionais emuma sociedade que vive a rápida mudança provocada pelo êxodo rural, pelodilatamento das cidades e pelas mudanças das elites. Marcelo é o filhodesesperançado, inadaptado, aquele que vive uma outra realidade que na ado pai, aquele que é capaz de proferir palavras rudes e no entanto,verdadeiras, apontando a terrível realidade: 'O senhor finge não perceber quenão fazemos mais parte de nada, que nosso mundo está irremediavelmentedestruído... As regras para viver são outras, regras que não compreendemosnem aceitamos... tudo agora é diferente, tudo mudou. Só nós é que não.
 
Estamos aqui morrendo lentamente...'Lucília é filha solteirona que vê seu casamento com Olímpio frustrado peloautoritarismo paterno. Não se entrega aos sonhos e às esperanças do pai, queacha poder reaver a fazenda. É ela que, com força e convicção, recupera adignidade da família, costurando furiosamente. É ela que procura lutar pelarealidade bruta, protegendo o pai contra as intempéries:'Se a senhora [Elvira] merecesse respeito, teria tido um pouco de amor porseu irmão, piedade ao menos. Gostaria que tivesse assistido à chegada deles,quando vieram da fazenda. Só aí poderia compreender até que pontosofreram! Com o relógio, os quadros e esse... esse galho de jabuticabeira nasmãos... pareciam duas crianças assustadas, com medo de seremrepreendidas. Através de cada gesto, de cada olhar, havia um pedido deperdão, como se eu... eu pudesse censurá-los em alguma coisa. Egoísta! Asenhora é uma mulher má. Papai é mesmo de boa-fé, tem bom coração, casocontrário teria posto à senhora daqui para fora. O que eles sofreram, você etio Augusto hão de pagar.'Com simplicidade, Jorge Andrade vai chegando ao clímax da peça, a hora darevelação e, conseqüentemente, a hora em que Joaquim se depara com averdade / realidade, que nós, espectadores, conhecemos desde o primeiromomento. É pujante a dor de homem e a ela estamos irmanados pelaindescritível capacidade da arte de fazer o tempo / espaço identificar-se comoutro espaço / tempo do espectador.[Joaquim volta à sala no Segundo Plano e pega o galho da jabuticabeira quehavia esquecido em cima da mesa. Torna a sair, procurando não olhar nada.Depois que Joaquim sai, as luzes do Segundo Plano vão diminuindo pouco apouco até a sala ficar escura.]PRIMEIRO PLANOLucília: [Primeiro Plano] Com certeza, desencontramosHelena: Procurei o Quim e não consegui encontrar.Lucília: Deve estar com o Olímpio.Helena: Fui ao empório onde ele costumava ir, à igreja, a toda parte!Lucília: A senhora não devia andar assim.Helena: Se ele pelo menos não fosse tão violento.Lucília: Precisamos deixar o papai protestar à vontade, e ficar quietas. É umdireito que ele tem. Não pense mais nisto.Helena: [Aflita] Você sabe como é o pai, Lucília! Como não hei de pensar?Lucília: Não vai acontecer nada, mamãe. Acalme-se.Helena: Ele já não tem idade para enfrentar essas coisas.Lucília: Mais uma razão para nos mantermos calmas. [Impaciente] Nãopodemos se descontrolar. Assim ele não sofrerá tanto.[Volta á censura]Helena: [Olhando os objetos em cima da mesa] Não seria melhor guardar tudoisto?Lucília: Por quê? Não foi ele mesmo quem pôs aí?Helena: Foi, mas agora... pode ser que...Lucília: Ele terá que ver um dia; é preferível que veja de uma vez. [Pausa]Helena: Meu Deus! por que é que demoram tanto?!Lucília: Mamãe! Tenha calma.Helena: [Entregando-se ao desespero] Não agüento mais. Não agüento mais,minha filha.
 
Lucília: [Abraça Helena] Não se preocupe. O Olímpio saberá dar a notícia.Helena: [Aflita] Preferia... preferia...Lucília: O quê? Diga, mamãe.Helena: Gostaria que o Olímpio mentisse.Lucília: Não! Chega! Vamos enfrentar de uma vez a realidade.Helena: Tenho medo, Lucília!Lucília: Precisamos aceitar e não pensar mais nisto.Helena: Uma pessoa como seu pai não vive sem esperança. E era a única coisaque lhe restava.Lucília: [Perde a paciência] Mamãe! Não fique pensando nisto, pelo amor deDeus!Helena: Não consigo.Lucília: Papai é um homem forte.Helena: Ele sempre desejou morrer no meio do campo, como o finadoMartiniano, e agora...!Lucília: Onde terá ido? A senhora foi ao ponto das jardineiras? Ele vai lá todosos dias.Helena: Você também tem medo, minha filha?Lucília: [Controla-se] Não. Ele gosta de ver as jardineiras que chegam epartem para as fazendas.Helena: Ele estava lá, mas... [Pára e fica muito excitada]Lucília: [Temerosa] Que foi, mãe?Helena: Chegaram!Lucília: Por favor acalme-se.Helena: Mãe de Deus, rogai por nós!Marcelo: [Voz] sente-se papai. Vou chamar a mamãe.Joaquim: [Voz] Não.[Ouve-se o barulho de algumas coisas que cai no chão. Lucília fica imóvel,tesa, olhando para o corredor. Percebe-se que Helena continua rezando.Joaquim aparece no corredor, pára e fica com os olhos presos em Helena. Fazum gesto como se pedisse desculpa; há nele uma angústia inexprimível.]Lucília: [Amargurada] Papai!Helena: Quim![Joaquim vai até a mesa e encosta-se.]Lucília: Sente-se papai.Helena: Quim, meu velho! Que fizeram com você?Lucília: [Procurando se conter] Papai! [Marcelo e Olímpio aparecem nocorredor]Helena: Sente-se, Quim. Não quer se sentar?Joaquim: [Tentando ser violento] Por que é que todos querem que eu mesente?Helena: Por nada, nada![Joaquim, depois de pegar um trapo na mesa, senta-se, lentamente. Pausalonga. Joaquim começa a desfiar o trapo.]Lucília: [Avança na direção do pai] Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, falealguma coisa. Não fique assim! Não fique assim,pelo amor de Deus!Helena: Lucília!Lucília: É isso mesmo. Proteste. Proteste, papai. O senhor tem direito, nóstemos esse direito. As terras são nossas, sempre foramnossas. Ninguém pode nos tomar. Papai! Ainda há esperança, daremos um

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