Welcome to Scribd. Sign in or start your free trial to enjoy unlimited e-books, audiobooks & documents.Find out more
Download
Standard view
Full view
of .
Look up keyword
Like this
1Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
Jennifer Serra_Iaô

Jennifer Serra_Iaô

Ratings: (0)|Views: 71|Likes:
Published by Jennifer Jane Serra

More info:

Published by: Jennifer Jane Serra on Aug 16, 2012
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/16/2012

pdf

text

original

 
Cinema e Candomblé: a autoria do discurso no filme IaôJennifer Jane Serra
1
ResumoEste texto aborda a relação do Candomblé com a Antropologia através da análise dofilme
 Iaô
, do diretor Geraldo Sarno, que registra o ritual de iniciação de filhas-de-santoem um terreiro de Candomblé. Partindo dos estudos de antropologia visual, o presentetrabalho realiza uma análise do comentário no filme e identifica a existência de duasvozes, a do narrador, fundamentada no conhecimento acadêmico e a dos personagens, baseada na experiência vivenciada.Palavras-chave: Antropologia Visual, Candomblé, Documentário1. IntroduçãoA antropologia visual, seja como cnica de pesquisa, campo de estudo,ferramenta de ensino ou forma de abordagem do conhecimento antropológico, veiooferecer uma alternativa à antropologia escrita. Até a introdão da meracinematográfica como instrumento de pesquisa, a metodologia utilizada para a pesquisaetnográfica era a observação direta, a qual, utilizava a linguagem como sua forma deexpressão. A observação fílmica nasceu como uma nova metodologia de pesquisa que permitiu gravar em um suporte permanente os rastros de uma cultura, ao mesmo tempoque restituía a animação aos corpos, coisas e ações. Claudine de France (1998),retomando o ponto de vista de Marcel Mauss sobre as técnicas do corpo e de AndréLeroi-Gourhan, sobre comportamento técnico, defende que a imagem animadaapreende de forma mais direta e fluida o comportamento técnico, no qual estãoinseridas as técnicas do corpo, materiais e rituais. Esse comportamento técnico setraduz nos gestos, posturas e comportamentos individuais e coletivos, através dos quais
1
 
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Multimeios da UNICAMP.E-mail: janeserra@hotmail.com
1
 
 podemos apreender a cultura de um povo.A possibilidade de capturar o comportamento técnico de maneira mais intensa,o renascimento da tradição oral e a mudança do foco nos povos colonizados, traduzida pela preocupação de dar "voz" a esses povos, contribuíram para o desenvolvimento daantropologia visual. Entretanto, há um significante contraste entre o escrito e o visual,que se dá na interpretação que o leitor tem sobre o conteúdo desses registros. Comoafirma David MacDougall (1998), mesmo que fotógrafos e cineastas possuam ocontrole sobre muitos aspectos da recepção das imagens, através, por exemplo, dacontextualização destas, as imagens parecem ter vida própria e as pessoas respondem aelas de maneiras diferentes. Filmes etnográficos e fotografias seriam considerados perigosos, tanto para os retratados nas imagens como para quem as frui, isso porque, por serem polissêmicas e poderem gerar interpretações às vezes antagônicas, eles sãocompletamente distintos das descrições etnográficas escritas. Para MacDougall, éresponsabilidade do cineasta controlar qualquer potencial erro de interpretação domaterial fílmico e não do espectador em ser um bom intérprete desse material.Através do comentário falado nos filmes etnográficos, o antropólogo-cineastadescreve, decifra e dá sentido àquilo que é visto, elucidando o que há por trás dasimagens, isto é, o seu significado. Mas, além disso, o comentário em filmes de naturezaetnográfica permite também explicitar o tipo de relação estabelecida no encontro docineasta com o “outro”; em outras palavras, com o objeto do filme, e a postura adotada para representá-lo. Quanto à forma de representar um povo ou uma cultura, a escritora ecineasta Trinh T. Minh-ha defende que a postura do cineasta deve ser a de
 falar com
e,não,
 falar sobre
o outro, isto é, deve utilizar uma fala que não trata do outro como umobjeto, como algo distante do enunciador ou ausente do discurso. Uma fala que sereflete nela mesmo, que pertence também a esse outro e que deve materializar-se emtodos os aspectos do filme: verbalmente, musicalmente e visualmente.2. Candomblé e o registro do sagradoO Candomblé surgiu no Brasil a partir da fusão de diferentes crenças africanas, proporcionada por fatores como a concentração de tráfico em determinadas regiões daÁfrica e o intercâmbio linguístico, sexual e religioso entre escravos e ex-escravos nacolônia. Os grupos étnicos, entretanto, mantiveram suas identidades e foram agrupadosem torno das "nações de candomblé" que, segundo Roger Bastide (1978), o2
 
reconhecíveis pelas diferentes tradições (línguas, ritos, gestos) que perpetuam. Para osociólogo, "é possível distinguir essas 'nações' umas das outras pela maneira de tocar otambor (seja com a mão, seja com varetas), pela música, pelo idioma dos cânticos, pelasvestes litúrgicas, algumas vezes pelos nomes das divindades, e enfim por certos traçosdo ritual" (1978: 29).O conhecimento religioso no Candomblé é transmitido através de um sistemahierárquico rígido e a comunicação entre deuses e mortais se processa através da possessão, na qual a própria divindade entra em contato com os crentes através daincorporação mediúnica. Em muitos rituais, faz-se necessário o sacrifício de animais,assim como a utilização de produtos minerais e vegetais, que são carregados de valoressimbólicos. Em todos os ritos, os elementos sonoros são também essenciais, sejam eles produzidos através de toques de instrumentos musicais ou de cantos litúrgicos e oselementos dotados de simbologia se estendem aos alimentos e vestimentas.Entre os membros do Candomblé é possível identificar uma resistência emaceitar publicações de imagens de rituais, a qual pode estar baseada na crítica àrevelação de conhecimentos que são transmitidos de maneira controlada e processual eque repercutem na hierarquia interna dos terreiros e, também, pela perda do controlesobre a veiculação dessas imagens que, em contato com espectadores desinformados edespreparados, poderiam gerar uma profanação do sagrado ali representado e aumentar o preconceito com o Candomblé, especialmente por causa do sacrifício de animais.Em entrevista à pesquisadora Eliane Coster (2008), o professor ReginaldoPrandi explica porque filmar ou fotografar está em desencontro com o sistemareligioso sobre o qual se fundamenta o Candomblé:"O Candombé uma religião inictica e o acesso aos ritos écumulativo, ele vai aumentando na medida em que o processo iniciáticose aprofunda. Então mesmo que se possa pensar nos ritos não públicos,não é todo o mundo que é do Candomblé que pode assistir e participar... Na medida em que você vai subindo certos degraus, isso significa quevocê vai se submetendo a maiores exigências de todos os tipos, você vaiganhando privilégios. E o privilégio que você ganha de forma crescenteé o acesso ao conhecimento religioso, ou seja, o acesso aos ritos,aumentando a sua participação" (PRANDI In COSTER, 2008: 69)3

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->