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59765202-Dois-Irmaos-Milton-Hatoum - Cópia

59765202-Dois-Irmaos-Milton-Hatoum - Cópia

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Categories:Topics, Art & Design
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08/19/2012

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 Dois irmãos - MILTON HATOUMA casa foi vendida com todas as lembrançastodos os móveis todos os pesadelostodos os pecados cometidos ou em vias de cometera casa foi vendida com seu bater de portascom seu vento encanado sua vista do mundoseus imponderáveis [...]Carlos Drummond de AndradeZana teve de deixar tudo: o bairro partuário de Ma-naus, a rua em declive sombreada por mangueiras cente-nârias, o lugar que para ela era quase tão vital quanto a Bi-blos de sua infãncia: a pequena cïdade no Líbano que elarecordava em voz alta, vagando pelos aposentos empoei-rados até se perder no quintal, onde a copa da velha serin-gueira sombreava as palmeiras e o pomar cultivados pormáis de meio século.Perto do alpendre, o cheiro das açucenas-brancas semisturava com o do filho caçula. Então ela sentava no chão,rezava sozinha e chorava, desejando a volta de Omar. Antesde abandonar a casa, Zana via o vulto do pai e do esposonos pesadelos das últimas noites, depoís sentia a presençade ambos no quarto em que haviam dormido. Durante odia eu a ouvia repetir as palavras do pesadelo, "Eles andampor aquí, meu pai e Halim vieram me visitar... eles estãonesta casa", e ai de quem duvidasse disso com uma palavra,um gesto, um olhar. Ela imaginava o sofá cinzento na salaonde Halim largava o narguilé para abraçá-la, lembrava avoz do pai conversando com barqueiros e pescadores noManaus Harbour, e ali no alpendre lembrava a rede verme-lha do Caçula, o cheiro dele, o corpo que ela mesma despiana rede onde ele terminava suas noitadas. "Sei que um diaele vai voltar", Zana me dizia sem olhar para mim, talvezsem sentir a minha presença, o rosto que fora tão belo agorasombrio, abatido. A mesma frase eu ouvi, como uma ora-ção murmurada, no dia em que ela desapareceu na casadeserta. Eu a procurei por todos os cantos e só fui encon-trá-la ao anoitecer, deitada sobre folhas e palmas secas, obraço engessado sujo, cheio de titica de pássaros, o rostoinchado, a saia e a anágua molhadas de urina.Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas al-guns dias antes de sua morte, ela deitada na cama de umaclínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabepara que só a filha e a amiga quase centenária entendes-sem (e para que ela mesma não se traísse): "Meus filhos jáfizeram as pazes?°'. Repetiu a pergunta com a força que lherestava, com a coragem que mãe aflita encontra na horada morte.Ninguém respondeu. Então o rosto quase sem rugasde Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado,à procura da única janelinha na parede cinzenta, onde seapagava um pedaço do céu crepuscular.1
 
Quando Yaqub chegou do Líbano, o pai foi buscá-lono Rio de Janeiro. O cais Pharoux estava apinhado de pa-rentes de pracinhas e oficiais que regressavam da Itália.Bandeiras brasileiras enfeitavam o balcão e a varanda dosapartamentos da Glória, rojões espocavam no céu, e paraonde o pai olhava havia sinais de vitória. Ele avistou ofilho no portaló do navio que acabara de chegar de Marse-lha. Não era mais o menino, mas o rapaz que passara cincodos seus dezoito anos no sul do Líbano. O andar era o mes-mo: passos rápidos e firmes que davam ao corpo um sensode equilíbrio e uma rigidez impensável no andar do outrofilho, o Caçula.Yaqub havia esticado alguns palmos. E à medida quese aproximava do cais, o pai comparava o corpo do filhorecém-chegado com a imagem que construíra durante osanos da separação. Ele carregava um farnel de lona cinza,surrado, e debaixo do boné verde os olhos graúdos arrega-i2laram com os vivas e a choradeira dos militares da ForçaExpedicionária Brasileira.Halim acenou com as duas mãos, mas o filho demoroua reconhecer aquele homem vestido de branco, um poucomais baixo do que ele. Por pouco não esquecera o rosto dopai, os olhos do pai e o pai por inteiro. Apreensivo, ele seaproximou do moço, os dois se entreolharam e ele, o filho,perguntou: "Baba?". E depois os quatro beijos no rosto, oabraço demorado, as saudações em árabe. Saíram do caisabraçados, atravessaram a praça Paris e a rua do Catete eforam até a Cinelândia. O filho falou da viagem e o pai la-mentou a penúria em Manaus, a penúria e a fome duranteos anos da guerra. Na Cinelândia sentaram-se à mesa deum bar, e no meio do burburinho Yaqub abriu o farnel etirou um embrulho, e o pai viu pães embolorados e umacaixa de figos secos. Só isso trouxera do Líbano? Nenhumacarta? Nenhum presente? Não, não havïa mais nada no far-nel, nem roupa nem presente, nada! Então Yaqub explicouem árabe que o tio, o irmão do pai, não queria que ele vol-tasse para o Brasil.Calou. Halim baixou a cabeça, pensou em falar dooutro filho, hesitou. Disse: "Ttia mãe...", e também calou.Viu o rosto crispado de Yaqub, viu o filho levantar-se, aper-reado, arriar a calça e mijar de frente para a parede do barem plena Cinelândia. Mijou durante uns minutos, o rostoagora aliviado, indiferente às gargalhadas dos que pas-savam por ali. Halim ainda gritou, "Não, tu não deves fazerisso. . . ", mas o filho não entendeu ou fingiu não entendero pedido do pai.Ele teve que engolir o vexame. Esse e outros, de Yaqube também do outro filho, Omar, o Caçula, o gêmeo quenascera poucos minutos depois. O que mais preocupavaHalim era a separação dos gêmeos, "porque nunca se sabecomo vão reagir depois.. .". Ele nunca deixou de pensar noreencontro dos filhos, no convívio após a longa separação.Desde o dia da partida, Zana não parou de repetir: "Meufilho vai voltar um matuto, um pastor, um ra'í. Vai esque-cer o português e não vai pisar em escola porque não temescola lá na aldeia da tua família".
 
Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quandoos gêmeos completaram treze anos de idade. Halim queriamandar os dois para o sul do Líbano. Zana relutou, e con-seguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub. Duran-te anos Omar foi tratado como filho único, o único menino.No centro do Rio, Halim comprou roupas e um par desapatos para Yaqub. Na viagem de volta a Manaus, fez umlongo sermão sobre educação doméstica: que não se devemïjar na rua, nem comer como uma anta, nem cuspir nochão, e Yaqub, sim, Baba, a cabeça baixa, vomitando quandoo bimotor chacoalhava, os olhos fundos no rosto pálido, aexpressão de pânico toda vez que o avião decolava ou ater-rissava nas seis escalas entre o Rio de Janeiro e Manaus.Zana os esperava no aeroporto desde o começo da tar-de. Ela estacionou o Land Rover verde, foi até a varanda eficou olhando para o leste. Quando viu o bimotor prateadoaproximar-se da cabeceira da pista, desceu correndo, atra-vessou a sala de desembarque, subornou um funcionário,caminhou altiva até o avião, subiu a escada e irrompeu nacabine. Levava um buquê de helicôneas que deixou cair aoabraçar o filho ainda lívido de pavor, dizendo-lhe, "Meu14 15querido, meus olhos, minha vida", chorando, "Por que tan-ta demora? O que fizeram contigo?", beijando-lhe o rosto, opescoço, a cabeça, sob o olhar incrédulo de tripulantes epassageiros, até que Halim disse, "Chega! Agora vamos des-cer, o Yaqub não parou de provocar, só faltou pôr as tripaspara fora". Mas ela não cessou os afagos, e saiu do aviãoabraçada ao filho, e assim desceu a escada e caminhou atéa sala de desembarque, radiante, cheia de si, como se enfimtivesse reconquistado uma parte de sua própria vida: o gê-meo que se ausentara por capricho ou teimosia de Halim.E ela permitira por alguma razão incompreensível, por al-guma coisa que parecia insensatez ou paixão, devoção cegae irrefreável, ou tudo isso junto, e que ela não quis ou nun-ca soube nomear.Agora ele estava de volta: um rapaz tão vistoso e altoquanto O outro filho, o Caçula. Tinham o mesmo rosto an-guloso, os mesmos olhos castanhos e graúdos, o mesmocabelo ondulado e preto, a mesmíssima altura. Yaqub davaum suspiro depois do riso, igualzinho ao outro. A distâncianão dissipara certos tiques e atitudes comuns, mas a sepa-ração fizera Yaqub esquecer certas palavras da língua por-tuguesa. Ele falava pouco, pronunciando monossílabosou frases curtas; calava quando podia, e, às vezes, quandonão devia.Zana logo percebeu. Via o filho sorrir, suspirar e evitaras palavras, como se um silêncio paralisante o envolvesse.No caminho do aeroporto para casa, Yaqub reconhe-ceu um pedaço da infância vivida em Manaus, se emocio-nou com a visão dos barcos coloridos, atracados às margensdos igarapés por onde ele, o irmão e o pai haviam navegadonuma canoa coberta de palha. Yaqub olhou para o pai eapenas balbuciou sons embaralhados."O que aconteceu?", perguntou Zana. "Arrancaram atua língua?""La, não, mama", disse ele, sem tirar os olhos da paisa-

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