Os Maias
Paula Cruz
1
Síntese amorosa do percurso de Carlos e de Maria Eduarda
1.
Carlos vê Maria Eduarda pela primeira vez e questiona Dâmaso
«Entravam então no peristilo do Hotel Central - e nesse momento um
coupé
da Companhia, chegando a largotrote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, debarba muito negra, passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pêlos esguedelhados, finos comoseda e cor de prata; depois apeando-se, indolente e
poseur
, ofereceu a mão a uma senhora alta, loira, com um meiovéu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se,ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si comouma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco deGénova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas.» (pp. 156-157);
2. Carlos sonha com Maria Eduarda
«Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; e ele continuava na
chaise-longue
, como amolecidonestas recordações, e cedendo já, num meio adormecimento, à fadiga do longo jantar... E então, pouco a pouco,diante das suas pálpebras cerradas, uma visão surgiu, tomou cor, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morrianuma paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. [...]Eram três horas quando se deitou. E apenas adormecera na escuridão dos cortinados de seda, outra vez um belo diade Inverno morria sem uma aragem, banhado de cor-de-rosa: o banal peristilo do hotel alargava-se, claro ainda natarde; o escudeiro preto voltava, com a cadelinha nos braços; uma mulher passava, com um casaco de veludo brancode Génova, mais alta que uma criatura humana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno que remontaao Olimpo [...]» (pp. 184-185);
5. Carlos vê Maria Eduardo no Aterro
«Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro [actual Av. 24 de Julho] aproximava-se, caminhandodepressa, uma senhora - que ele reconheceu logo, por esse andar que lhe parecia de uma deusa pisando a Terra [...]»(p. 202);
6. Decide ir vê-la a Sintra
«- Iam pelo Chiado abaixo; anteontem, às duas horas... Estou convencido que iam para Sintra. [...] (p. 214)- Dize cá, Cruges - perguntou-lhe Carlos - queres vir amanhã a Sintra? [...] (p. 216)
7. Por intermédio de Dâmaso, vai ver Rosa - primeiro contacto com o ambiente em que «
ela» vive«- Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas daí, que venhas ver um doente... Eu te explicarei... Éaquela gente brasileira. Mas, pelo amor de Deus, vem depressa, menino!Carlos erguera-se, pálido:- É ela?- Não é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, veste-te, que a responsabilidade é minha!» (pp. 260-261);
8. Carlos vê-a novamente no aterro
«Carlos ao outro dia não saiu de casa, esperando um recado, faiscando de impaciência. Nenhum recado veio. E,duas tardes depois, ao descer para o Aterro - o primeiro encontro que teve, às Janelas Verdes, foi o Castro Gomes,de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadelinha no colo.Ela passou, sem o ver. E logo ali Carlos decidiu findar aquela tortura, pedir muito simplesmente ao Dâmaso que oapresentasse ao Castro Gomes, antes de ele partir para o Brasil...» (p. 291);
9. Expectativa de a conhecer nas corridas
«No domingo, pois, daí a cinco dias, eram as corridas... E "ela" estaria lá, ele ia conhecê-la, enfim!» (p. 304);
10. Carlos e Maria Eduarda encontram-se fugazmente, perto do Aterro
«Adiante do Grémio, encostado ao passeio, estava um
coupé
da Companhia, com um trintanário de luvas brancas,esperando junto ao portal. Carlos olhou, casualmente; e viu, debruçado à portinhola, um rosto de criança [...]Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler [...] No fundo do
coupé
, forrado de negro, destacava um perfil claro de
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