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Pelos olhos de Robert Capa

Pelos olhos de Robert Capa

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Published by Patricia Fonseca
A 5 de Setembro de 1936, um fotógrafo registou a morte de um soldado – e a imagem logo se tornou símbolo do conflito. Setenta anos depois, a VISÃO volta a Cerro Muriano, em busca das memórias desse dia
A 5 de Setembro de 1936, um fotógrafo registou a morte de um soldado – e a imagem logo se tornou símbolo do conflito. Setenta anos depois, a VISÃO volta a Cerro Muriano, em busca das memórias desse dia

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VISÃO
27 DE FEVEREIRO DE 2006
60
MEMÓRIA
   B   R   U   N    O    R   A    S    C    Ã    O
PATRÍCIA FONSECA E BRUNO RASCÃO
«Se a foto não é suficientemente boa éporque não estavas suficientemente perto»Robert Capa
A
HISTÓRIA QUE CONHECE-
mos diz-nos que Robert Capa 
estava perto. Tão perto que
captou o instante em que umsoldado republicano foi atin-
gido por fogo inimigo, nosarredores de Córdoba. Essemomento, captado pela sua 
Leica III (G), tornou-se na imagem-ícone da guerra civil espanhola (1936-39) e marcouo início da carreira de um dos maiores fotó-grafos de guerra de todos os tempos.Mas poderá a 
 Morte de um Miliciano
, a fotografia que o ministro da Cultura espa-nhol equiparou a 
Guernica
, de Picasso, tersido encenada? A dúvida paira sobre o tra-balho de Capa, desde sempre. Contudo, sóna última década se desenvolveram esforços
>>
GUERRA CIVIL ESPANHOLA 
Pelosolhosde Capa
 A 5 de Setembro de1936, um fotógraforegista a morte deum soldado – e a imagem logo se tornousímbolo do conflito.Setenta anos depois, a VISÃO volta a CerroMuriano, em busca dasmemórias desse dia 
Na foto de Robert Capa, a mão esquerda do «miliciano»
   R    O   B   E   R   T     C   A   P   A
 
VISÃO
61
MEMÓRIA
31 DE AGOSTO DE 2006
para descobrir a verdade. O local da foto,por exemplo, só há três anos obteve o con-senso dos investigadores. E a hora a que foirealizada, bem como a identidade do sol-dado, continuam a dividir opiniões.
OS CÃES DORMITAM
no meio da estrada, apro-
 veitando a brisa que amaina o sufoco dos
44 graus que já apertam de manhã. No cen-
tro de convívio da terceira idade joga-se do-minó e ignoram-se as notícias que passamna televisão. As gentes de Cerro Muriano,uma vila andaluza com pouco mais de 700habitantes, preferem comentar a chegada dos estrangeiros que buscam pormenoressobre a passagem de Capa por ali. «Ingle-ses, franceses, alemães, brasileiros… Nosúltimos dois anos tem sido um corrupio»,conta o arqueólogo Fernando Penco, res-ponsável pelas escavações das termas ro-manas que se encontram no mesmo localonde caiu o soldado de Capa.Tamanha procura já deu ideias aos po-líticos locais, que ali querem erguer ummonumento, promover exposições e lan-
çar um concurso de fotografia. «Verda-
deira ou falsa, foi feita aqui», congratula-se Adela Romero Blanque, vice-presidente do Ayuntamento de Obejo, que gere os desti-nos de Cerro Muriano e, no próximo dia 5, vai promover um passeio pedestre pe-los locais retratados há 70 anos. «A rota de Capa» poderá, quem sabe, atrair turis-tas para a deprimida região.O percurso do fotógrafo fascina-a, maisdo que nunca, desde que descobriu traçosfamiliares na sua obra. «No ano passado, omeu tio-avô Juan Romero veio visitar-me e
começou a folhear um livro. De repente, viu
uma foto que o deixou branco: ‘Esta é a mi-nha mãe!’ A mulher em cima de um burro,com uma criança nos braços, é a minha bi-savó Josefa. E a criança era ele.»
Todos os refugiados fotografados a 5
de Setembro de 1936 eram de Cerro Mu-
riano. Descobrir o local exacto da foto-
grafia do «miliciano», através da análisetopográfica das montanhas que surgemem fundo pode parecer complexo, mas não
deixa margem para dúvidas a quem ali cres-
ceu. «Não há duas montanhas sobrepostas
desta forma em toda a região», assegura Fer-nando Penco, apontando para a elevação de
Cerro de los Santos, que se vê em segundoplano, atrás de Cerro de la Coja: a colina, já dentro da aldeia, onde o miliciano foi atin-gido. Esse «monte da coxa» – assim desig-nado porque ali morava uma mulher queperdeu uma perna nos bombardeamentosde 1936 –, protegia uma casa da Guarda Civil, hoje Museu do Cobre, onde os re-publicanos instalaram tropas. E aí aguar-dava igualmente Capa – com a namorada alemã (também fotógrafa), Gerda Taro –,pela oportunidade de registar a primeira  vitória republicana contra Franco.
Como recorda Cornell Capa, irmão mais
novo de Robert, no prefácio do livro
Capa:Cara a Cara
, o casal tinha viajado para Es-
panha pela mesma razão que os voluntários
de todo o mundo: lutar contra o fascismo.«As câmaras eram as suas armas.»Contudo, o momento da vitória 
roja
nãochegaria. As tropas franquistas adianta-ram-se e, em supremacia, aniquilaram osinsurgentes. Segundo o diário das opera-ções do General Varela, comandante na-cionalista, as movimentações começaramàs cinco e meia da manhã, com as tropasdividas em três grupos. A maioria dos sol-dados era de Ceuta e Melilla (Marrocos),mais de 500 homens que foram tomandoo terreno «com pequenos avanços». A in-fantaria era apoiada pela aviação, que lan-çava bombas incendiárias.
«Pela manhã, começámos a ouvir o mur-
múrio entre as gentes da aldeia: ‘Vêm aí osmouros!’ E logo se instalou a desordem.»Os dedos de Paco Montilla apertam comforça o cabo da sua bengala. Tinha apenas7 anos mas lembra-se de tudo como se ti- vesse sido ontem. «Havia uns quantos re-publicanos no Cerro de la Coja disparandocom espingardas contra as avionetas». A sua mulher, Lourdes rdoba, é mais velha dois anos mas lembra menos porme-nores. Tem presentes os gritos assustados
das gentes e a hora a que a sua família fugiu,
sem tempo para agarrar em nada: «Pertodo meio-dia.» E, de forma bem vívida, re-
está semicerrada. NumaFOTOGRAFIA ENCENADAestaria aberta, amparando a queda
A HORA DE CAPA
O investigador PatrícioHidalgo estudou a sombra da famosafotografia do «miliciano» e concluiu quefoi realizada às nove e meia da manhã
 
VISÃO
62
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Pelos Olhos de Capa 
M E M Ó R I A
corda os camiões militares que iam parando
para recolher os refugiados, que fugiam empânico de Cerro Muriano. Também RamónLozano, 79 anos, confirma que o povo fu-giu de manhã. «A minha irmã estava a la- var roupa no ribeiro quando apareceu umhomem gritando: ‘Corre para casa que co-meçou a guerra!’ Ela veio avisar-nos e logo
a seguir apareceu uma avioneta a lançarbombas. Saímos com a roupa que tínha-
mos no corpo.» E Pedro Gallego Moreno,73 anos, cresceu a ouvir as histórias de Juan,o marido da «coxa» Filomena. «Dizia que
os mouros subiram em leque, desde ma-
nhã, pelo caminho dos Pañeros.»O momento em que a população aban-
dona Cerro Muriano tem especial rele- vância para determinar a hora da morte
do «miliciano» – um factor fundamentalpara averiguar a sua veracidade. Nas cópiasdos arquivos da agência Magnum (fundada também por Capa), a numeração cronoló-gica original indica que é exactamente ante-rior às da série dos refugiados. Segundo ostestemunhos ouvidos pela VISÃO, só podeter-se realizado antes do meio-dia.
Patrício Hidalgo, um tenente-coronelapaixonado pela história da guerra civil,
determinou que o «disparo» de Capa acon-teceu às nove e meia da manhã (hoje, uma hora a mais). «Penso que o sol a 5 de Se-tembro terá mais ou menos a mesma incli-nação, seja em que ano for. Partindo desseprincípio, a 5 de Setembro de 2004 subi aoCerro de la Coja. Pus-me no sítio em queesteve o miliciano e estudei a projecção da minha sombra.» O investigador comparoutambém a luz das outras fotos de Capa comas de Hans Namuth, um fotógrafo que che-gou a Cerro Muriano no mesmo dia, mas à tarde. As primeiras imagens que tirou reve-lam o mesmo tipo de sombras que podem ver-se nas foto dos refugiados de Capa, ca-minhando junto a uma linha de comboio,nos arredores de Estación de Obejo. «Issoindica que quando Namuth estava a chegar,Capa partira há pouco», considera.O«miliciano» foi identificado como Fe-derico Borrell, ou «Taino», num artigo do
Observer 
, em 1996. O jornal britânico pu-
blicou que o investigador Mário Brotons
Jordá tinha seguido a pista das cartuchei-
ras que trazia à cintura: um adereço das
milícias de Alcoy. Brotons contava que fa-zia pesquisas para um livro sobre a guerra civil quando encontrou registos referindoque o único militar de Alcoy morto a 5 deSetembro em Cerro Muriano era «Taino».Não havia lugar para dúvidas.
O biógrafo «oficial» Richard Whelan
e a família de Capa aceitaram essa versão,achando que assim acabava a controvérsia.Contudo, ficava por explicar quem era o ou-
tro homem morto no mesmo local, que Capa 
fotografa a seguir e publica na revista fran-cesa 
Vu
, a 23 de Setembro de 1936. A teoria complicou-se quando Miguel
Pascual, um investigador de Alcoy, en-controu o testemunho do soldado Enri-
que Borrell, ao jornal
Ruta Sindical
, em 1937:
«[Nesse dia] às 2 da tarde fomos chamados
ESTILO MUDA
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PEDRO GALLEGO
Viveu sempre ao lado do «monte da coxa» e lembra que os mais velhoscontavam que os «mouros» chegaram ali na manhã do dia 5, vindos dos Pañeros
   B   R   U   N    O    R   A    S    C    Ã    O   B   R   U   N    O    R   A    S    C    Ã    O
LOURDES CÓRDOBA E PACO MONTILLA
«Fugimos perto do meio-dia, com a roupaque tínhamos no corpo»
Robert Capa viajou para Espanha com a mesma motivação de voluntários de todo o

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