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[Peter Gow] Canção Purus

[Peter Gow] Canção Purus

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“Canção Purús”Nacionalização e tribalizaçãono sudoeste da Amazônia 
1
Peter Gow Departamento de Antropologia Social – Universidade de St. Andrews 
RESUMO: Tomando como ponto de partida a fala de um informante piaroa de Joanna Overing, o artigo analisa duas descrições de uma refeição no rioPurús no começo do século XX: uma canção piro e um ensaio breve deEuclides da Cunha. Contrastando as duas peças, referindo-as ao contextodo encontro dos ancestrais dos Piro com o celebrado escritor brasileiro, pro-ponho os conceitos de “nacionalização” e “tribalização” como modos de açãosimbólica. Nacionalização toma os eventos locais e os esquenta no tempo-espaço do Estado-Nação, enquanto tribalização desativa os perigos poten-ciais dos eventos locais. O primeiro lembra, o segundo esquece. Nesses doismodos de ação simbólica estão dois modos de filosofia política, como notouo informante piaroa de Overing.PALAVRAS-CHAVE:
 
Overing, Amazônia indígena, música, historicidade,nacionalismo.
 Antes de minha partida para a pesquisa de campo entre os Piro e Ashaninka do Baixo Urubamba, uma alma sábia me deu um conselhopreciso sobre como fazer etnografia: leve consigo uma etnografia quevocê admira e apenas tente imitá-la. Levei
The Piaroa 
, de Joanna Overing Kaplan, um livro que havia lido e admirado antes mesmo de ela se tornar
 
- 432 -
G
OW 
, P. “C
 ANÇÃO
P
URÚS
”. N
 ACIONALIZAÇÃO
 
E
 
TRIBALIZAÇÃO
...
minha orientadora da pesquisa de doutorado. Levei ainda um segundoexemplar, temeroso de que o meu precioso primeiro exemplar não so-brevivesse ao processo de pesquisa de campo. Aconteceu que o livro ja-mais chegou ao Rio Urubamba, já que o dei a um simpático antropó-logo peruano. Eu o dei porque esse era o único objeto que eu possuía que tinha valor suficiente para expressar minha profunda gratidão a ele.Isso fez com que eu chegasse a campo com a 
Crítica da razão prática 
de Jean-Paul Sartre, o
Esboço de uma teoria da prática 
de Pierre Bourdieu, o
Espelho da produção
de Jean Baudrillard, e apenas minhas vivas lembran-ças de
Os Piaroa 
. Fiz minha etnografia com os Piro e os Ashaninka ten-do esse livro como meu guia espiritual, mesmo não podendo mais tê-locomo meu manual cotidiano de instruções.Uma imagem desse livro sempre permaneceu comigo, e, como é ca-racterístico à obra de Overing, essa imagem é piaroa. Ela cita um infor-mante falando dos poderes do
ruwang 
, os xamãs piaroa:
“Um pensador muito poderoso pode ver o mundo como um único lugar.Mas isso é ruim para ele, e ter tal poder só leva a problemas porque ele
vê demais 
. Ele pode ver que um
chisapo
(cunhado) no próximo
Itso’de 
(grupolocal) está bravo. E quando ele o vê ele pensa que esse
chisapo
está bravocom ele, embora seja provável que assim não seja. Ele muito provavelmen-te vai retaliar, mas sem razão nenhuma. O grande
Ruwang 
deve desenvol-ver uma habilidade controlada de ter visões de outros lugares e do futuro,e uma habilidade controlada de transformar a si mesmo por meio de seuspensamentos. Deve ser como uma pequena casa dentro de seus pensamen-tos, pequena e apertada. Mas muito freqüentemente as pessoas querempoderes mais fortes que esses.” (Overing, 1975, p. 63, grifo no original)
 
EVISTA 
 
DE
NTROPOLOGIA 
, S
 ÃO
P
 AULO
, USP, 2006,
. 49
N
º 1.
- 433 -
Esse depoimento é assombroso em sua abordagem caracteristicamen-te amazônica do conhecimento. Ao contrário da língua inglesa, que dizque ter pouco conhecimento é uma coisa perigosa, o orador piaroa su-gere o oposto: que ter conhecimento demais é perigoso. Está aí o desa-fio posto à antropologia acadêmica pelos mundos pensados pelos povosamazônicos. Levados por razões profissionais a gerar mais e mais conhe-cimentos sobre essas pessoas, nós agimos diretamente contra sua pró-pria política de conhecimento. Quando meus informantes respondemàs minhas perguntas, como é tão freqüente, com um “Isso eu não sei!”,minha frustração pela improdutividade de minha linha de interrogaçãoé acompanhada de uma frustração que também é política – por que eunão posso dar a mesma resposta à maior parte das questões que me sãopropostas por colegas e estudantes? Por que sempre temos de saber tudo? Aqui, quero explorar uma política de conhecimento indígena ama-zônica partindo daquela que pareceria uma de suas facetas menos pro-missoras, a sistemática destruição de memórias de uma série de eventospassados que afetaram os Piro que viveram no Rio Purús na primeira década do século XX. Nesse caso, o embotamento dos eventos passadosestá tão avançado que, partindo de evidências etnográficas coletadasdesde 1980, seria difícil suspeitá-los. No entanto, arquivos documen-tais os registram em detalhes consideráveis, já que esses eventos tiveramgrande importância para os Estados-Nação do Peru e do Brasil, e muitofoi feito para comemorar certos aspectos deles. O que os povos piro efe-tivamente apagaram, as instituições dos dois Estados-Nação coleciona-ram e preservaram. São essas contrastantes políticas de conhecimento,que eu aqui denomino “tribalizações” e “nacionalizações”, que este arti-go explora. O contraste principal é lindamente encapsulado no comen-tário daquele Piaroa: “deve ser como uma pequena casa dentro de seuspensamentos, pequena e apertada. Mas muito freqüentemente as pessoasquerem poderes mais fortes que esses”.

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