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O Além e a Sobrevivência do Ser █ 
Proponho-me, nestas páginas, abordar uma dasmais altas e mais graves questões com que defrontao pensamento humano.Haverá em nós um elemento, um princípio quepersista, depois da morte do corpo? Haveráqualquer coisa da nossa conscncia, da nossapersonalidade moral, da nossa intelincia, donosso eu, que subsista à decomposição do invólucromaterial? Neste breve estudo, deixaremos de lado odomínio das esperanças religiosas, por muitorespeitável que seja, assim como o das teoriasfiloficas, para exclusivamente buscarmos asprovas experimentais capazes de nos fixarem a
 
opinião. Atualmente, as afirmações dogmáticas e asteorias especulativas o bastam. O esritohumano, que se tornou difícil de contentar-se, porefeito dos métodos científicos e de critica hoje emuso, exige para toda crença uma base positiva, umcritério de certeza.Antes de tudo, no exame que vamos fazer, umacoisa nos impressiona. Na época atual, em quetantas convicções se enfraquecem e extinguem, emque tantas ilusões se esfrangalham, o respeito, oculto da morte, continua sendo uma das rarastradições vivas. A lembrança dos seres queridos seconserva, intensa e profunda, no coração dohomem. Foi em Paris, não o esqueçamos, que seestabeleceu o costume de saudar os féretros aopassarem.Não é um espetáculo tocante ver, nos dias 19 e 2de novembro, por sob um céu geralmenteacaçapado e sombrio, às vezes até fustigadas poruma chuva insistente, aborrecida e gelada,numerosas multidões se encaminharem para oscemitérios, a fim de cobrirem de crisântemos ostúmulos daqueles a quem amaram?!Aos que voltam dessa piedosa peregrinação emesmo aos que, em todas as épocas do ano,acompanham um enterro, não se apresentará estainterrogação: Que é feito de todos esses viajantesque transpuseram os umbrais do mundo invisível?
 
E o pensamento de cada um interroga o oceanosilencioso dos mortos!Sim, não obstante o desenfreado amor àmaria, característico dos tempos atuais, oobstante a luta ardorosa pela vida, luta que nosarrebata em sua engrenagem e nos absorveinteiramente, a idéia do Além se ergue a todoinstante em nosso íntimo. Suscitam-na o espetáculoquotidiano das tristezas da Humanidade, a sucessãodas gerações que surgem e passam, as chegadas epartidas que se verificam em torno de nós, asconstantes migrações, de um mundo para outro,daqueles que partilharam dos nossos trabalhos, dasnossas alegrias, das nossas dores, dos que teceram anosso lado a teia não raro tão dolorosa daexistência.A todos quantos essa questão se tenhaapresentado, direi: Nunca percebestes, no silêncioprofundo das horas noturnas, das horas de insônia,quando tudo repousa em derredor, algum ruídomisterioso, que se assemelhasse a uma advertênciade amigos ou, melhor ainda, o murmúrio de umente caro tentando fazer-se ouvir? o haveissentido passar-vos por sobre a fronte como que umsopro ligeiro, brando qual carícia, ou o roçar deuma asa? Freqüentemente hei tido essa sensação.Mas, dir-me-eis, isto é por demais vago e poucoconcludente. A nossa época de cepticismo são
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