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Hermann Hesse - O Livro das Fábulas

Hermann Hesse - O Livro das Fábulas

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Published by: Wagner Lafaiete Junior on Sep 10, 2012
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01/18/2013

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Três Lendas de Tebas
1. o Demônio do Campo
Na época em que, no Egito, o paganismo decadente cedia cadavez mais terreno à nova doutrina e floresciam nas cidades e maishumildes lugarejos inúmeras congregações cristãs, os antigos demônios viam-se forçados a retirar-se mais e mais para o deserto te-bano. Era um vasto ermo então completamente desabitado, pois osdevotos penitentes e os eremitas ainda não se atreviam a penetrarnessa perigosa região e preferiam viver, fechados a toda comunicação com o mundo, em pequenos hortos ou palheiros vizinhos dasaldeias ou para além das grandes cidades. Assim, esse grande deserto estava completamente à disposição de Belzebu, com seu exército e séquito, pois as únicas criaturas que lá habitavam eram asferas e uma infinidade de vermes e répteis venenosos. A elas se juntavam agora desalojados de toda a parte pelos santos e penitentes — os demônios superiores e os diabos inferiores, assim comotodos os seres pagãos e heréticos. Entre estes havia os sátiros ou
 
faunos, chamados demônios do campo ou silvanos, os unicornes ecentauros, os druidas e muitos outros espíritos; pois Belzebu exerciapoder sobre todos eles e era tido como certo que, tanto pela suaorigem pagã como pela conformação meio animal, eram desprezados por Deus e não podiam jamais aspirar à sua glória.Entre esses homens-animais e ídolos pagãos derrubados nemtodos eram maus; alguns só a contragosto se submetiam a Belzebu.Outros, porém, obedeciam-lhe com prazer e, em sua raiva, comportavam-se de maneira muito diabólica, visto não saberem por quemotivo haviam sido expulsos de sua anterior existência, tranqüila einofensiva, e empurrados para o seio das criaturas desprezadas,perseguidas e maldosas. Segundo as crônicas da vida do saudosoeremita Paulo e as notícias de Atanásio sobre o santo frade Antônio, parece que os centauros eram seres hostis e malignos mas ossátiros ou demônios do campo eram, até certo ponto, pacíficos emansos. Pelo menos, está escrito que o bem-aventurado Antônio,durante sua prodigiosa viagem pelo deserto ao encontro de Paulo,deparou-se com um centauro e um demônio do campo; enquanto oprimeiro o tratou com rudeza e malícia, o sátiro, pelo contrário,conversou amenamente com o santo e demonstrou até desejo dereceber a sua bênção. É desse sátiro ou demônio do campo quetrata esta lenda.O demônio do campo, com outros da sua estirpe, acompanhara os demais espíritos maus até o deserto inóspito e nele vagueava. Como vivera outrora numa frondosa e bela floresta e suasrelações se limitavam unicamente aos seus semelhantes e às graciosas driades, ou ninfas dos bosques, o pobre sátiro ressentia-se profundamente desse exílio para lugar tão selvático e da convivênciacom os espíritos e demônios malignos.Durante o dia, gostava de afastar-se dos outros, errando solitário entre os rochedos e dunas de areia, sonhando com os lugaresverdejantes e férteis de sua vida anterior, despreocupada, alegre, ecochilando umas horas na sombra rala das palmeiras esparsas. Denoite, costumava sentar-se em um vale sombrio, rochoso e agreste,de onde brotava um riacho, e aí ficava tocando em sua flauta de junco nostálgicas e dolentes canções, a que sempre acrescentavauma nova. Quando escutavam, ao longe, essas melodias plangentes,os faunos relembravam, pesarosos, os melhores tempos passados.Alguns deles soltavam doloridos suspiros ou entregavam-se a penosas lamentações. Outros, que não sabiam mais do que isso, en-
 
tregavam-se a danças turbulentas, soltando gritos e silvos estridentes, para esquecer mais depressa o que haviam perdido. Os demônios superiores, porém, debochavam do solitário e pequeno sátiro,arremedavam-no, troçavam dele e ridicularizavam-no de inúmerasmaneiras.Pouco a pouco, depois de ter largamente meditado sobre omotivo de sua tristeza, ter chorado os antigos e perdidos prazeres, elamentado a desprezível existência atual no deserto, o sátiro passoua discutir tais assuntos com seus irmãos. E logo se formou entre osdemônios do campo mais sérios uma pequena comunidade, empenhada em investigar as causas de sua degradação e a possibilidadede refletir sobre retorno ao antigo e paradisíaco estado de espírito.Todos eles tinham consciência de se encontrarem submetidosao poder supremo de Belzebu e suas hostes, pois o mundo eraregido agora por um novo Deus. Desse novo Deus pouco sabiam.Mas da conduta e modo de ser do Príncipe das Trevas sabiammuito. E do que sabiam não gostavam. Era poderoso, sem dúvida,e entendia muito de feitiçarias, tendo com elas dominado a todos, esuas leis eram duras e terríveis.Mas, agora, davam-se conta de que o todo-poderoso Belzebutambém fora exilado e obrigado a refugiar-se no deserto. Por conseguinte, o novo Deus teria certamente de ser ainda mais poderosodo que ele. Assim, os demônios do campo acabaram por chegar àconclusão de que seria talvez melhor para eles manterem-se-sob asleis de Deus, em vez de obedecerem às de Lúcifer. E por isso estavam ansiosos por conhecer melhor esse Deus, resolvendo procurartodas as informações possíveis sobre Ele. Então, se gostassem doque lhes fosse dito, tratariam de se aproximar d'Ele.Assim vivia essa pequena comunidade desalentada de demôniosdo campo, sob a direção daquele que era exímio tocador de flauta,numa tênue esperança de que seus tristes dias pudessem ter fim.Ignoravam, porém, até que ponto era grande o poder de Lúcifersobre eles. Mas não tardariam em sabê-lo.Na verdade, foi por essa mesma época que os piedosos eremi-tas devotos deram os primeiros passos no deserto tebano, até então jamais pisado por seres humanos. pouco anos Frei Paulo, emais ninguém, ousara penetrar nessas paragens. Dele conta a santalenda que, durante esses anos, levou uma vida de penitente, vivendonuma estreita caverna, alimentando-se unicamente da água de uma

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