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COLABORAÇÃO
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
E
m conformidade com aEncyclopedia Britanni-ca (Volume 9), o fogo éum tópico tão familiar que não necessita de qualquer
denição. A sua extraordinária
utilidade e bem assim o seu ine-rente perigo, impressionam pra-ticamente toda a gente desde ainfância. De entre as descobertas
e invenções feitas pelo homem,
destacam-se a fala, a escrita e aagricultura, como sendo aquelasque têm produzido resultadoscomparáveis à descoberta emfazer e usar o tipo de combus-tão comumente conhecido com onome de fogo, cujos vestígios re-montam aos tempos paleolíticos.Embora não exista o verdadeiroconhecimento, quer do uso origi-nal do fogo, quer da descobertaem acender o lume, temos amos-tras desses factos através de len-das, usos e costumes dos povos primitivos e ainda de tantas ou-tras cerimónias religiosas. Uma
das mais importantes conclusões
centra-se no facto de que o fogofoi utilizado muito antes de ser
produzido articialmente.
É certo que o culto do fogo hádesaparecido largamente nosnossos dias, mas o seu simbolis-mo perdura ainda hoje. Apesar de todos os benefícios derivadosdo fogo, a simples menção da pa-lavra FOGO constitui uma das
mais pavorosas expressões em
qualquer idioma, visto que o fogoé tão perigoso quão útil. A pro- pósito, adverte um ditado muitoantigo: O fogo e a água são mausamos e bons criados.Um dos primeiros resultados dadescoberta original na arte douso do fogo corresponde ao in-cremento na disponibilidade emarrecadar a comida através daculinária, cozinhando muitos produtos previamente incomes-tíveis e indigestos, defumandoainda outros, preservando assimcomida que, doutra forma, se perderia.Seria fastidioso enumerar aquias referências bíblicas àcerca dofogo. Por ora, apontarei apenas osepisódios narrados nos Livros doGénesis e do Êxodo, quando Javéfez chover fogo sobre Sodoma eGomorra; quando o anjo de Javéapareceu a Moisés numa chamade fogo do meio duma sarça; equando Javé à noite guiava os is-raelitas com uma coluna de fogo. No Segundo Livro dos Reis lê-se:“E enquanto Elias e Eliseu iamandando e conversando, apare-ceu um carro de fogo com cava-los de fogo, que os separou um dooutro. E Elias subiu ao céu numredemoinho”.S. Lucas, nos Actos dos Apósto-los, descreveu a descida do Espí-rito Santo na forma de línguas defogo. Na Liturgia, é sobremaneiravisível a presença do fogo nas ce-rimónias da vigília pascal, comosímbolo de Cristo Ressuscitado.Antecedendo o Cristianismo, era já costume acender fogueiras noscimos dos montes e montanhas,
anunciando o m do inverno e o
começo da primavera. As tradi-cionais fogueiras de São João, deorigem pré-cristã, servem hojeapenas como divertimento, masantigamente eram organizadascom o intuito de aliviar, curar eimunizar o povo contra doenças, bruxedos e demais perigos.José Henrique Borges Martins(Crenças Populares da Ilha Ter-ceira, Volume II), escreveu:“Cuspir no lume seca a pessoa,visto que o lume saiu da bocadum anjo. Quem dá lume a outroé mau agouro. Quando o leite le-vanta fervura e se entorna sobreo lume, seca o úbere da vaca queo deu. P’ra evitar o mal deve-sedeitar sal no lume”.Igualmente, “não se deve ter olume aceso quando se vela um de-
funto, porque aige-lhe a alma. A
cera que alumia um defunto deve-
se deixar arder até ao m, senão
desgasta quem a acendeu. Quemqueima o retrato duma pessoa, prejudica-lhe a saúde. Quando olume da lenha crepita, anunciavento. P’ra impedi-lo, cospe-se-lhe em cima e diz-se três vezes:Cala a boca mentiroso.Se o lume pega no fundo dum ta-cho ou na ferrugem duma panela,adivinha chuva”.Dentro em meu peito sintoUm fogo abrasador;Se não é amor que sinto, Não sei o que seja, amor.Amei-te desde criança,Em mim um fogo acendeste,Inda te hei-de ir buscar Ao jardim onde nasceste.Dentro em meu peito tenhoUma vela com dois lumes;Quem namora às escondidas,Paga renda dos ciúmes.O cartão, que já foi brasa,Com pouco lume se acende;O amor, que já foi d’alma,Com poucas falas se prende.Pode o fogo regelar-seE as ondas do mar arder,Mas eu deixar de querer-teLá isso não pode ser.Com o fogo não se brinca,É muito certo o ditado;Fui brincar c’os teus olhos,Senti-me logo queimado.O amor ateia o lume, Não assopreis mais a chama; Não há amor sem ciúme,Desgraçado de quem ama.A saudade é com certeza
O nal de quem amou,Pois apenas ca a cinza,
Quando o fogo se apagou.
Fogo - Histórias & Quadras