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Rui Ramos e o reabrir da polémica sobre a "História de divulgação" do Estado Novo - Luis Reis Torgal (Público, 20.9.2012)

Rui Ramos e o reabrir da polémica sobre a "História de divulgação" do Estado Novo - Luis Reis Torgal (Público, 20.9.2012)

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Rui Ramos e o reabrir da polémica sobre a "História de divulgação" do Estado Novo
Por Luís Reis Torgal

Em Janeiro de 2011 apresentei uma comunicação sobre a historiografia do Estado Novo num colóquio organizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre outras considerações, abordei criticamente os textos de dois historiadores: Rui Ramos e Filipe Ribeiro de Meneses. Assistimos agora a uma polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos, nas páginas do PÚBLICO, que se alargou a um artigo, qu
Rui Ramos e o reabrir da polémica sobre a "História de divulgação" do Estado Novo
Por Luís Reis Torgal

Em Janeiro de 2011 apresentei uma comunicação sobre a historiografia do Estado Novo num colóquio organizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre outras considerações, abordei criticamente os textos de dois historiadores: Rui Ramos e Filipe Ribeiro de Meneses. Assistimos agora a uma polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos, nas páginas do PÚBLICO, que se alargou a um artigo, qu

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Rui Ramos e o reabrir da polémica sobrea "História de divulgação" do EstadoNovo
 
Por Luís Reis Torgal
 Em Janeiro de 2011 apresentei uma comunicação sobre a historiografia do Estado Novonum colóquio organizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entreoutras considerações, abordei criticamente os textos de dois historiadores: Rui Ramos eFilipe Ribeiro de Meneses. Assistimos agora a uma polémica entre Manuel Loff e RuiRamos, nas páginas do PÚBLICO, que se alargou a um artigo, que não tive ocasião deler, de António Araújo, a uma pequena, violenta e inconveniente nota de MariaFilomena Mónica, e, depois, a vários outros textos de valor e significado diferentes,entre eles um artigo de um dos melhores especialistas do Estado Novo, Fernando Rosas.Não querendo entrar nas questões mais pessoais que se levantaram, achei que não deviaficar de fora, dado que me refiro constantemente nos meus textos à falta de um debatepúblico sobre a historiografia e sobre outros temas de ciência e de cultura. Limito-me,porém, por agora, a isolar e a adaptar o texto que escrevi então sobre Rui Ramos, quefaz parte, portanto, de um artigo mais lato e complexo que continua à espera de serpublicado nas actas do referido colóquio. Como se verá, não é, pois, a primeira vez quea obra de Rui Ramos suscita, saudavelmente, alguma polémica. A reedição da
 Históriade Portugal
em pequenos volumes pelo
Expresso
, coordenada por este historiador, veio,afinal, reabrir velhas questões.A obra, no seu conjunto, mereceu, obviamente, elogios desde a sua apresentação, naSociedade de Geografia, pelo sociólogo António Barreto, que, sobretudo, louvou o seusentido narrativo e de fácil compreensão, onde estava ausente um exercício teorizador.No entanto, a parte relativa ao regime Salazar-Caetano, assinada por Rui Ramos,provocou logo alguma discussão, proporcionada pelo trabalho da jornalista São JoséAlmeida, que entrevistou e transcreveu pequenos passos das opiniões emitidas poralguns historiadores do Estado Novo, como António Costa Pinto, Manuel de Lucena,Manuel Loff, Irene Flunser Pimentel, Fernando Rosas, para além de afirmações dopróprio Rui Ramos. O artigo teve o sintomático título "A História de Rui Ramosdesculpabiliza o Estado Novo" (PÚBLICO, 31 de Maio de 2010).Não valerá a pena analisar cada opinião, pois não se chegaria a grandes conclusões,dado até, precisamente, o carácter de curtas passagens que foram extraídas pela jornalista às palavras de cada um dos interlocutores. Apenas poderei resumir esse debate(se é que de debate se tratou) com a própria síntese da jornalista do PÚBLICO: "RuiRamos lamenta que em Portugal a História seja vista "a preto e branco, ou esquerda oudireita". E que se conviva mal com diferentes interpretações do passado. Mas outroshistoriadores vêem na mais recente História de Portugal, coordenada por este autor, umdiscurso que desculpabiliza o Estado Novo e diaboliza a I República. Há mesmo quemfale de "legitimação" do discurso de Salazar. E quem acuse esta História de ignorar aviolência daqueles anos".
 
 Não entro nessa discussão para que, de resto, não fui convidado, mas posso sim discutira metodologia de análise de Rui Ramos.Acima de tudo, gosto sempre de salientar que só divulga quem sabe, ou seja, queminvestigou. Caso contrário, corremos o risco - evidente no Estado Novo, em "obras doregime", como a
 História de Portugal
de João Ameal, que constituiu um verdadeiro
best-seller 
- de reduzirmos a História a um discurso narrativo de tipo mais ou menosideológico. Mas, se, por um lado, a divulgação não pode ser um discurso literário,normalmente atraente, também é perigoso que seja uma simples narrativaaparentemente asséptica e com pretensões científicas, que pode ser, por outro lado, umagrande arma da ideologia.Rui Ramos não é um especialista do Estado Novo e usou exactamente o método tãoelogiado por Barreto, ou seja, a narrativa não teorizadora. Mas, a problematização é oque de mais aliciante tem a História e que provoca no leitor medianamente culto (ooutro lê sempre qualquer coisa, até as
 Histórias rocambolescas da História de Portugal
,pensando que está a ler um livro de História) o gosto pela reflexão crítica, o que - aí concordarei com Rui Ramos, se entender o conceito como eu - o leva a ler a Histórianão "a preto e branco", mas com todas as cores, ou, por outras palavras, de formapoliédrica.Ora, se lermos as páginas sobre o Estado Novo da
 História de Portugal
(eu li-as naedição principal e não nesta edição em volumes), não nos apercebemos que Salazar seformou num denso complexo de realidades e concepções do Estado. Sobressaíam então,para além das teses e práticas republicanas mais radicais que geravam naturais reacções,posições republicanas conservadoras e nacionalistas, o corporativismo católico, com assuas teses sociológicas e pedagógicas, ideias integralistas que jamais apontavam para anoção de uma "monarquia absoluta" (como diz Ramos e que era, ao invés, uma ideiaque os integralistas combatiam), ideologias fascistas que surgiram em Portugal logo nocontexto da "marcha sobre Roma" e, mais tardiamente, apaixonadas afirmaçõesnacionais-sindicalistas, que não se afastavam mesmo do nazismo nascente. Seguindo anarrativa de Rui Ramos, tudo surge de forma natural, formando-se um Estado onde aregra era "viver habitualmente" (ideologia captada em Salazar, em 1938, por HenriMassis, mas que já se encontra na entrevista de António Ferro), no sentido de uma"nova democracia", onde a palavra "totalitarismo" era proibida, onde se verificava uma"ditadura moderada" (mais moderada do que na própria República) com uma repressãodirigida (esquecendo as vicissitudes de toda a oposição, fosse ela qual fosse), ondehavia uma "pluralidade cultural" (como se tendências de oposição pudessem serintegradas na concepção do Estado Novo e não fossem contra ele e alvo da suarepressão)... Mais ainda: onde havia uma concepção de "assimilação" em relação aosnaturais das colónias (só tardiamente notória), onde se deu uma guerra colonial (queconheci, na Guiné, no final dos anos sessenta) em que os movimentos de independênciaacabaram por ter pouco significado social e até militar, onde as estatísticas provam odesenvolvimento de Portugal (que pode ser um facto em determinadas áreas econjunturas)...Nada é discutido e problematizado e mesmo o conceito de "fascismo de cátedra"utilizado pela interessante caracterização de Unamuno, numa reflexão jornalística do
 Ahora
, dado a conhecer primeiro por João Medina, é transformado na expressão
 
"ditadura catedrática", e o conceito de "totalitarismo" não é observadosistematicamente, apesar de, na verdade, ter sido utilizado e discutido por homenspróximos de Salazar (como Bissaya Barreto ou Águedo de Oliveira, Mário deFigueiredo ou Manuel Rodrigues). E seria bom que Ramos entendesse que a História secompreende numa lógica diacrónica, mas também sincrónica. É certo que aproximauma vez o corporativismo de Salazar do de Mussolini, mas haveria que estender essacomparação a outras áreas e perceber que, para além de um "fascismo de movimento",há um "fascismo de regime", fascismo ao qual o salazarismo não foi imune, a ponto dese poder sempre perguntar, como fizeram alguns historiadores desde Manuel Lucena (aquem se deve a feliz e problematizadora expressão de que o Estado Novo poderia serconsiderado "um fascismo sem movimento fascista"), com respostas diferentes, se eraou não possível integrar o salazarismo num "fascismo genérico".A História não pode ser apenas interpretada por sintomas e factos escolhidospreviamente, mas - quer se queira quer não (eu que fui influenciado pela metodologiados
 Annales
, antes de ela se expandir em Portugal, mas que repudiei expressivamente osseus exageros e a máxima imperialista da "história nova") - tem de ser vista tambémpela análise das estruturas, que nos podem dar a conhecer o que os factos isolados nosescondem. O grande erro de Rui Ramos, numa história de divulgação, é, pois, pensarque esta é uma pura narrativa do que não se conhece bem, mas de que se podem tirarilações que interessam ao leitor e o podem orientar. E isso ainda é mais discutível sepensarmos, como Ramos, que a divulgação se pode igualmente fazer, mais livre edespreocupadamente, numa linha "jornalística" - com todo o respeito que tenho pelo jornalismo de investigação - e até utilizando a "história do se..." ("Sá Carneiro. E se elenão tivesse morrido?",
Expresso
,
 Revista Única
, 27 de Novembro de 2010) ou da"história virtual" (como diz, à maneira anglo-saxónica) ou da metáfora do "nariz deCleópatra", discutida pelo meu mestre Sílvio Lima em 1960, demitido por Salazar em1935, mas, felizmente, reintegrado nos anos quarenta. Como se vê (agora digo-o eu, em"à parte"), simples liberais eram objecto da repressão salazarista...No suplemento
 Actual
do
Expresso
(24 de Julho de 2010), Rui Ramos escreveu, nosquarenta anos da morte de Salazar, um artigo de fundo sobre o ditador, que praticamentecomeça assim: "O problema está em que, se quisermos ser exactos, teremos de admitirque foi precisamente com Salazar que Portugal começou a ser menos pobre, menosanalfabeto e mais europeu". Chavões deste tipo, com afirmações de meias verdades nãocontextualizadas, tornam a divulgação tendenciosa. O mesmo se dirá da afirmação, purae simples: "O Estado Social em Portugal foi salazarista antes de ser democrático".Quanto à repressão, apesar de Ramos concordar que Salazar, quando queria, "podia serimplacável", o que fica no leitor é outro chavão: "Quando comparamos a ditadurasalazarista com as suas contemporâneas, a contabilidade repressiva é modesta". No quese refere ao colonialismo, afirma aquilo que se poderia dizer de outra maneira e comoutra contextualização explicativa, sem o efeito de frases que constituíam verdadeiros"
slogans
de propaganda": "O colonialismo não começou com Salazar. Liberais erepublicanos tinham viabilizado as colónias, submetendo as populações ao trabalhoforçado administrado pelo Estado". E, a terminar o artigo, bem redigido - a boa escrita ea boa comunicação oral são dois factores, por paradoxal que pareça, muito perigosos nadita "divulgação da História" -, escreve, simplificando e dando um tom de ficçãoliterária à sua escrita: "Numa quinta-feira de céu cinzento, a 25 de Abril de 1974, tudofoi derrubado como um cenário de papelão. Nenhum movimento político importantereivindicou, desde então, as ideias de Salazar. Em 2007, a sua vitória num concurso

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