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Secretariado Nacional Da Pastoral Da Cultura2

Secretariado Nacional Da Pastoral Da Cultura2

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21/06/12 SNPC » Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura1/6www.snpcultura.org/vol_uma_fenda_no_mundo_do_espiritual_na_arte_contemporanea_2.html
Fé e cultura
Uma fenda no mundo. Do espiritual na arte contemporânea(II)
2. O sagrado e a obscuridade
O esgotamento das linguagens representacionais tradicionais – e já Hegel,nas suas aulas de
Estética
, se lamentava porque as obras de arte do seutempo não levavam ninguém a ajoelhar‐se e adorar... ‐ essa crisegramatical das imagens coloca a muitos artistas a questão: como desocultaro sagrado no profano? (1)Sente‐se ao longo do século XX uma desconfiança da linguagem religiosajudaico‐cristã tradicional. Um cansaço por essa linguagem do hábito já nãosurpreender. O encanto dos artistas vanguardista do início do século pelaarte primitiva reside nesses objetos guardarem uma outra linguagem. Diriamesmo, por serem expressão de uma linguagem pré‐verbal, anterior àformulação institucional fechada e repetitiva do sagrado. A arte modernaafastou‐se da narrativa e da ilustração e desejou o mundo anterior àfórmula do cristianismo instituído como norma, que parece não ter guardadoum reservatório de mistério. Muitos artistas nos últimos cem anos abrem epercorrem uma
via negativa
.As religiões, as instituições, pretendem ter respostas e clarificar o segredo.São detentoras de uma verdade que administram. Nomeiam Deus, dão‐lheatributos. Este pensamento institucional do sagrado, como que o fazdesaparecer porque o revela. A arte, pelo contrário, não o desvelaabsolutamente, aponta‐o, aproxima‐se... Ou abre uma região de negritude,de desconhecimento, onde se perdem as referências: a obscuridade e adesorientação podem ser os seus atributos. Em vez de “desvelar o ser”,como propõe Heidegger, a obra de arte vela‐o, introduz‐nos numa escuridãoessencial para que alguma coisa possa advir.
 
21/06/12 SNPC » Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura2/6www.snpcultura.org/vol_uma_fenda_no_mundo_do_espiritual_na_arte_contemporanea_2.html
Incredulidade de São Tomé (Caravaggio)
Neste sentido, escreveu Emmanuel Levinas comentando o pensamento deMaurice Blanchot: “A obra descobre, com um descobrimento que não éverdade, uma obscuridade. (...) obscuridade absolutamente exterior sobre aqual nenhuma possessão é possível.” (2). Esta enorme escuridão que a obrade arte nos abre, coloca o homem no exílio, em lugar inóspito, inabitável,inseguro. A obscuridade da arte é a daqueles que não têm onde inclinar acabeça e descansar. Um fundamento abissal e originante, antes de tudo,para o qual as palavras faltam. “Luminosidade que desfaz o mundo”, luznegra que o remete à sua origem murmurante. Assim a obra desenraíza ohomem do seu mundo, abana a sua morada, retira‐o ao hábito e às certezas,e retorna‐lhe a sua condição de nómada, peregrino. Também o reino da obrade arte não é deste mundo. Vem trazer a espada e não a paz. Destrói omundo e recria‐o. Rasga uma fenda e abre uma porta para a noite. “A arte,longe de iluminar o mundo, deixa experimentar a obscuridade da qualemerge todo o mundo” (3). E, como indica o belíssimo título de um livro deJosé Tolentino Mendonça, “a noite abre meus olhos”.Como temos vindo a reler, há cem anos escreveu Kandinsky em
Do espiritualna arte
: “A nossa alma possui uma
 fenda
que, quando se consegue tocar,lembra um valioso vaso descoberto nas profundidades da terra.” (4). Umafenda, mas esta abertura é necessário tocá‐la, encontrá‐la antes de mais etocá‐la. A obra deve dirigir a mão até esta fenda e fazer‐nos experimentar oque se abre nela. Penso numa célebre tela de Caravaggio quando digo isto,em que Cristo guia na escuridão a mão de Tomé até ao seu lado aberto. Mastambém numa obra de Anish Kapoor: em
The healing of St. Thomas
, o
 
21/06/12 SNPC » Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura3/6www.snpcultura.org/vol_uma_fenda_no_mundo_do_espiritual_na_arte_contemporanea_2.html
artista retoma essa passagem bíblica. Com ela deseja promover aexperiência pessoal do espetador, que estique a mão e toque. Apresenta umcorte feito na parede da galeria, encarnado vivo, vaginal, onde a referênciado título nos induz numa leitura do lado aberto de Cristo. Uma ferida quesalva, que cura. Sobre esta obra disse Kapoor: “Tomé estica o braço,aproxima‐se para tocar o que é aparentemente uma ilusão, para entãoencontrar a realidade. O olho e a mão necessitam um do outro. Uma veztocada a ferida, uma espécie de curativo tem lugar em Tomé. Ele é curadoda sua dúvida. Este trabalho é um simples corte na parede, uma ferida naparede. A ferida tem uma forma que é vaginal, mais a ver com atotalidade/a completude (
wholeness
) do que com a morte. Refere‐se aoespaço por detrás da parede, e é claro, vê a arquitetura como uma metáforado si. Eu poderia ter feito este trabalho num bloco de pedra mas parecia‐memuito concreto, demasiado figurativo, não suficientemente real. Demasiadohaver com narrativa e não o suficiente com potencialidade psicológica.”(5).

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