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DAVID COPPERFIELD
CHARLES DICKENS
Clássicos da Literatura Universal
 
PREFÁCIO DO AUTOR NA PRIMEIRA EDIÇÃO (1850)
 Não me é fácil abstrair suficientemente deste livro, ainda sob a primeira impressão de o ter concluído, para dele falar com o sangue-frioque este nome cerimonioso de Prefácio parece exigir. O meu interesse neleé demasiado forte e recente; e tenho o espírito ainda tão dividido entre o prazer e a mágoa (o prazer de terminar tão velho propósito e a mágoa deme separar de tantos companheiros), que me arrisco a fatigar o leitor comas minhas confidências pessoais e comoções particulares.Além disso, tudo quanto poderia dizer da obra, de qualquer "maneirao disse já nas próprias páginas dela.Talvez para o leitor haja pouco interesse em saber com que desgostose descansa a pena depois de dois anos de um trabalho de ficção; ou o quesente o autor ao lançar algo de si mesmo neste mundo sombrio quando amultidão de criaturas nascidas do seu cérebro o abandona para sempre.Todavia nada mais eu tinha Para dizer, excepto provavelmente confessar (eisto decerto ainda tem menos importância) que ninguém poderá, ao ler estahistória, acreditar mais nela do que eu o fiz ao escrevê-la.Em vês de olhar, contudo, para trás, eu olharei para a frente. E não poderei fechar este volume mais agradavelmente para mim do que deitandoum relance esperançado ao tempo em que tornarei a apresentamensalmente as minhas novas laudas, sem me esquecer no entanto do solalegre e dos aguaceiros que caíram nestas folhas do David Copperfield eme fizeram feliz.Londres, Outubro, 1850.
DO PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO (1869)
... Esta confissão é hoje ainda tão verdadeira que o possoacrescentar senão uma nova confidência ao leitor. De todos os meus livros,este é o de que eu mais gosto. Facilmente se admitirá que tenha por qualquer produto da minha imaginão uma ternura paternal e queningm, mais do que eu, possa amar esta progenitura. Mas, como
 
acontece a muitos pais, guardo no fundo do coração um filho preferido:chama-se David Copperfield.1869.
Este é o final do 2.o prefácio. As linhas que o antecedem são iguais ao 1.o prefácio.
O AUTOR E A SUA OBRA
Em 1812, ano em que nasceu Charles Huffam Dickens, a Inglaterraatravessava uma época decisiva na Sua história. A Inglaterra rural,indolente e alegremente resignada, transformava-se na Inglaterra industrialde meados do séc. XIX, envolta em fumo e névoa, mas dinâmica e sedentade progresso material. Nas recordações de infância, de Dickens, o ruídosaltitante das últimas diligências rolando pelo empedrado das estradas de província já se confundia com o roncar das máquinas a vapor das fábricas ecom o longo silvo das primeiras locomotivas. Dickens nasce com ummundo novo. Tudo o que é velho começa a vacilar. Há um quarto de séculoque uma onda de revolução salpica de vermelho todas as velhas nações. Nailha, pelo contrário, a classe governante, mais consciente dos problemaseconómicos, conseguiu avaliar melhor a situão social e, cedendo privilégios políticos, evitou a guerra civil. No entanto, em nenhum outro país os operários foram pior tratados: tugúrios, quinze horas diárias detrabalho, crianças de cinco anos nas fábricas... A Inglaterra não estavaainda despida das escandalosas difereas sociais que provocaram arevolução no continente! Apesar disso, as mudaas efectuaram-se progressivamente num sentido que ninguém no continente pôde sequer  prever: A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL.Torna-se necessário, destacar a situação do mundo em que Dickensnasceu e viveu, porque poucos homens foram fruto do seu tempo com aintensidade com que Dickens o foi, nem o solidários para com oambiente em que nasceram. Houve quem dissesse que Dickens constituiuuma causa importante para que a Inglaterra não sofresse uma revoluçãocomo as que assolaram o resto da Europa,. Eu chego ao ponto de afirmar que ele e a sua obra representam uma mentalidade que torna impossíveis asrevoluções.
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