/  9
 
A Barquinha:Uma cosmologia amazônica em construção
Wladimyr Sena Araújo
1[1]
 UNICAMP
RESUMO
Este trabalho visa apresentar uma religião amazônica chamada de “CentroEspírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz”, conhecida popularmentecomo Barquinha que foi criada em Rio Branco - AC em 1945 por Daniel Pereira deMattos, ex-marinheiro oriundo do Maranhão.Os praticantes desta religião ingerem uma substância psicoativa por nome deayahuasca, feita com um cipó (Banisteriopsis caapi) e uma folha (Psychotria viridis).Este chá é milenar e é usado atualmente por índios, caboclos/vegetalistas e religiõesurbanas como a União do Vegetal, que o chama de “hoasca” e o Santo Daime eBarquinha, para a qual o psicoativo é intitulado de “daime”.A Barquinha é um dos espaços do Acre que congrega práticas religiosasafricana, indígena e européia. É uma religião com um processo de resignificaçãobastante veloz, o que nos leva a (re)discutir sincretismo através de um pressupostobásico essencial para a compreensão de um espaço cultural e simbólico complexo: acosmologia.
INTRODUÇÃO
O tema que que trabalho desde 1995 e que irei abordar neste trabalho constituiuma pesquisa sobre uma religião amazônica que faz uso de uma planta psicoativa depoder (Sena Araújo, 1997).Para o antropólogo Edward MacRae (1999), as plantas sagradas estãocolocadas a serviço da comunidade, não possuem um caráter anti-social erepresentam um elo entre o universo profano e o sagrado. É uma das formas nasquais os homens penetram no mundo dos espíritos, no conhecimento esotérico.Segundo ele, negar o uso de plantas de poder em um grupo cultural “é o mesmo quenegar a validade a um enorme e diversificado conjunto de crenças culturais, pelosimples fato de não partilharmos de tais crenças. E, essa tem sido sempre a primeirareação que parte do senso comum, contaminado certas abordagens que trazem,mesmo de forma dissimulada, a marca da visão etnocêntrica” (Op. cit.31-32).Entendo que a disciplina histórica vista através de uma ótica plural pode ampliar as discussões teórico-metodológicas sobre grupos que usam plantas de poder. Estetrabalho deve ser encarado de forma interdisciplinar permitindo a aproximação comoutras áreas de conhecimento, dentre elas, a antropologia. Penso que a importânciado estudo está voltada para as formas através das quais determinadas culturas fazemuso das substâncias psicoativas de forma sacralizada, isto é, como determinam o seumundo, como o constroem simbolicamente e como resignificam constantemente esseuniverso.Estudar plantas de poder dentro do campo da história constitui uma propostanova de perceber que é possível uma História Cultural de Plantas de Poder. Umapesquisa como esta demonstra a importância metodológica que a antropologia nos dásobre temas não trabalhados no cotidiano da disciplina histórica. Estes novos objetospensados sob a ótica da História Cultural tem como conceito fundamental arepresentação (Hunt, 1992:16-18).Para trabalhar com as representações do mundo social é preciso demonstrar deque forma estas foram construídas pelo grupo estudado (Chartier, 1990:17), o que
1[1]
Mestre em Antropologia Social - Unicamp; doutorando em História Social - Unicamp.
 
significa analisar a construção da Barquinha através de seu espaço. Portanto, asrepresentações devem ser encaradas como construções culturais que estão sujeitas amodificações no tempo e no espaço, o que nos remete as metáforas de “Cosmologiaem Construção e Eco Simbólico”.
PRIMEIROS MOMENTOS DA CONSTRUÇÃO
O Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz foi criado nadécada de 40 por Daniel Pereira de Mattos na zona rural de Rio Branco e hoje situa-se no bairro de Vila Ivonete na capital do estado do Acre.Ainda são bastante obscuros os dados acerca da vida de Mestre Daniel. Sabe-se oficialmente que ele nasceu no dia 13 de julho de 1888 na cidade de São Luís - MA.Ainda criança foi ligado a Marinha e foi, possivelmente, “laçado”, isto é, pego narua e levado para uma escola de aprendizes da Marinha. A partir disto, as entrevistassugerem uma série de hipóteses acerca da vida deste homem. Alguns alegam queDaniel pertenceu à Marinha de Guerra, entretanto, outros informantes comentaram ofato dele ter pertencido à Marinha Mercante.Homem habilidoso, foi bastante citado em entrevistas como um indivíduo quesabia desempenhar doze tarefas: construtor naval, cozinheiro, músico, barbeiro,alfaiate, carpinteiro, marceneiro, artesão, poeta, pedreiro, sapateiro e padeiro.Ao chegar em Rio Branco, trabalhou como barbeiro no bairro 6 de Agosto, ondetambém residiu. Logo após, passou a morar em um bairro próximo ao centro dacidade, conhecido até os dias atuais como bairro do Papôco. Este espaço situa-se àsmargens do rio Acre e era bastante freqüentado por navegantes que por ali passavam,sendo também famoso por ser uma zona de prostituição (Araújo Neto, 1995:17-18).Daniel foi descrito como um grande boêmio da cidade de Rio Branco. Bebia,fumava, fazia composições musicais que falavam de paixão, de amor e busca pelamulher desejada. Muitas vezes, em virtude do estado de embriaguês, dormia aorelento. Em suas saídas deslizava canções em seu violão. Músicas que fluíam pelosdedos e boca a paixão pela noite, pelas serenatas que embriagavam os homens decanções e cachaça.Ao retornar de uma festa resolveu descansar em um lugar conhecido por poçodas cobras. Bêbado, chegou a receber uma revelação na qual dois anjos desciam docéu e lhe entregavam um livro de cor azul. Esta visão foi desconsiderada a princípio.Este fato marca a iniciação de Daniel para líder espiritual e foi concretizado apartir do momento em que se encontrou enfermo, com problemas de fígado,ocasionados pelo abuso do álcool. Sabendo da gravidade da doença de seuconterrâneo, Raimundo Irineu Serra, líder religioso do CICLU (Centro de IluminaçãoCristã Luz Universal) e o sistematizador da doutrina daimista, convidou-o a fazer umtratamento espiritual através da do “daime”. O tratamento teve início em 1936, sendointerrompido por Daniel quando se encontrou melhor de saúde. Voltou a beber novamente e novamente doente, foi chamado por Irineu para fazer um novotratamento no CICLU, onde teve a revelação da missão religiosa que por ele deveriaser efetuada.Esta revelação já havia aparecido em duas outras oportunidades, uma delasretrata um episódio entre a colônia Custódio Freire, local de tratamento do enfermo e azona urbana de Rio Branco, pois cansado, adormeceu a margem de um igarapé ondeteve um sonho, idêntico ao primeiro episódio onde este estava sob o domínio doálcool, ou seja, a descida do céu de dois anjos que lhe entregaram um livro de cor azule falavam no cumprimento de uma missão.A visão do livro azul por Daniel pode ser encarada como o primeiroensinamento da doutrina desta religião. Cada página deste livro foi e continua sendo
 
instruções recebidas e essas mensagens ligam-se à cor do livro, o azul, representandoo céu, de onde provém revelações de entidades santificadas.
A CAPELINHA DE SÃO FRANCISCO
Daniel começou os trabalhos espirituais com o uso do Daime em um seringalpor nome de Santa Cecília, que pertencia ao amigo Manoel Julião de Souza.Nestas terras Daniel construiu uma casinha rústica de taipa e paus roliços,semelhante a uma pequena casa de seringal. Lá ele recebia salmos que eramconsiderados instruções provenientes de outros planos sagrados.
2[2]
Neste espaçocomeçou o seu trabalho de atendimentos por ele designados de “Obras de Caridade”.No início estes atendimentos eram realizados em crianças e adultos, especificamenteos caçadores da região com os membros de suas famílias. Pouco tempo depois,moradores da zona urbana de Rio Branco passaram a procurá-lo.A morte simbólica de Daniel não serviu unicamente para estabelecer a suaprópria perfeição espiritual, mas serviu e continua servindo para a salvação dasdemais pessoas que porventura procurem os trabalhos daquela casa.O local de fundação da Barquinha nos seus primórdios era designado decapelinha
3[3]
por Mestre Daniel e conhecido por Capelinha de São Francisco peloshabitantes da cidade de Rio Branco, pelo fato de São Francisco ser um dos principaismentores da casa.O número de freqüentadores dos trabalhos espirituais do centro no início erabastante reduzido. Pessoas humildes que por problemas de saúde, alcoolismo e/ oufamiliares recorriam a Mestre Daniel com o intuito de resolvê-los.
A “MORTE” E OUTROS CAMINHOS PARA A VIDA
Foi em 1957 que Mestre Daniel começou a preparar a irmandade do CentroEspírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz para uma viagem que deveriafazer brevemente. Era um tipo de viagem ambígua, considerado por alguns um retornopara a sua terra natal, São Luís do Maranhão. Mas foi pensado por outros como a suapossível desencarnação, já que o mesmo se encontrava há algum tempo enfermo comum problema iniciado em sua garganta, que se agravou em 1958.Os seus trabalhos tiveram duração de doze anos e a sua trajetória na missão foimarcada no início e no final pela doença. Com a sua primeira “morte” é criado o CentroEspírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz, enquanto local de preparaçãodas pessoas para a desencarnação deste plano; a segunda “morte” foi o seu encontrocom a eternidade e a continuidade da vida para os seus seguidores.Daniel desencarnou (“morreu”) no interior da casinha de feitio do daime no dia08 de setembro de 1958, às 18:30h, no início da romaria de São Francisco dasChagas. Seu corpo foi colocado no interior da igreja, sobre a mesa de concreto queainda estava em fase de construção.
 TRÊS SÍMBOLOS FUNDANTES / TRÊS MISTÉRIOS
2[2]
Por eles denominados de invisível.
3[3]
Nunes Pereira na sua obra “A Casa das Minas” dedica um ítem a este centro, atestando que acapela foi construída em uma pequena “fazenda” que segundo ele pertencia ao senhor Manuel Antãoda Silva - sendo que nas narrativas orais todos foram unânimes em afirmar que as terras pertenciam aosenador Manoel Julião de Souza. Segundo ele, o braço direito para a construção da capela foi EliasKemer, pessoa bastante citada nas entrevistas e um dos primeiros membros do lugar. Além dissoreconhece Daniel como fundador da Barquinha, afirmando que ele foi ligado a mãe-de-santo conhecidapor Joana. Este último dado é bastante curioso, tendo em vista que nenhum dos meus informantesmencionou este fato. Entretanto, não tenho material suficiente para comprovar este argumento deNunes Pereira (Nunes Pereira, 1979:39).

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...