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IX JORNADAS SOBRE ALTERNATIVAS RELIGIOSAS NA AMÉRICA LATINAInstituto de Filosofia e Ciências Sociais – UFRJRio de Janeiro, 21 a 24 de Setembro de 1999Tema central: Sociedades e Religiões
O BAILADO DA BARQUINHA: CONSIDERAÇÕES ACERCA DE LAZER ETRABALHO EM UMA RELIGIÃO USUÁRIA DE AYAHUASCAWladimyr Sena Araújo1 INÍCIO DA CONSTRUÇÃO DA BARCA
 O Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz, conhecidopopularmente como Barquinha, foi criado na década de 40 por Daniel Pereira deMattos na zona rural de Rio Branco, capital do Estado do Acre, na Amazôniabrasileira. Hoje este espaço situa-se no bairro de Vila Ivonete e conta com cercade 500 praticantes.Ainda são bastante obscuros os dados acerca da vida de MestreDaniel. Sabe-se oficialmente que ele nasceu no dia 13 de julho de 1888 na cidadede São Luís - MA..
 Ainda criança, foi levado para uma escola de aprendizes da Marinha. A partir de então, as entrevistas sugerem uma série de hipótesesacerca da vida deste homem. Alguns alegam que Daniel pertenceu àMarinha de Guerra, entretanto, outros informantes comentaram o fatodele ter pertencido à Marinha Mercante.
Homem habilidoso, foi bastante citado em entrevistas como um indivíduo quesabia desempenhar doze tarefas: construtor naval, cozinheiro, músico, barbeiro,alfaiate, carpinteiro, marceneiro, artesão, poeta, pedreiro, sapateiro e padeiro.Ao chegar em Rio Branco, trabalhou como barbeiro no bairro 6 de agosto,onde também residiu. Logo após, passou a morar em um bairro próximo ao centroda cidade, conhecido até os dias atuais como bairro do Papôco. Este espaçositua-se às margens do rio Acre e era bastante freqüentado por navegantes quepor ali passavam, sendo também famoso por ser uma zona de prostituição(Araújo Neto, 1995:17-18).Daniel foi descrito como um grande boêmio da cidade de Rio Branco. Bebia,fumava, fazia composições musicais que falavam de paixão, de amor e buscapela mulher desejada. Muitas vezes, em virtude do estado de embriaguez, dormiaao relento. Em suas saídas deslizava canções em seu violão. Músicas que fluíampelos dedos e boca a paixão pela noite, pelas serenatas que embriagavam oshomens de canções e cachaça.Encontrou-se enfermo, com problemas no fígado, ocasionados pelo abuso doálcool. Sabendo da gravidade da doença, Raimundo Irineu Serra, líder religiosodo CICLU (Centro Eclético de Fluente Luz Universal) e o sistematizador dadoutrina daimista, convidou-o a fazer um tratamento espiritual através do daime.O tratamento teve início em 1936, sendo interrompido por Daniel quando seencontrou melhor de saúde. Voltou a beber e novamente doente, foi chamado por Irineu para dar continuidade ao tratamento já iniciado. Durante este processo,Daniel teve uma revelação da missão religiosa que por ele deveria ser efetuada.Daniel começou os seus trabalhos em um seringal por nome de Santa Cecília,que pertencia ao amigo Manoel Julião de Souza. Nestas terras Daniel construiu
1Mestre em Antropologia Social e Doutorando em História Social - Unicamp.
 
uma casinha rústica, semelhante a uma pequena casa de seringal. Lá ele recebiasalmos que eram considerados instruções provenientes de outros planossagrados. Neste espaço começou o seu trabalho de atendimentos por eledesignados de “Obras de Caridade”. No início, estes atendimentos eramrealizados em crianças e adultos, especificamente os caçadores da região com osmembros de suas famílias. Pouco tempo depois, moradores da zona urbana deRio Branco passaram a procurá-lo.
NOÇÃO DA BARCA, MAR SAGRADO E LIVRO AZUL
Mestre Daniel tinha, segundo depoimentos, uma relação muito próxima com omar. Grande parte dos salmos do hinário da casa referem-se ao mar, a viagensatravés de uma nau e a seres aquáticos. Acredita-se que a sua história de vidatenha reforçado a proximidade do Centro Espírita e Culto de Oração Casa deJesus Fonte de Luz com a Marinha, sendo um dos principais elementos sagradosa Barquinha.A barca para os seus integrantes tem dois significados: o primeiro é ode que a mesma representa a própria missão deixada por Daniel e a segundaexpressa a viagem de cada um. Esta barca é a viagem de suas vidas e deve ser considerada como uma viagem dentro da grande viagem.Ela tem como característica principal atravessar uma grande travessia,atravessar uma grande tempestade e os homens que nela viajam estão na barcade Deus. Ele é portanto o seu proprietário de direito. Para que a barca não afundeé necessário “trabalhar”, procurando evitar que a Barquinha desapareça mar adentro. Esses trabalhadores vivem em função de seu proprietário e o trabalho éuma dívida que os praticantes tem com ele.2 A embarcação relaciona-se, sobretudo, a barcaças típicas amazônicas queconstantemente cortam os rios daquela região. Esta embarcação conta ainda,segundo eles, com São Francisco das Chagas, Mártir São Sebastião, São José eDaniel Pereira de Mattos, o fundador do espaço. Eles tem como missão conduzir a nau ao encontro de Jesus e, juntamente com os adeptos, procuram evitar tormentas na sua travessia.O Barquinho Santa Cruz, designação apresentada por eles está marcado por instruções provenientes do “invisível” e apresenta na sua trajetória característicasescatológicas.“A viagem nada mais é do que uma provação,onde a água agitada reflete as tentações do mundode ordem mundana. A água se agita porque asociedade humana quebrou determinadas regrasdivinas. As águas marítimas exprimem o sentimentodescontrolado aos seres humanos e o desgosto docriador” (Araújo Neto, 1995:13).A Barquinha, em sua forma mais ampla, continua sendo a missão criada por Daniel Pereira de Mattos, com a finalidade de viajar dentro de três mistérios. Podeser ainda designada de vida na sua mais completa plenitude. Por último, elarepresenta uma longa viagem executada pelos fiéis. São os atos destes praticantesque vão determinar o rumo que o Barquinho Santa Cruz irá tomar.Os marinheiros desta barca, que viajam nos “mistérios” do céu, da terra e do mar são chamados de marinheiros do mar sagrado ou soldados dos exércitos de Jesus.Estas pessoas são assim designadas a partir do momento que recebem o
2Os adeptos acreditam também que a nau é a própria igreja, local de reuniões periódicas do grupo.
 
fardamento. Para a cientista social Vanessa Paskoali (1998), vestir a fardarepresenta antes de tudo uma morte, um rito de iniciação que culmina com aaceitação de regras do grupo. Segundo a sua concepção,“Para os novos membros é fundamental atransformação do modus vivendis a partir doingresso formal ao grupo. (...) A morte não é o fimde uma vida, mas o começo de uma nova. É atransição do desespero e da angústia que sentiaquando chegou ao Centro, ao consolo e aesperança que encontra quando passa a fazer parte, quando é iniciado. (...) Trata-se pois, de umtipo de morte que une corpo e alma, ao invés desepará-los” (Paskoali, 1998:101).3 Quando assumem os trabalhos espirituais da Barquinha, os marinheirosdesempenham tarefas básicas para alcançar um maior grau de luz quandodesencarnarem. Se houver uma preparação aguçada por parte dos fiéis, dizem-lhesque estão promovidos a oficiais e não mais a marinheiros, uma vez que ocupamdentro da hierarquia religiosa, uma posição mais elevada. A Barquinha acaba sendouma escola de preparação de oficiais.Determinadas entidades de luz são chamadas também de oficiais. Estes oficiais,quando chegam para trabalhar usam determinados instrumentos referentes às“forças armadas” tais como lanças, espadas, algemas, cachorros, dentre outros. Osregistros desses instrumentos são revelados nos salmos entoados pelos presentes.Essas “forças armadas”, compostas de entidades de luz são provenientes dos planosdo céu, terra e mar e duelam com entidades trevosas. Logo, a barca, juntamente commarinheiros e oficiais vem a ser um receptáculo de conversão de entidades maléficasem entidades benéficas, desencadeado mar a dentro.4 O mar, na qual navegam esses marinheiros são as águas sagradas, isto é, odaime, daí a denominação mar sagrado. Estas personagens navegam, portanto,sobre as ondas do daime no balanço da barca Santa Cruz.O daime é considerado uma luz. A luz associa-se a revelação, a uma ampliaçãode conhecimentos, e aqueles que navegam sobre as ondas do mar sagradogradativamente vão adquirindo conhecimentos para si e uma sensibilidade maior deenxergar o outro. É quando se percebe a vida nos olhos, o olhar de si no outro e dooutro em si. A revelação é considerada como um processo simbólico deaprendizagem significativo.O daime, enquanto mar sagrado, torna-se uma substância de poder, um elo deligação com o sagrado e um locus de cura. Evidentemente esta “água” não éacessível a qualquer um, a qualquer hora e de qualquer maneira. Por ser sagrada,esta tem que ser usada em um tempo e espaço sacros e para ter direito de usar asubstância, o fiel tem que passar por uma série de provas.Podemos dizer que a água é luz, vida e fonte de rica energia positiva do divino. Odaime é um dos meios de conexão com o sagrado, um dos condutores da troca
3A pesquisa de Paskoali foi realizada no Centro Espírita Daniel Pereira de Mattos. Este local é uma das dissidências do Centro Espíritae Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz.4A junção das “forças armadas” e dos marinheiros do mar sagrado formam os chamados em uma concepção nativa de “SantosExércitos de Jesus”.

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