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Alberto Moravia
CONTOS ERÓTICOS
ALBERTO Moravia nasceu em Roma em 1907 efaleceu na mesma cidade em 1990. Alberto Pincherle, mais tarde Alberto Moravia, pertenciaa uma família culta, de origem judia. Durante a adolescência, uma tuberculose ósseaobrigou-o a um repouso quase absoluto. Tinha 18 anos quando abandonou a clínica deCortina d'Ampezzo com o seu primeiro romance terminado. Mais tarde, colaborou emrevistas de vanguarda e em 1929 publicou as novelas "Os Indiferentes". É autor de dezenasde obras.Para CarmenA COISAMuito querida Nora,Sabes quem encontrei há pouco tempo? A Diana. Lembras-te? Diana, a que andou connoscono colégio das freiras francesas. Diana, a filha única daquele homenzarrão rústico,
 
 proprietário de terras em Maremma. A Diana que nunca chegara a conhecer a mãe, morta aodá-la à luz. A Diana de quem dizíamos que, tão fria, branca, educada, saudável, com oscabelos louros e os olhos azuis e o corpo com formas de estátua, se tornaria numa dessasmulheres insensíveis e frígidas, que talvez ponham no mundo uma ninhada de filhos, mas quenão chegam jamais a conhecer o amor.A recordação da Diana encontra-se curiosamente ligada ao início da nossa relação; e esta, por sua vez, a uma famosa poesia de Baudelaire que "descobrimos" juntas nos nossos tempos decolégio e acerca da qual, hoje como então, nos encontramos em desacordo quanto ao sentidoa atribuir-lhe. A poesia é "Mulheres Condenadas". Lembras-te? Em vez de nos apaixonar-mos pelos versos humanitários de Victor Hugo que as irmãzinhas nos aconselhavam, líamos àsescondidas AI florer do rri", com essa curiosidade ardente própria da primeira adolescência(tínhamos ambas treze anos), sempre em busca de alguma coisa que não se sabe ainda o queseja e que, todavia, se pressente como predestinada ao conhecimento. Éramos amigas, muitoamigas, talvez já algo mais do que amigas, embora por certo ainda não amantes, e assim,quase fatalmente (há uma fatalidade também para as leituras), entre tantas poesias deBaudelaire, fomos cair na que tem por título "Mulheres Condenadas". Lembras-te? Fui eu, para dizer a verdade, quem descobriu essa poesia fui eu a ler-ta em voz alta e a explicar-te oseu sentido, apoiando-me prontamente nos pontos, por assim dizer, essenciais. Estes eram,sobretudo, dois. O primeiro, na estrofe: "Os meus beijos são leves como as borboletas / queafloram à tarde os grandes lagos transparentes, / os do teu amante cavar-te-iam rugas / comotrilhos de carro ou cascos de cavalo"; o segundo, na estrofe: "Maldito seja para sempre osonhador inútil / que primeiro quis, na sua estupidez / vangloriando-se de uma questãoinsolúvel e estéril, / misturar as coisas do amor e da moral". Aqui, como vês na primeiraestrofe, surge privilegiado o amor homossexual, tão delicado e afectuoso em contraste com oamor heterossexual brutal e grosseiro; e na segunda, deixa-se o terreno limpo dos escrúpulosmorais, que nada têm a ver com as coisas do amor. Claro que eu própria, que te explicava osentido da poesia, captava muito imperfeitamente o alcance das duas estrofes; mascompreendia, apesar de tudo, o bastante para as escolher entre todas as outras, como as maissusceptíveis de favorecerem a minha paixão por ti. Para dizer a verdade, esta paixão, hoje tãoexclusiva e tão conscient" de si própria, teve um começo confuso. Foi, de facto, para a Dianaque, num primeiro momento, orientei as minhas atenções. Como talvez te recordes quandohavia exames da parte da manhã, as alunas externas passavam, também elas, a noite anterior no colégio. Diana, que habitualmente passava a noite em casa, ficou, numa dessas ocasiões, adormir no colégio e o acaso quis que a sua cama ficasse ao lado da minha. Não hesitei mais,se bem que fosse a primeira vez; exigiam-no os meus sentidos e obedeci. Assim, depois deuma longa espera ansiosa, levantei-me da cama e, num pulo, alcancei a cama da Diana,levantei-lhe os cobertores e insinuei-me por baixo dos lençóis, cingindo-me imediatamente aela, num abraço lento e irresistível, tal como uma serpente que, sem pressa, envolve nos seusanéis os ramos de uma bela árvore. Diana certamente despertou, mas, um pouco pelo seucarácter entorpecido e passivo e um pouco, talvez, por curiosidade, fingiu continuaadormecida e deixou-me avançar. Digo-te sinceramente, mal me dei conta de que Diana parecia assentir, experimentei o mesmo impulso voraz de uma faminta frente à presa: tinhavontade de a devorar com beijos e carícias. Mas, logo a seguir, impus-me uma espécie deordem e comecei a percorrer arrastadamente o seu corpo, deitado de costas e inerte, de cima a baixo: da boca que toquei com os meus lábios (o meu desejo, para quê negá-lo?, era pelaoutra" boca) ao seio que destapei e beijei compenetrada; dos seios ao ventre, onde a minhalíngua, lesma apaixonada, deixou um lento traço húmido; do ventre para baixo, até ao sexo,alvo supremo e último daquela minha deambulação, o sexo que pus à minha mercê,agarrando os joelhos da Diana com as duas mãos e abrindo-lhe as pernas. Ela continuou afingir-se ensonada e eu lancei-me com maior avidez sobre o meu alimento de amor, sem
 
abrandar senão quando as coxas dela se apertaram convulsivamente no meu rosto, como amordedura de uma ratoeira de fresca e bem musculada carne jovem.O meu ardor, porém, deparou com os limites da minha inexperiência. Hoje, depois de ter suscitado o orgasmo de uma amante, voltaria a fazer o caminho inverso; do sexo ao ventre,do ventre aos seios, dos seios à boca e abandonar-me-ia, após tanto furor, à doçura de umabraço meigo. Mas eu era ainda inexperiente, não sabia ainda amar e, depois temia ser surpreendida por alguma freira que estivesse de vigia ou de alguma aluna insone. Assim, saíde junto da Diana pelos pés da cama e, sempre às escuras, voltei para a minha. Estavaarquejante, tinha a boca cheia de suaves humores de sexo, sentia-me feliz. Mas, no diaseguinte, esperava-me uma surpresa que, no fundo, teria podido prever, após o obstinadosono fingido da primeira amante da minha vida: quando me viu Diana comportou-se como senada, entre nós, tivesse acontecido; fria e serena como de costume, manteve todo o dia umaatitude não hostil nem perturbada, apenas completa e perfeitamente indiferente. Chegou anoite e ficámos de novo as duas em camas ao lado uma da outra; a uma hora já tardia, deixo aminha cama para entrar na da Diana. Mas a rapariga, robusta e atlética, está acordada.Quando tento insinuar-me entre os seus lençóis, um sacão violento repele-me e faz-me cair  por terra. Nesse momento, tive como que uma espécie de iluminação. A tua cama ficavatambém junto da da Diana, mas do outro lado. Disse para comigo, de repente, que tu não podias ter deixado de ouvir, na noite anterior, o tumulto do meu ruidoso amor e que, assim,estarias agora "à minha espera". Foi com a segurança de quem se dirige para um encontro prometido que me arrastei até à tua cabeceira. Como previra, não me repelistes. Foi assim quecomeçou o nosso amor.Voltámos então a Baudelaire. Tornámo-nos amantes, mas com certas precauções, a quechamarei rituais, por tua vontade, porque continuavas um pouco hesitante e amedrontada.Pediste-me e eu, para te agradar, aceitei que fizéssemos amor somente em duas ocasiões precisamente definidas: no colégio, de noite, todas as raras vezes que lá dormíamos, ou emminha casa, quando a tua mãe, uma viúva bonita e mundana, saía de Roma no fim de semana,na companhia do amante, e te permitia então que viesses dormir na minha companhia. Salvoestas duas ocasiões, as nossas relações deveriam ser castas. Assim, embora aceitando-o, nãocompreendia tão singular planeamento; depois, com o passar do tempo, compreendi: estavasobcecada por aquela moral de que fala Baudelaire e, para adormeceres o teu sentimento deculpa, querias que entre nós as duas acontecesse como num sonho sonhado entre dois sonos,em minha casa ou no colégio. Mas, do mesmo modo, nunca te habituaste completamente ànossa relação, nunca a aceitaste no fundo como um modo de vida estável e definitivo. E aquiquero citar uma vez mais Baudelaire, que, numa outra estrofe, fornece uma perfeita descriçãoda tua atitude para comigo. Eis a estrofe: "As indolentes lágrimas dos olhos fatigados / o ar alquebrado, o transe, a volúpia baça / os braços vencidos abandonados como armas vãs / tudocontribuía para o fascínio da sua beleza frágil. / Estendida a seus pés, calma e cheia dealegria, / Delfina chocava-a com olhos ardentes, / como um animal forte que vigia a presa /depois de a ter marcado com os seus dentes".A teu ver, eu seria Delfina, a tirana, a calma e cheia de alegria", e tu Hipólita, a pobre criaturadevastada pelo meu desejo, a presa "marcada" pelos meus dentes. Esta ideia bizarrainspirava-te um medo invencível que, uma vez mais, Baudelaire descreveu na perfeição:"Sinto abaterem-se sobre mim pesados terrores / e destacamentos obscuros de fantasmasconfusos / querendo arrastar-me por caminhos de errança / rodeados por toda a parte dehorizontes sangrentos". Tudo isto, realmente, é dito de uma maneira romântica, segundo ogosto da época, mas espelha bastante bem a aspiração à chamada "normalidade" que teobcecava, dois anos depois do começo do nosso amor. Curiosamente, essa aspiração assumiuem ti um sentimento violento de insatisfação perante a virgindade. Eu era virgem, como aindahoje sou, graças a Deus, e não sentia a menor insatisfação por causa dessa condição natural,
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