proprietário de terras em Maremma. A Diana que nunca chegara a conhecer a mãe, morta aodá-la à luz. A Diana de quem dizíamos que, tão fria, branca, educada, saudável, com oscabelos louros e os olhos azuis e o corpo com formas de estátua, se tornaria numa dessasmulheres insensíveis e frígidas, que talvez ponham no mundo uma ninhada de filhos, mas quenão chegam jamais a conhecer o amor.A recordação da Diana encontra-se curiosamente ligada ao início da nossa relação; e esta, por sua vez, a uma famosa poesia de Baudelaire que "descobrimos" juntas nos nossos tempos decolégio e acerca da qual, hoje como então, nos encontramos em desacordo quanto ao sentidoa atribuir-lhe. A poesia é "Mulheres Condenadas". Lembras-te? Em vez de nos apaixonar-mos pelos versos humanitários de Victor Hugo que as irmãzinhas nos aconselhavam, líamos àsescondidas AI florer do rri", com essa curiosidade ardente própria da primeira adolescência(tínhamos ambas treze anos), sempre em busca de alguma coisa que não se sabe ainda o queseja e que, todavia, se pressente como predestinada ao conhecimento. Éramos amigas, muitoamigas, talvez já algo mais do que amigas, embora por certo ainda não amantes, e assim,quase fatalmente (há uma fatalidade também para as leituras), entre tantas poesias deBaudelaire, fomos cair na que tem por título "Mulheres Condenadas". Lembras-te? Fui eu, para dizer a verdade, quem descobriu essa poesia fui eu a ler-ta em voz alta e a explicar-te oseu sentido, apoiando-me prontamente nos pontos, por assim dizer, essenciais. Estes eram,sobretudo, dois. O primeiro, na estrofe: "Os meus beijos são leves como as borboletas / queafloram à tarde os grandes lagos transparentes, / os do teu amante cavar-te-iam rugas / comotrilhos de carro ou cascos de cavalo"; o segundo, na estrofe: "Maldito seja para sempre osonhador inútil / que primeiro quis, na sua estupidez / vangloriando-se de uma questãoinsolúvel e estéril, / misturar as coisas do amor e da moral". Aqui, como vês na primeiraestrofe, surge privilegiado o amor homossexual, tão delicado e afectuoso em contraste com oamor heterossexual brutal e grosseiro; e na segunda, deixa-se o terreno limpo dos escrúpulosmorais, que nada têm a ver com as coisas do amor. Claro que eu própria, que te explicava osentido da poesia, captava muito imperfeitamente o alcance das duas estrofes; mascompreendia, apesar de tudo, o bastante para as escolher entre todas as outras, como as maissusceptíveis de favorecerem a minha paixão por ti. Para dizer a verdade, esta paixão, hoje tãoexclusiva e tão conscient" de si própria, teve um começo confuso. Foi, de facto, para a Dianaque, num primeiro momento, orientei as minhas atenções. Como talvez te recordes quandohavia exames da parte da manhã, as alunas externas passavam, também elas, a noite anterior no colégio. Diana, que habitualmente passava a noite em casa, ficou, numa dessas ocasiões, adormir no colégio e o acaso quis que a sua cama ficasse ao lado da minha. Não hesitei mais,se bem que fosse a primeira vez; exigiam-no os meus sentidos e obedeci. Assim, depois deuma longa espera ansiosa, levantei-me da cama e, num pulo, alcancei a cama da Diana,levantei-lhe os cobertores e insinuei-me por baixo dos lençóis, cingindo-me imediatamente aela, num abraço lento e irresistível, tal como uma serpente que, sem pressa, envolve nos seusanéis os ramos de uma bela árvore. Diana certamente despertou, mas, um pouco pelo seucarácter entorpecido e passivo e um pouco, talvez, por curiosidade, fingiu continuar adormecida e deixou-me avançar. Digo-te sinceramente, mal me dei conta de que Diana parecia assentir, experimentei o mesmo impulso voraz de uma faminta frente à presa: tinhavontade de a devorar com beijos e carícias. Mas, logo a seguir, impus-me uma espécie deordem e comecei a percorrer arrastadamente o seu corpo, deitado de costas e inerte, de cima a baixo: da boca que toquei com os meus lábios (o meu desejo, para quê negá-lo?, era pelaoutra" boca) ao seio que destapei e beijei compenetrada; dos seios ao ventre, onde a minhalíngua, lesma apaixonada, deixou um lento traço húmido; do ventre para baixo, até ao sexo,alvo supremo e último daquela minha deambulação, o sexo que pus à minha mercê,agarrando os joelhos da Diana com as duas mãos e abrindo-lhe as pernas. Ela continuou afingir-se ensonada e eu lancei-me com maior avidez sobre o meu alimento de amor, sem
Leave a Comment