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QUIJANO%2C+an%C3%ADbal+ +Dom+Quixote+e+Os+Moinhos+de+Vento+Na+Am%C3%A9rica+Latina

QUIJANO%2C+an%C3%ADbal+ +Dom+Quixote+e+Os+Moinhos+de+Vento+Na+Am%C3%A9rica+Latina

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E
STUDOS
 A 
 VANÇADOS 19 (55), 2005
7
 
D
ossiê América Latina
 
E
STUDOS
 A 
 VANÇADOS 19 (55), 2005
9
QUE
 
HOJE
 
DENOMINAMOS
América Latina constituiu-se junto com e comoparte do atual padrão de poder mundialmente dominante. Aqui se confi-
guraram e se estabeleceram a colonialidade e a globalidade
1
como fun-
damentos e modos constitutivos do novo padrão de poder. Daqui partiu o pro-cesso histórico que definiu a dependência histórico-estrutural da América Latinae deu lugar, no mesmo movimento, à constituição da Europa Ocidental comocentro mundial de controle desse poder. E nesse mesmo movimento, definiutambém os novos elementos materiais e subjetivos que fundaram o modo deexistência social que recebeu o nome de modernidade.Em outros termos, a América Latina foi tanto o espaço original como otempo inaugural do período histórico e do mundo que ainda habitamos. Nessesentido específico, foi a primeira entidade
/
identidade histórica do atual sistema-mundo colonial
/
moderno e de todo o período da modernidade. No entanto,da sede e do momento de onde surgiu este momento histórico, da fonte originaldos elementos básicos da nova sociedade mundial foram despojados o seu lugar
D
om Quixote e os moinhosde vento na América Latina
 A 
NÍBAL 
UIJANO 
O
Foto Alejandra Brun/Agência France Presse
25.10.2004
Mulheres 
da região de Huancavelic protestam em Lima contra o conflito armado no Peru.
 
E
STUDOS
 A 
 VANÇADOS 19 (55), 2005
10
central, assim como os atributos e os frutos da modernidade. Desse modo, nemtodas as novas potencialidades históricas alcançaram seu pleno desenvolvimentona América Latina, nem o período histórico, nem a nova existência social nomundo chegaram a ser plenamente modernos. Ambos, enfim, se definiram en-tão e se reproduzem hoje como colonial
/
modernos
2
. Por quê?
Dom Quixote e os moinhos de vento da América Latina
 Afirma Junichiro Tanizaki
3
, comparando as histórias da Europa e do Ja-pão, que os europeus tiveram a felicidade de que sua história se desenvolvesse emetapas, cada uma delas derivada das transformações internas da anterior, enquan-to no Japão, em particular desde a Segunda Guerra Mundial, sua história, isto é,o sentido dela, foi alterada a partir de fora pela superioridade militar e tecnológica“ocidental”. Essa reflexão admite como válida a perspectiva eurocêntrica e seucaracterístico olhar evolucionista, testemunhando assim a hegemonia mundialdo eurocentrismo como modo de produção e de controle da subjetividade e, emespecial, do conhecimento. Mas, na própria Europa Ocidental, tal perspectiva émais exatamente uma marca da tardia hegemonia intelectual de suas regiões docentro-norte, e é por isso alheia e contrária à herança de Dom Quixote. No
400
ºaniversário desse livro fundador, é tempo de voltar a essa herança. A fabulosa cena na qual Dom Quixote arremete contra um gigante e éderrubado por um moinho de vento é, seguramente, a mais poderosa imagemhistórica de todo o período da primeira modernidade: o des/encontro entre, deum lado, uma ideologia senhorial, cavalheiresca – a que habita a percepção deDom Quixote –, à qual as práticas sociais já não correspondem senão de modofragmentário e inconsistente e, de outro, novas práticas sociais – representadaspelo moinho de vento – em vias de generalização, mas às quais ainda nãocorresponde uma ideologia legitimadora consistente e hegemônica. Como diz a velha imagem, o novo não acabou de nascer e o velho não terminou de morrer.Na verdade, todo o livro é atravessado por esse des
/
encontro: o novosenso comum que emergia com o novo padrão de poder produzido com a Amé-rica, com seu pragmatismo mercantil e seu respeito pelo “poderoso CavaleiroDom Dinheiro” (Quevedo
dixit 
), não é ainda hegemônico, nem está ainda con-sistentemente constituído, e no entanto já ocupa um lugar crescente na mentali-dade da população. Isto é, já disputa a hegemonia com o sentido cavalheiresco,senhorial, da existência social. E este, embora cedendo lugar e, de diferentesmodos e medidas segundo quem e onde esteja implicado, ainda está ativo, habi-ta, não deixou de habitar, a subjetividade de todos, e resiste a perder sua prolon-gada hegemonia.O que é indispensável observar, no contexto específico da futura Espanhadesse momento, é que nenhuma daquelas perspectivas de sentido pode existir,nem configurar-se, separada e depurada da outra. Aquela intersubjetividade nãopodia não ser, nem deixar de ser, senão um impossível no princípio, mas inevitá- vel na prática, amálgama de pragmatismo mercantil e de visões cavalheirescas.

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