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Os Idiotas Confessos

Os Idiotas Confessos

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11/01/2012

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Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tãocristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — oprimeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. Nopassado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, osfamiliares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cegopara o óbvio ululante.
Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Umasanta! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro asaber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe.Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc.Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E umadas cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de umaautoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou umquadrúpede!. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou umquadrúpede de 28 patas!. Não precisara beber para essa extroversão triunfal.Era um límpido, translúcido idiota.E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis.Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todoseram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena eseletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”.Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o atopolítico, o pensamento político, a decisão política, o crime político.Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua,deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice.Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”,só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca oidiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia atéao Maria, a desgraçada.Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodaçãoentre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar,agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ouquatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho ointelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santasenhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foramem maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — avergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testaro poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisouuma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. Amultidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, umamassa de meio milhão.Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, umpequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiotaindubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros,

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