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A I Guerra do Golfo, há pouco mais de umadécada, foi celebrada como a marca da nova ordemmundial do pós Guerra ria: o modelo democráticoliberal do Ocidente consubstanciar-se-ia, no planointernacional, na adoção da segurança coletiva,chancelada pela Organização das Nações Unidas.Desta forma, encerrar-se-ia definitivamente a antigadivisão espacial do mundo para o espraiamento e aconsolidação de uma sociedade internacional,fundamentada em princípios político-econômicosemanados da principal potência do século XX: osEstados Unidos, vencedores dos três grandes conflitos I e II Guerras Mundiais e Guerra ria.Todavia, o fim do império soviético punhaem cena uma questão nova no cenário mundial: aextinção de um Estado opositor desconsiderando apermanência da China, nominalmente comunista,mas gradativamente absorvendo o modelo capitalistade produção ensejou obrigatoriamente a progressivaaceitação de um adversário imaterial, ou seja, umprincípio ou uma visão de mundo que poderia,transitoriamente, localizar-se em um ou mais países,sem fixar-se, necessariamente, nele(s).Isto decorreu do malogro de possíveis novosconfrontantes dos Estados Unidos como o Japão,promessa da década de 80, que estacionou nosanos 90; a Alemanha, imersa em seu processo derefundação, que não pôde contemplar a emergênciade um novo império; a rança que, apesar de suapostura de independência, aceitou parceiros, tanto noâmbito europeu, com a Alemanha, como nomultilateral, com os Estados Unidos na I Guerra doGolfo; e, por fim, a Rússia, simulacro da antiga UniãoSoviética, que ostentou glórias passadas projetadasde forma trêmula no presente.Com tal conjuntura, os Estados Unidos conver-teriam seus desígnios em objetivos internacionais,
II Guerra do Golfo: a inconformação da nova ordem mundial
Virgílio Caixeta Arraes*
almejando a obtenção de uma duradoura harmoniade interesses, apenas com o compartilhamento departe do exercício do poder, reproduzindo em escalamais ampliada a forma utilizada, há décadas, com aGrã-Bretanha. Esta postura seria incorporada peladupla gestão democrata nos anos 90, com Clinton.Seu relativo sucesso permitiria propagar oneoliberalismo, por exemplo, como o melhor modode desenvolvimento tanto para a América Latina comopara a Europa Oriental. Haveria, no 1º Mundo, aformação de um
modus vivendi
comum codificadona 3ª Via, talhada especialmente para ter umaflexibilidade que pudesse agregar trabalhistasbritânicos, socialistas franceses, socialdemocratasalemães, socialistas espanhóis, esquerdistas italianos,socialdemocratas brasileiros e democratas norte-americanos.Destarte, com tal consenso, os Estados Unidospartiriam, de modo persuasivo, para a construção deuma nova legitimidade internacional, em que posturaspolíticas e econômicas seriam atingidas por adesãocrescente e não por obediência, advinda de ameaçasou de temores diretos.Entretanto, talvez, na ausência de um país àsua altura, a busca pela liderança internacional seriasubstituída pela aspiração à hegemonia, ao efetuar-se a troca, por margem mínima na eleição presidencialde 2000, de democratas por republicanos, os quaisaplicariam padrões de comportamento do período daGuerra ria, de cunho dicotômico, à nova ordem pósbipolar. A princípio, a mudança de procedimento aindaamealharia apoio, como no caso do confronto com oAfeganistão, a cuja culpa se atribuiu o atentadoterrorista de 2001. Posteriormente, na ausência deum Estado que personificasse robustamentedeterminado conceito ou ideologia consideradonegativo, a coesão ocidental lentamente se desfaria,
* Professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).
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