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A diplomacia brasileira cultivou uma tradição deforte envolvimento com o multilateralismo. Noimediato pós-guerra, entre 1945 e 1949, suacontribuição foi importante para construção dosistema multilateral, na área econômica, o sistemaBretton Woods, na área política, o sistema das NaçõesUnidas, e na área militar, o sistema de aliançasocidentais, que teve início com o TratadoInteramericano de Assistência Recíproca. Nas décadasde 1960 a 1980 esforçou-se por reformar essessistemas mediante a Nova Ordem EconômicaInternacional, que se discutia, na ONU, especialmentena UNCTAD. De 1990 ao presente, abandonou a idéiade reformar a ordem internacional e optou por atuardentro dela, consoante suas regras e possibilidades.A década de 1960 introduziu o tema dodesenvolvimento na agenda internacional, a décadade 1990, a chamada Década das Conferências (verJosé Augusto Lindgren Alves,
RelaçõesInternacionais e temas sociais: a década dasConferências,
Brasília: IBRI, 2001), introduziu ostemas sociais. Ambos foram reivindicações históricasdos governos brasileiros.O multilateralismo dos temas sociais não seesgota, contudo, nas Conferências promovidas pelasNações Unidas. Em sua dimensão global, há órgãosque fixam as regras do jogo, como a OrganizaçãoMundial de Comércio. O fórum social de Porto Alegree mesmo o de Davos serviu de palco à campanhaglobal de combate à fome e à pobreza de Luiz InácioLula da SilvaAs expectativas brasileiras acerca da capacidadedo multilateralismo em contribuir para melhoria dascondições sociais evoluíram, de 1990 a nossos dias,do entusiasmo à decepção, chegando ao realismo domomento presente. Examinemos dois momentos eduas tendências: a era Cardoso com seu idealismo, ogoverno Lula e o realismo.
1. Do idealismo à decepção: 1990 a 2002
As relações internacionais do Brasil foramdominadas durante a década de 1990 pelopensamento e pela ação de Fernando HenriqueCardoso. Esse presidente passou à sua diplomacia aconvicção de que o mundo entrava em uma era derenascimento e bem-estar para todos os povos. Talcondição seria alcançada, sobretudo, pela ação dosórgãos e Conferências multilaterais. A diplomaciabrasileira colocou o melhor de suas forças naconstrução de uma ordem internacional ideal.Uma visão kantiana, de um mundo ideal, feitode paz, harmonia e cooperação, presidiu a atuaçãodas delegações brasileiras junto aos órgãosmultilaterais. O objetivo síntese era o de produzir“regras justas, transparentes e respeitadas por todos”,expressão comum da linguagem diplomática.Cardoso esperava que a ordem mundial perfeitada época da globalização resultasse das iniciativasmultilaterais. O comércio seria regulado pela OMC,de modo a manter o bem-estar dos ricos e proveremprego, renda e desenvolvimento para os pobres.Os fluxos de capital seriam regulados pelo FMI, BancoMundial ou G-7, de modo a evitar a ação predatória econtribuir para o crescimento econômico. A questãoambiental seria equacionada pelas Conferências sobreMeio Ambiente e Desenvolvimento (Rio de Janeiro,1992; Joanesburgo, 2002), suas convenções eprotocolos adicionais. O mundo estaria ao abrigo doConselho de Segurança, que estabeleceria regras claras
A perspectiva brasileira sobre as iniciativas multilateraiscom vistas à responsabilidade social e ecológica
Amado Luiz Cervo*
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Professor titular de História das Relações Internacionais da Universidade de Brasília e Professor do InstitutoRio Branco.
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