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[Joanna Overing] O Fetido Odor Da Morte e Os Aromas Da Vida

[Joanna Overing] O Fetido Odor Da Morte e Os Aromas Da Vida

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09/06/2013

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O fétido odor da morte e os aromas da vida.Poética dos saberes e processo sensorialentre os Piaroa da Bacia do Orinoco
 Joanna Overing Departamento de Antropologia Social – Universidade de St. Andrews 
RESUMO: O povo piaroa, que vive às margens dos afluentes do MeioOrinoco, acredita que o movimento de todo processo corporal participa deuma ordem venenosa e primordial das coisas. Este texto explora a corres-pondência entre os processos sensoriais e cósmicos e as formas do povo piaroa pensar e praticar sua arte culinária. Realiza, assim, uma expedição à etnopoé-tica. O artigo tratará da interação entre dois gêneros narrativos contrastantes– o sublime e o realismo grotesco, tais como usados pelos cantadores xamâ-nicos – para revelar as múltiplas formas com que processos corporais e vida sensorial estão intimamente entrelaçados com os modos de conhecimento. A imagética do sublime evoca as belas faculdades sensuais da parte superiordo corpo, enquanto a imagética do realismo grotesco trata das excreções ve-nenosas e dos orifícios das partes baixas do corpo. Em ambos os gêneros, oprocesso corporal é um operador importante, mas muitas vezes ambíguo,tanto no domínio do conhecimento quanto na perda deste. Para os Piaroa,os modos de saber humanos estão sempre envolvidos com o que é tóxico e,portanto, atrelados aos processos geminados de degeneração e regeneração:o veneno, como agente de transformação, é criador da vida, mas tambémpode ser o seu algoz.PALAVRAS-CHAVE: Amazônia, Venezuela, Piaroa, percepção sensorial,etnopoética, modos de conhecimento.
 
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O
VERING
, J. O
FÉTIDO
 
ODOR 
 
DA 
 
MORTE
 
E
 
OS
 
 AROMAS
 
DA 
 
VIDA 
...
Entre os Piaroa, a arte culinária compreende formas particulares de co-nhecimento que significam igualmente formas específicas de fazer ascoisas – tais como curar doenças ou encher a floresta com animais decaça, preparar refeições e fazer filhos, belas cestas e dardos de zarabatana – e também cantar, rir, compartilhar e cuidar. Um amplo espectro deformas de conhecimento se faz necessário para as artes culinárias, muitoalém das óbvias atividades de pesca, caça, cultivo e preparo de alimen-tos.
1
As artes culinárias incluem todas aquelas habilidades de que os se-res humanos precisam para viver com conforto e saúde, em comunhãocom outros. Mas, acima de tudo, elas incluem o entendimento da cons-ciência social e da inteligência moral. Um nó bem dado é sinal de virtu-de social. Já o nó desleixado advém da frouxidão moral. Comer bem, demaneira civilizada, é algo complicado. Para entender as formas de co-nhecimento dos povos amazônicos, é preciso explorar todo o panorama dos afazeres das artes culinárias. Precisamos da arqueologia dos afazerespara esclarecer as relações que há entre eles. A poética, a estética e a psico-logia dos belos vínculos sociais são formas de conhecimento necessáriaspara a utilização segura das artes culinárias. Sem elas, tais artes se tornamperversas, perturbando o estilo de vida tranqüilo e igualitário que osPiaroa têm como humanamente correto. As artes verbais e as maneirasde rir – ambas ligadas à habilidade de gerar vínculos sociais – não sãotriviais ou fortuitas, mas essencialmente intrínsecas às artes da culinária.
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Embora os Piaroa prezem seu intelecto acima de todas as outras facul-dades (Overing, 1985a), para eles, o agente humano consciente e inten-cional na terra será sempre um ator no mundo (id., 1999). Ser capaz defazer uma coisa bem é conhecê-la. Seus deuses talvez vivam em “torresde marfim”, mas os Piaroa não. O lado físico do intelecto é importante.Por exemplo, é através da corrente sanguínea que os pensamentos cir-culam pelo corpo, provendo cada membro e órgão com inteligência para agir.
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Assim, na medida em que aumenta o conhecimento das artes
 
EVISTA 
 
DE
NTROPOLOGIA 
, S
 ÃO
P
 AULO
, USP, 2006,
. 49
N
º 1.
- 21 -
culinárias, aumentam também a criatividade física e o vigor. Segundoos Piaroa, essa mescla de faculdades pessoais (intelecto, força física e tam-bém emoção) deve-se à história cósmica. É essa inter-relação existencialde intelecto com imaginação moral, aliada à dimensão do sensível, quefaz a prática de sua arte culinária social algo singular e possível.O corolário dessa concepção de inter-relação de faculdades como“formas de conhecimento” não é matéria de simples entendimento.Os povos amazônicos tendem a entender a relação constitutiva das fa-culdades e habilidades pessoais como interminável, impermanente e emeterna transformação.
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Segundo os Piaroa, essas conexões são às vezesbenéficas, saudáveis, criativas e belas; noutras vezes são perigosas, destru-tivas, doentias e feias (Overing, 1989).
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Não há uma maneira linear pela qual nos é possível desvendar como os Piaroa entendem as formas deconhecimento e os perigos de sua prática. O que podemos fazer é pinçaralguns fios para revelar suas múltiplas conexões e apreender sua sínteseeternamente movediça e suas harmonizações ambíguas (ver tambémMentore, neste volume).
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 As charadas que surgem desse pinçar” podem ser inúmeras. Porexemplo, os Piaroa são um povo pacífico, amante da tranqüilidade eque se diz vegetariano – porém, seu xamã entoa em um dos cânticos:“Eu como feito o jaguar!”. Os Piaroa valorizam muito suas faculdadesintelectuais. Porém, o invólucro de seus belos pensamentos são contasfeitas das fezes graníticas do monstro subterrâneo Tapir/Anaconda (Overing, 2004a). Essas contas de conhecimento constituem a bela de-coração interior de cada Piaroa. No entanto, o cérebro dos Piaroa foicriado com o pus da sífilis primordial (id., 1986 e no prelo). Com al-gum temor, começo a arranhar alguns desses fios explorando mais mi-nuciosamente suas artes verbais. Como já mencionei, essas artes verbaispertencem às artes da culinária. Como tais, são uma forma importantede saber (e fazer) para os Piaroa. As artes verbais, assim como as habili-

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