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ISSN 1518-1219
Boletim de Análise de Conjuntura em Relações Internacionais
S
44/45Março  Abril  2004
Virgílio ArraesPaulo Roberto de AlmeidaCristina Soreanu PecequiloWolfgang Döpcke
S U M Á R I O
Thiago GehreAmado Luiz Cervo
 
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A presente dificuldade dos Estados Unidos noIraque emana paradoxalmente como característica doaparente sucesso da nova ordem mundial, iniciadahá cerca de década e meia, pelo próprio país na esteirado encerramento do período bipolar. Basicamente, anova ordem advogava a primazia de três elementos:mercados livres, eleições livres e direitos humanos. Àprimeira vista, seria a afirmação do ser humano comocidadão universal, sem estar mais atreladodefinitivamente a limites territoriais, proporcionandoo ápice da visão cosmopolita de mundo  outroraelitista  do Iluminismo.Todavia, esse tríptico eliminaria aos poucos,como conseqüência, o legado de três séculos e meioda Paz de Vestfália, em que se reconheceria o Estadosoberano, por meio do princípio da autodeterminaçãoe não intervenção, como responsável último pelos seussúditos  posteriormente cidadãos.De fato, a autonomia estatal nunca seria plena,mas, de toda forma, ela facultaria mais recentemente,durante a vigência da bipolaridade, o nascimento dedezenas de novos Estados, que, juridicamente,situavam-se de modo igualitário, por decorrência dacriação da Organização das Nações Unidas e doprocesso descolonizador, principalmente anglo-francês. Na prática, a maioria era quase-Estados, ouseja, instituições incapazes de corresponder àsresponsabilidades estatais históricas, ou seja, as deprover às suas populações segurança e bem-estarmaterial, de forma que ambas as superpotênciasdemonstrar-lhes-iam pouca consideração em relaçãoàs suas soberanias, ao colocá-los sob suas respectivasórbitas como satélites ou periféricos.A nova ordem, ao ser posta como inexorável,significaria para os seus implementadores o fim dahistória, ou seja, a inexistência de alternativas político-econômicas consideradas viáveis à democracianeoliberal, visto que o único remanescente comunistade peso, a China, deslocava gradativamente o eixo desua economia para uma base capitalista. Deste modo,o núcleo transatlântico da aliança neoliberal,acomodada sob a ambigüidade do rótulo de 3ª Via,proclamaria que a existência de paz em um sistemainternacional democrático teria de independer delimites fronteiriços, isto é, limitar-se-iam soberaniasnacionais em nome de direitos humanos, encaradosde forma subjetiva.Internamente, como efeito dos novospostulados, haveria a prescrição de programas deausteridade fiscal e disciplina monetária, commodificações estruturais nos setores administrativo,previdenciário e tributário. Com isso, ter-se-ia aabertura indiscriminada ao capital internacional tantode curto como de longo prazo, bem como o corte desubsídios e incentivos a unidades de produção dospaíses de 3º Mundo, mesmo relativamente bemestruturadas, de modo que estas se submeteriam acompetições, que desaguariam em sua compra, fusãoou simplesmente extinção. Tudo em nome dacompetitividade internacional.Em face de mudanças tão amplas na periferiado sistema internacional, deixaria o Estado de serelemento indutor do desenvolvimento  visto quehistoricamente o capital nacional privado não tevecondições ou interesses para investir em determinadossetores  para ceder lugar ao capital privado
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Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).
O insucesso do modelo norte-americano na nova ordem mundial 
Virgílio Arraes*
 
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internacional, que promoveria os fluxos decrescimento, que solucionariam, sem prazo previsto,as questões ligadas à desigualdade e pobreza.Ante tamanha abertura, as tradicionaiseconomias nacionais dariam lugar a um mercadorealmente global, porque o processo de produção,por meio de corporações transnacionais, seria de fatointernacional, graças aos avanços tecnológicos dasáreas de comunicação e transportes. Assim, osEstados  que, até o passado recente, em função daresponsabilidade de suas circunscrições territoriais,deveriam comportar-se de forma incluível, mesmodeficitária e autoritariamente  conformar-se-iam emaceitar partes de seus territórios como zonas sociaisexcludentes, com desemprego, criminalidade,violência, empobrecimento etc.Tais características seriam vistas pelas instituiçõesneoliberais globais como espaços disfuncionais ousupérfluos, em face de sua baixa adaptação à novadinâmica de desenvolvimento (intern)nacional. OsEstados periféricos implicitamente aceitariam essavisão, ao migrarem de políticas sócio-econômicas decunho universal para programas focalizados, de vernizpaliativo, notadamente insuficientes.Essa incapacidade resultaria na perda damanutenção do monopólio da coerção, ocasionandoa dificuldade ou mesmo impossibilidade de enquadraras áreas socialmente excluídas, que, de quando emquando, tumultuariam o funcionamento regular dasáreas produtoras e consumidoras. Deste modo, a açãoestatal tornar-se-ia rotineiramente reativa, irascível e,no máximo, compensatória, com o estabelecimentode tréguas apenas, visto que, sem ter mais a sualegitimidade moral aceita ou reconhecida, o Estadopassaria a proceder mais e mais violentamente, sob a justificativa do combate incessante ao narcotráfico,a máscara que poderia abarcar ou justificar toda formade repressão tanto a criminosos como ao restante dapopulação excluída.Na face externa da moeda, haveria espaçosgeográficos que, ainda agregados formalmente comounidades soberanas, já seriam apenas reminiscênciasda composição estatal, tornando-se zonas supérfluasdo sistema internacional no processo de globalização.Não seria de surpreender, pois, que neles sedesenvolvessem movimentos  que se aproveitariamda fluidez e dissolução de fronteiras e sentimentosnacionais  para desaguar em instituições que nãovisariam mais à modificação pacífica de elementosdo sistema internacional, mas à sua contestaçãoviolenta. Ganhariam espaço, à medida que a principalpotência elimina os vestígios estatais da velha ordem.A princípio, a visão americana estaria correta,porque os Estados periféricos não poderiam, em facedo seu desmonte ou da desmobilização, oferecerresistência alguma do ponto de vista militar tradicional.Decorreria, então, o otimismo inicial de um semnúmero de possíveis ocupações: primeiramente,Afeganistão; mais tarde, Iraque; por fim, Síria, Líbia,Irã e outros. Não surpreenderiam, pois, as vitóriasiniciais, dada a debilidade estrutural desses Estados.Todavia, tal como o lado interno, a resistênciatenaz adviria do adversário onipresente, ambíguo esem face: o terrorismo transnacional, que seria frutoda fluidez dos limites fronteiriços e da perda dossentimentos nacionais. Assim, diferentemente dasantigas guerrilhas, que aspirariam à formação deEstados ou à tomada de poder institucional, este,caracterizado até o momento na
 Al-Qaeda
, seriaresultado da desestatização, e, portanto, daglobalização.Deste modo, os Estados Unidos enfrentariamum inimigo ao menos tonificado, dentro de sua novaordem global, contra o qual o uso da força, desprovidode legitimidade moral ou intelectual, seria apenaspaliativo, de modo que a instabilidade ganhariacontornos definitivos dentro do novel sistemainternacional.
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