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A Bolívia é um país que possui algumascaracterísticas específicas no contexto sul-americano.Historicamente, foi no altiplano boliviano que seiniciou o processo de independência das colôniashispânicas no subcontinente muito embora,curiosamente, a Bolívia terminou por ser o últimoterritório hispânico na América do Sul a obter aindependência, em 1825. Em termos geográficos, opaís representa um divisor de águas na América doSul, integrando simultaneamente duas grandesregiões, a zona andina e a zona platina.Os interesses do Brasil na Bolívia são múltiplos eevidentes, sem contar o fator histórico e a enormefronteira comum entre os dois países. Atualmente, omais importante para o Brasil na Bolívia é a exploraçãodo gás boliviano, com grandes investimentos daPetrobrás no país vizinho. Além disso, deve-se levarem consideração a questão da cocaína, do fluxomigratório de bolivianos para o Brasil, especialmentepara São Paulo, onde boa parte deles acaba sendosubmetida a uma superexploração em condiçõesdesumanas de trabalho e também a questão relativaà segurança nas áreas de fronteira, especialmente nafronteira de Mato Grosso (mas não apenas), área ondehá considerável fluxo de ilícitos, geralmente associadosa roubos diversos (automóveis, motocicletas, tratores,caminhões, equipamentos agrícolas e tudo o mais quesatisfaça aos vendedores e compradores de cocaína)com ligações com o tráfico internacional de drogas eque acabam explodindo e alimentando a violênciaurbana das grandes cidades brasileiras.Não há dúvida, contudo, que o principal interessebrasileiro na Bolívia está relacionado, como ressaltadoacima, à exploração do gás para utilização industrialnas regiões sul, sudeste e centro-oeste brasileiras. Osinvestimentos da Petrobrás na Bolívia para aexploração do gás são estimados em cerca de doisbilhões de dólares, o que faz com que a estatalbrasileira seja uma das empresas que mais investemno país vizinho.Nesse sentido, os últimos acontecimentos naBolívia interessam diretamente ao Brasil, sobretudoporque estão estreitamente relacionados à exploraçãodo gás boliviano. Um dos fatores que animamultidões de bolivianos, especialmente dos setoresda sociedade mais marginalizados, é uma amplacampanha de tipo nacionalista que identifica naexploração dos recursos naturais bolivianos pelo capitalestrangeiro uma forma de usurpação, a qual tempotencial de eliminar o que consideram ser talvez aúltima chance do país em utilizar um recursoenergético específico (o gás ) que poderia ser utilizadopara alavancar o desenvolvimento nacional.Para complicar o quadro, ainda está viva namemória de boa parte dos bolivianos nem tanto aexploração da prata, levada aos montes pelosespanhóis, mas sim a drenagem do estanho, quegerou riqueza altamente concentrada em mãos depoucos. Além disso, há ainda na Bolívia uma espéciede sentimento coletivo de ressentimento com a perdade seu acesso ao litoral, ocorrida na Guerra do Pacíficoe na qual, com a condição de estado vencedor, o Chilecapturou esse importante território boliviano. O fatode que parte do gás que estaria sendo vendido paraos Estados Unidos da América seria escoado porportos chilenos, atiçou ainda mais a ira de algumaslideranças populares bolivianas, o que ajudou ainflamar o discurso contra a exploração do gás.Esses setores, agitados pelos chamados“cocaleros” e constituído em sua maioria por
 A crise da Bolívia e os interesses brasileiros
Pio Penna Filho*
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Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor de HistóriaContemporânea e História da América na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
 
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populações de origem indígena, historicamentemarginalizadas, voltaram-se contra o governo, queafinal foi identificado como entreguista e coniventecom os grupos internacionais interessados no gás dopaís. A intensidade dos protestos e a violência daígerada acabou provocando o isolamento da capital,mortes de manifestantes e a renúncia do presidente.O Brasil acompanhou com atenção epreocupação o desenrolar dos acontecimentos, tantopor motivos políticos quanto econômicos. Do pontode vista político importa evitar que um país sul-americano entre em estado de insolvência, como podeacontecer com a Bolívia. Do ponto de vista econômico,está na ordem do dia a garantia de que os pesadosinvestimentos no país vizinho não sejam prejudicadose que o Brasil possa contar com mais essa fonteenergética para a continuidade da expansão de suabase industrial.
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