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Parece claro que, desde a redemocratização doPaís, há mais de 20 anos, a sociedade brasileira nãofoi capaz de produzir discussão pública minimamenteconsistente sobre temas relacionados à segurança edefesa. Não caberia aqui debater as razões que levama que tal situação se perpetue. No entanto, é forçosomencionar que a pobreza conceitual não deixa de terimplicações concretas. Refiro-me à bolorentarenovação de um certo alarme sobre a possibilidadede que esteja em curso na América do Sul uma“corrida armamentista” e às conseqüências práticaseventualmente decorrentes dessa perspectiva.No passado recente, articulistas, professoresuniversitários, burocratas e até mesmo autoridadespolíticas locais vieram a público manifestarpreocupação com iniciativas que tenderiam a causar“desequilíbrios estratégicos” na América do Sul e, emreação a estes, uma indesejável corrida armamentistano subcontinente. O foco essencial de atenção resideclaramente na Venezuela, onde o Presidente HugoChávez está promovendo um ambicioso programade reaparelhamento militar. A esse respeito, omitireide maneira deliberada a avaliação sobre o potencialde desestabilização regional venezuelano
lato sensu
(algo que não depende, em essência, de poderio bélico)e concentrar-me-ei apenas no significado doreaparelhamento daquele país no que concerne aosuposto desencadeamento de corrida porarmamentos no entorno sul-americano.Do ponto de vista da literatura especializada,não há consenso sobre o que venha a constituir defato uma corrida armamentista. Esta, defendemalguns, seria uma conseqüência mais ou menos
Corrida armamentista na América do Sul:falácia conceitual e irritante político
João Paulo Soares Alsina*
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Diplomata e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). As opiniões expressas no presentetexto são exclusivamente as de seu autor (jalsina@mre.gov.br).
mecânica gerada a partir de um modelo cognitivo dotipo ação-reação ativado pela existência de um dilemade segurança. Ainda de maneira cursória, o últimoviria à tona quando um estado, ao procurar aumentarsua capacidade de defesa (passível de ser utilizadaofensivamente), gera a percepção em outro estadode que o ganho do adversário constitui umadiminuição líquida de sua segurança. Reagindo a essapercepção, o segundo estado também promoveexpansão de sua capacidade de defesa, terminandopor produzir uma diminuição da segurança do estadoque iniciou o processo. Seguir-se-ia, então, uma espiral,uma corrida por armamentos, que terminaria porgerar instabilidade e, no limite, guerra.O problema fundamental dessa visão é que ela éincapaz de distinguir entre o que seriam as relaçõesmilitares normais entre os estados e o que seriamrelações anormais, onde a corrida por armamentosrepresentaria um sintoma de hostilidade. Caso seconsidere o contrário, ou seja, que o padrão seria ahostilidade, ainda assim a tese da corrida armamentistacomo elemento negativo/desestabilizador nãoconsegue explicar a anormalidade, ou seja, a harmoniano relacionamento militar entre dois ou mais estados.Na medida em que se considera que é normal que cadaestado possua Forças Armadas, que a evoluçãotecnológica determina processos periódicos dereaparelhamento, que a dinâmica da realidadeinternacional pode inclinar determinados países a reversuas políticas de defesa, entre outros fatores, torna-seextremamente difícil propor critérios objetivos para aidentificação de uma corrida armamentista. Ademais,o modelo ação-reação implícito na idéia de corrida por
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