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ISSN 1518-1219
Boletim de Análise de Conjuntura em Relações Internacionais
 
73Agosto – 2006
S U M Á R I OS U M Á R I OS U M Á R I OS U M Á R I OS U M Á R I O
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José Flávio Sombra SaraivaJosé Ribeiro Machado NetoCristina Soreanu PecequiloJoão Paulo Soares AlsinaPaulo Antônio Pereira PintoRogério de Souza FariasVirgílio ArraesSeme Taleb FaresJoão Fábio Bertonha
 
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Parece claro que, desde a redemocratização doPaís, há mais de 20 anos, a sociedade brasileira nãofoi capaz de produzir discussão pública minimamenteconsistente sobre temas relacionados à segurança edefesa. Não caberia aqui debater as razões que levama que tal situação se perpetue. No entanto, é forçosomencionar que a pobreza conceitual não deixa de terimplicações concretas. Refiro-me à bolorentarenovação de um certo alarme sobre a possibilidadede que esteja em curso na América do Sul uma“corrida armamentista” e às conseqüências práticaseventualmente decorrentes dessa perspectiva.No passado recente, articulistas, professoresuniversitários, burocratas e até mesmo autoridadespolíticas locais vieram a público manifestarpreocupação com iniciativas que tenderiam a causar“desequilíbrios estratégicos” na América do Sul e, emreação a estes, uma indesejável corrida armamentistano subcontinente. O foco essencial de atenção resideclaramente na Venezuela, onde o Presidente HugoChávez está promovendo um ambicioso programade reaparelhamento militar. A esse respeito, omitireide maneira deliberada a avaliação sobre o potencialde desestabilização regional venezuelano
lato sensu
(algo que não depende, em essência, de poderio bélico)e concentrar-me-ei apenas no significado doreaparelhamento daquele país no que concerne aosuposto desencadeamento de corrida porarmamentos no entorno sul-americano.Do ponto de vista da literatura especializada,não há consenso sobre o que venha a constituir defato uma corrida armamentista. Esta, defendemalguns, seria uma conseqüência mais ou menos
Corrida armamentista na América do Sul:falácia conceitual e irritante político
João Paulo Soares Alsina*
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Diplomata e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). As opiniões expressas no presentetexto são exclusivamente as de seu autor (jalsina@mre.gov.br).
mecânica gerada a partir de um modelo cognitivo dotipo ação-reação ativado pela existência de um dilemade segurança. Ainda de maneira cursória, o últimoviria à tona quando um estado, ao procurar aumentarsua capacidade de defesa (passível de ser utilizadaofensivamente), gera a percepção em outro estadode que o ganho do adversário constitui umadiminuição líquida de sua segurança. Reagindo a essapercepção, o segundo estado também promoveexpansão de sua capacidade de defesa, terminandopor produzir uma diminuição da segurança do estadoque iniciou o processo. Seguir-se-ia, então, uma espiral,uma corrida por armamentos, que terminaria porgerar instabilidade e, no limite, guerra.O problema fundamental dessa visão é que ela éincapaz de distinguir entre o que seriam as relaçõesmilitares normais entre os estados e o que seriamrelações anormais, onde a corrida por armamentosrepresentaria um sintoma de hostilidade. Caso seconsidere o contrário, ou seja, que o padrão seria ahostilidade, ainda assim a tese da corrida armamentistacomo elemento negativo/desestabilizador nãoconsegue explicar a anormalidade, ou seja, a harmoniano relacionamento militar entre dois ou mais estados.Na medida em que se considera que é normal que cadaestado possua Forças Armadas, que a evoluçãotecnológica determina processos periódicos dereaparelhamento, que a dinâmica da realidadeinternacional pode inclinar determinados países a reversuas políticas de defesa, entre outros fatores, torna-seextremamente difícil propor critérios objetivos para aidentificação de uma corrida armamentista. Ademais,o modelo ação-reação implícito na idéia de corrida por
 
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armamentos não considera a possibilidade de querelações políticas amistosas entre estados esvaziem designificado negativo eventuais incrementos decapacidades militares. Há ainda, em outra direção, oargumento de que é justamente o aumento decapacidades militares o responsável pela manutençãoda estabilidade no relacionamento entre unidadesestatais, ao aumentar o potencial de dissuasão dosadversários.Feita essa perfunctória explanação conceitual,onde argumentei contra o valor heurístico dautilização do termo corrida armamentista paracaracterizar a dinâmica de armamentos dos estadosnacionais, é possível indagar o que constituiriam asiniciativas do governo chavista no campo militar.Talvez a melhor definição para designar as iniciativasda Venezuela seja a de um grande processo dereaparelhamento concentrado no tempo – algo queo Chile também vem fazendo, porém de modo maisespaçado e com menos alarde. Parece claro que hárazões de ordem doméstica e internacional quedeterminam essa concentração temporal, permitidapelo aumento dos recursos disponíveis provenientesda exportação de petróleo. Ao encarar as compras dearmamentos venezuelanas por esse prisma, evita-seatribuir a elas o caráter de ameaça a um inefável“equilíbrio estratégico” sul-americano – conceito delimitada utilidade no contexto da existência de relaçõespolíticas cooperativas entre os países da região. Ora,se se supõe que são as relações políticas que plasmama moldura a partir da qual os
 policy-makers
concebema segurança de seus estados em relação aos demais,ao atribuir ao
build-up
da Venezuela a alcunha negativade corrida armamentista está-se justamentecontribuindo para minar a fluidez do relacionamentopolítico entre os estados da América do Sul, o que podelevar alguns estados a adotar medidas defensivas quede outra forma não adotariam! O círculo viciosoperceptual mencionado é nefasto. No entanto, é poucoprovável que venha a ter conseqüências importantes.Deve-se mencionar, assim, outro fator queaconselha extrema cautela no tocante à utilização deum conceito complexo e difuso como o que aqui seanalisa. Trata-se da inviabilidade material de qualquerdos países sul-americanos, inclusive o Brasil, virem aempreender ações militares ofensivas contra seusvizinhos. Como região menos armada do planeta,inexiste capacidade de projeção de poder crível naAmérica do Sul. Basta uma rápida análise dosinventários de armamentos para revelar a totalincapacidade dos exércitos da região sustentaremações bélicas de monta. Tome-se o caso da Marinhabrasileira, tida como a melhor da América Latina –embora possa em breve ser superada pela do Chile,se persistir o atual processo de sucateamento. Seuestoque de torpedos avançados (cerca de 30) não ésuficiente sequer para armar com capacidade máximaos 5 submarinos nacionais! E isso somente uma vez!Exemplos como esse poderiam se multiplicar. Há aindaque ter em mente o fato de que a penúria da maiorparte das Forças Armadas sul-americanas determinaum baixíssimo grau de disponibilidade das plataformasde combate. Somente no Brasil há informação de quequase 50% dos navios de guerra e dos aviões de caçaestariam parados por falta de peças de reposição. OExército teria problemas semelhantes em relação aseus helicópteros. Se a caracterização acima mencionadafor verdadeira, não há motivos para temer, ao menosa curto prazo, que o reaparelhamento militar daVenezuela venha a constituir ameaça para seus vizinhos.No caso brasileiro, porém, há um elementoadicional que determina contenção na denúncia dascompras de armamento venezuelanas. Refiro-me aofato de que, mais cedo ou mais tarde, o Brasil teráque se defrontar com escolhas muito difíceis nocampo da defesa nacional. Mantendo o sentido deconcisão deste ensaio, mencionarei apenas que ocontinuado sucateamento das Forças Armadas,acoplado ao caos prevalecente na área de segurançapública, indica que se torna a cada dia mais claro umcenário de transformação prática de Marinha, Exércitoe Aeronáutica em forças parapoliciais. Assim, se nadafor feito para mudar o atual rumo das Forças Armadasbrasileiras, elas se transformarão em guardas
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